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A-24

Um novo Nobel no ténis

por A-24, em 01.02.14

rui.antunes@sol.pt

“Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor”. Uma das mais célebres citações de Samuel Beckett, prémio Nobel da Literatura em 1969, está tatuada no braço esquerdo de Stanislas Wawrinka, o tenista suíço que aos 28 anos venceu no domingo o seu primeiro torneio do Grand Slam, na Austrália.

As palavras do dramaturgo irlandês aplicam-se com precisão a uma carreira marcada por sucessivas derrotas frente aos 'monstros' que têm dominado a modalidade na última década. Desde 2004, Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic venceram 34 dos 41 grandes torneios disputados e Wawrinka, profissional desde 2002, habituou-se a vê-los ganhar.
Apesar de ser presença assídua no top-20 mundial desde 2008, o suíço chegou ao Open da Austrália deste ano com um triunfo em 14 partidas frente a Federer, dois em 17 perante Djokovic e zero em 12 com Nadal. Mas nada o demoveu de seguir a lição de Beckett que tem colada ao corpo.

“É essa a minha filosofia de vida e no ténis. Se não te chamas Nadal, Federer ou Djokovic, tens de aprender com as derrotas e precisas de voltar ao trabalho”, sublinha Wawrinka.
De tanto fracassar e tentar de novo, o destino mudou no Open da Austrália. Após 14 derrotas consecutivas com Novak Djokovic, afastou o sérvio nos quartos-de-final (2-6, 6-4, 6-4, 3-6 e 9-7). E na final, arbitrada pelo português Carlos Ramos, vergou pela primeira vez Rafael Nadal (6-3, 6-2, 3-6 e 6-3), a quem nunca havia 'roubado' sequer um set ou um jogo de serviço.
“Há uma grande possibilidade de acabar esta noite bêbado”, gracejou Wawrinka, o primeiro tenista desde o espanhol Sergi Bruguera, em 1993, a bater os dois melhores do ranking ATP num dos quatro grandes torneios - Open da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e Open dos Estados Unidos.
“Nunca esperei ganhar um Grand Slam porque, para mim, não era suficiente bom para vencer estes tipos”, declarou o quinto jogador a quebrar a hegemonia de Federer, Nadal e Djokovic nos últimos 10 anos. Neste período, apenas Andy Murray (US Open-2012 e Wimbledon-2013), Del Potro (US Open-2009), Marat Safin (Open da Austrália-2005) e Gastón Gaudio (Roland Garros-2004) tinham contrariado a lógica nos Grand Slams.

Campeão olímpico em 2008, em Pequim, no torneio de pares em que fez dupla com Federer, Stanislas Wawrinka atinge agora o auge da carreira, coroado com a subida do oitavo para o terceiro lugar do ranking ATP e o inédito estatuto de melhor tenista da Suíça.
Com o triunfo na Austrália, o campeão do Portugal Open do ano passado arrecadou 1,6 milhões de euros de prize-money, quase 25% da verba que tinha acumulado em 12 anos no circuito profissional.