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A-24

Uma opinião sobre o eurofestival

por A-24, em 29.05.12

Claro que o “music-hall” Eurovision Song Contest é “coisa inferior e própria de países subdesenvolvidos”. Não tendo qualquer interesse ou substância, apenas os supra-pacóvios moradores de distantes tugúrios como a Suécia, a Alemanha, Noruega, Dinamarca, Holanda e alguns países do leste lhe poderão dar alguma atenção. Por mero e ardiloso acaso, são precisamente os países onde existe uma educação musical ministrada nas escolas, coisa por cá desaparecida há uns quarenta anos. Enfim, deixando desde logo este tranquilizador ponto de descanso da consciência dos nossos intelectuais do lacrimoso neo-realismo doutoral, vamos ao que interessa.
Bem podem os portugueses encontrar uma linda rapariga que cante bem. Bem fazem em esforçar-se por enviar canções com letras que transmitam algo para além dos lá-lá-lás, yeah! e boom-boom-boom que ontem escutámos. Pode a RTP até colocar os dois filhos de Toni Carreira nus em palco e mesmo assim não vai a sítio algum. Esmifre-se a RTP em utilizar bandeiras de Património Mundial, pois isso de nada serve. Temos apenas um vizinho e mesmo esse, bastas vezes como é seu costume noutras matérias mais importantes, faz de conta não existirmos. Se Vasco da Gama “nunca existiu”, who cares about Simone, Cid, Doce and so on?

Nos tempos em que este concurso fazia parte de uma certa ideia da Europa do pós-guerra – roupa da Carnaby Street, CEE, NATO e Eurovisão -, já verificávamos certos favoritismos “just because”, traduzindo-se estes nas trocas de 10 e 12 pontos entres os escandinavos e entre os irmãos separados gregos e cipriotas, por exemplo. Cada um cantava na sua língua, embora o conjunto geral sempre tivesse algo de internacional e ditado pela moda de cada ano. Com o definitivo rasgar da Cortina de Ferro, instalou-se o inglês como obrigação de palmatoada, vieram candidatos ao decadentismo musical pequeno burguês do Ocidente e surpresa das surpresas, com vontade de tornarem o certame como coisa própria. Mais ainda, conseguiram os russos, ucranianos, baltas e nórdicos, arrastar os alemães para as praças onde aos magotes de milhar assistem à coisa como se uma final de um Euro do futebol se tratasse. Como é possível aquela gente que ainda há vinte e cinco anos vivia num mundo sem tecnologia de consumo, semié-ié ou disco sound, atrever-se a estas exibições que fazem inveja a Las Vegas? A resposta é fácil: tradição, escola e cultura musical, coisas perfeitamente caducas e dispensáveis neste nosso mundo de sabichões choramingas à beira Atlântico.
Há vinte anos, croatas, sérvios, bósnios e macedónios matavam-se uns aos outros sem dó ou piedade, mas hoje em dia é verificarmos o desvelo, o suspense quase em espírito de renascimento do Império Austro-Húngaro semi-titista que os locutores tentam dar à transmissão dos tais almejados doze pontos que no caso de croatas, eslovenos ou macedónios vão infalivelmente para a TV de Belgrado. O vice-versa aplica-se e isto seis vezes repetidas. Idem idem, aspas aspas em relação ao império dos czares e de Estaline. Nagorno-Karaback, Tchechénia-Ingúchia, contorcionismos georgianos, luta pela frota do Mar Negro, má-língua pelo gasoduto, rota do petróleo e pela Crimeia? Qual quê…se até o caudilho de Minsk se dá ao luxo de ser ele o autocrático e presidencial seleccionador de quem vai representar a TV daquele país?
Os tradicionais vencedores volatilizaram-se dos primeiros lugares, muitos deles já nem sequer conseguindo passar a cavilosa pré-selecção que no mesmo lote coloca quatro ou cinco países ex-jugoslavos e na outra uns cinco da antiga Rússia imperial. Assim é fácil e longe vão os tempos das Sandie Show, Severine, Vicky Leandros, Cliff Richard, Abba, Celine Dion e por aí fora. Enfim, acabaram-se as divas por uma noite. Apenas a Suécia conseguiu ontem escapar ao massacre ocidental e se estiveram com um mínimo de atenção, decerto terão reparado de onde vinha aquela “votaria” toda: sendo a cantora de origem marroquina e a canção de uma menos que suburbana vulgaridade mais que absoluta, arrebanhou 12 pontos em todos os países onde existem fortes comunidades muçulmanas. Bem podem os imãs arrancar as barbas e invocar o Profeta, pois a artista parece ser exactamente o oposto daquilo que no Ocidente se considera ser uma “mulher islâmica”. E ainda bem que assim foi, apesar do flagrante abuso fruadulento em que consiste o voto “just because”.
Mas não nos ralemos com isso. O video que aqui deixamos não envergonha seja quem for. Uma espectacular rapariga cantando uma boa melodia do Porugal de novecentos anos, composta por um nome retintamente eslavo que parece conhecer-nos demasiadamente bem. Nem um saltão, majorette, saltimbanco ou trupe de palhaços a enquadrarem a cena de encher o olho. Uma letra que nos coloca nas ruas da Lisboa de todos os dias, um som que identifica Portugal – e um acordeão de Buenos Aires – ao fim de alguns segundos e ainda por cima cantado naquela insignificante língua de 250 milhões. E assim deverá continuar a ser.
in Estado Sentido

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