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A-24

Uma opinião sobre a época futebolística que terminou

por A-24, em 14.05.12
Por Luis Francisco, in Público

Ao fim de meses de competição, o principal campeonato nacional de futebol chegou ao fim e, enquanto os vencedores celebram, os derrotados vão fazendo constar que houve factores externos a prejudicar o seu desempenho e que na próxima época estarão mais fortes. É normal, é típico desta fase pré-Verão.
Mas o que a Liga Zon/Sagres 2011/2012 trouxe de diferente foi a sensação de que o campeão se sagrou vencedor contra si próprio. Num dos campeonatos mais aguerridos e disputados dos últimos tempos, o FC Porto venceu, mas não convenceu muita gente. Principalmente porque é tentador ler o triunfo portista como um mero (e eficaz) aproveitamento dos falhanços do Benfica. Mas será assim tão justa esta abordagem? Talvez haja boas pistas para esta discussão quando procuramos os jogadores que, em cada equipa, foram um espelho fiel do desempenho de conjunto.No FC Porto, não há como analisar esta época sem olhar para Hulk. Arrasador no início do campeonato, cinzentão e esforçado a meio da época, pleno de confiança e autoridade na fase final. Se o rendimento de Hulk é reflexo do rendimento da equipa ou vice-versa, eis uma questão interessante.
Ninguém é campeão sozinho e esta verdade basilar vale ainda mais no caso do FC Porto 2011/2012, obrigado a reinventar-se e a fazer das fraquezas forças num campeonato particularmente ingrato. Mas Hulk esteve sempre lá, no melhor e no pior. Ele simboliza o brilhantismo técnico e físico do conjunto, mas também a capacidade para nunca atirar a toalha, para manter a capacidade de luta mesmo quando tudo corria mal e para acreditar que, mais tarde ou mais cedo, as coisas levariam uma volta.
O avançado brasileiro foi a grande figura do campeonato – a meu ver, não tanto por ter ganho, mas por ter sido sempre capaz de assumir a liderança de um conjunto que, algumas vezes, pareceu não estar à sua altura. Ele acreditou sempre. E arrastou consigo uma equipa cujo treinador demorou a assentar ideias e em que há, claramente, jogadores que não merecem a faixa de campeão.
Do lado do Benfica, a equipa que teve tudo na mão e acabou por baquear na fase decisiva, talvez o símbolo máximo do estado de espírito geral seja Cardozo. Sim, ele foi melhor do que o conjunto na sua capacidade de sofrimento – segundo o treinador Jorge Jesus, entrou lesionado para a última partida, onde garantiu o título de melhor marcador.
Mas se há coisa em que este Benfica leva uma grande lição para aprender é na capacidade para perceber que uma época dura nove meses e não se acumulam créditos de uma semana para a outra. Isso e que o conjunto é mais importante do que os objectivos pessoais. Afinal, como Cardozo: goleador como sempre, mas quase eclipsado quando a equipa precisava mais dele, para resolver jogos em que muita coisa corria mal.
Depois, o paraguaio ressuscitou. Perante o cenário de uma distinção individual (apesar de, claro, ser sempre fruto do trabalho colectivo), ele regressou dos mortos e ainda foi a tempo de marcar o golo decisivo (embora tenha precisado de fazer 12 – doze! – remates frente ao V. Setúbal para chegar a esse momento de felicidade...). Cardozo ganhou qualquer coisita, o Benfica também. Sem grande glória. E deixando sérias dúvidas sobre a dinâmica de grupo.
O Braga garantiu o terceiro lugar. Escrevo antes de Paulo Bento divulgar a lista de convocados para o Euro 2012. Tudo indicava que Hugo Viana ficaria de fora dos 23 e isso parece um espelho fiel do que foi a equipa treinada por Leonardo Jardim neste campeonato. Capaz de jogar bem, incapaz de impor a sua marca nos momentos decisivos. Hugo Viana foi dos melhores médios da prova – entre os portugueses, só a “máquina” João Moutinho lhe faz sombra.
Mas dificilmente nos lembraremos disso daqui a uns tempos. Porque o Braga, jogando bom futebol e resistindo à erosão das muitas saídas, acabou por ser irrelevante no campeonato dos grandes, aquele onde quer entrar.
O Sporting terminou o campeonato a ganhar ao Braga, num jogo em que Van Wolfswinkel marcou três golos. O jovem avançado holandês começou a época em grande, ajudando a alimentar a expectativa que rodeava a sua equipa. Gradualmente, foi perdendo brilho até desaparecer completamente (uma lesão “ajudou” a explicar este ocaso). Parece a descrição do trajecto da equipa que foi de Domingos e depois passou para o comando de Sá Pinto. As últimas semanas de competição mostraram um grupo subitamente moralizado e lutador, já incapaz de recuperar o terceiro lugar, mas a definir bem a fronteira para o resto do pelotão.
Van Wolfswinkel acordou, também ele, nesta fase. Sinal de que um ponta-de-lança só funciona numa equipa que carbura ou evidência de que os golos são a melhor vitamina para a autoconfiança? Provavelmente, um bocadinho de ambos.

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