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A-24

Uma religião de paz

por A-24, em 30.04.13
Alberto Gonçalves

Por puro acaso, estava em Nova Iorque no momento dos atentados e passei por Boston dois dias depois dos atentados. Mesmo que não tivesse estado ou passado, o acesso à Internet e aos canais estrangeiros do "cabo" permitir-me-iam dar uma boa notícia: a idiotia, a má-fé e o medo não são um exclusivo português.

É verdade que em Portugal um jornal diário produziu um título sobre os dois assassinos da maratona que rezava assim: "Os irmãos Tsarnaev: um pugilista sem amigos americanos e um jovem com um "coração de ouro"". E é verdade que, numa luta titânica contra as evidências, uma conhecida "jornalista" da nossa televisão negou cabalmente qualquer proximidade do pugilista e do Coraçãozinho Dourado ao islamismo. E é ainda verdade que as ponderadas "redes sociais" dos meus compatriotas ou se encheram de desculpas para o crime ou de garantias de que os criminosos eram, cito um exemplo de inquebrantável devoção à palermice humana, "cristãos ortodoxos".

Mas também é verdade que a atitude de diversos media ou anónimos americanos não andou longe desse frenesim desesperado por desprezar o óbvio: quem matou quatro inocentes e feriu com gravidade variável outros 200 foram dois crentes em Alá. Se se percebe que certos muçulmanos menos dados a massacres tentem evitar a conotação, custa um bocadinho perceber que tantos ocidentais procedam de igual modo. E as desvantagens das generalizações não servem de atenuante.


O Ocidente, ou a parte irremediavelmente obtusa dele, não teria nenhum problema em generalizar caso os psicopatas em causa militassem, como inúmeras criaturas chegaram a desejar intensamente, em bandos de extrema-direita. Ou integrassem uma facção fundamentalista do cristianismo. Ou defendessem o direito de Israel a existir. Com ou sem generalizações, o Ocidente nem se importaria que os psicopatas fossem hindus, budistas, xintoístas, animistas ou sportinguistas. O que não convinha era que fossem seguidores do Profeta.
A maçada é que os factos não se interessam pelas conveniências. Se a memória não me falha, é raro que nos tempos actuais cristãos, judeus, hindus, budistas e tal andem pela América e pela Europa a explodir infiéis em nome da supremacia religiosa. Por peculiar regra, essa é uma prerrogativa de muçulmanos, ditos "extremistas" e, de acordo com a opinião dominante, nada, nada, nada representativos de uma fé dedicada à harmonia universal. E até o "extremismo" beneficia de legitimação e explicações.
Repare-se nalgumas: Tamerlan, o mais velho dos amorosos irmãos Tsarnaev, não conseguia fazer amigos; Tamerlan fora pugilista e, por isso, talvez sofresse de encefalopatia traumática crónica; Tamerlan, coitadito, sentia-se descontente com o estereótipo que relaciona o islamismo com a violência. De modo a desmontar um estereótipo tão absurdo, Tamerlan rebentou com duas centenas de transeuntes. Ou procedeu da forma que procede qualquer lutador de boxe e rebentou com duas centenas de transeuntes. Ou procurou estabelecer amizades rebentando com duas centenas de transeuntes. E o mano Dzhokhar, uma jóia de moço, naturalmente seguiu-o.

É um sintoma quase comovente do ecumenismo da nossa civilização que se desça aos abismos da estupidez a fim de obscurecer o papel do fanatismo islâmico nos actos e nas vítimas de Boston. Só é pena que a vocação ecuménica não encontre reflexos suficientes no lado "deles", que demonstra uma vontade de destruir proporcional à vontade de muitos de nós em abdicar. Não digo que a destruição possa ser sempre prevenida: digo que é desaconselhável ser incentivada. Perder no masoquismo é pior do que perder a maratona.