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A-24

UKIP, o partido que faz tremer os Tories

por A-24, em 26.12.12

Em tempos descrito pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, como um grupo de "excêntricos, loucos e racistas que não saíram do armário", este movimento ferozmente eurocético está a tornar-se uma força política de peso, que atrai os elementos mais eurofóbicos dos conservadores, ajudando a influenciar a política do Governo. Excertos.

John Harris

A grande história política deste inverno poderá vir a centrar-se não nos conservadores, nos trabalhistas ou nos liberais democratas, mas numa organização que, até há pouco tempo, era normalmente relegada para segundo plano e ridicularizada como um bando de excêntricos e aves raras.
Em geral, o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) tem recolhido pelo menos 6% ou 7% nas sondagens, por vezes chegando aos 11%, mas entrou realmente na cena política dominante no período preparatório das eleições parciais em Rotherham. As perspetivas do partido foram aumentadas por uma história notável, depois de o conselho municipal decidir retirar três crianças aos pais adotivos, quando se descobriu que o casal era membro do UKIP. As crianças são imigrantes da Europa continental; a diretora dos serviços de apoio à infância de Rotherham declarou que tivera de ter em conta as "necessidades culturais e étnicas" das crianças, no contexto da política do UKIP em matéria de multiculturalismo.
Recentemente, o deputado e vice-presidente do Partido Conservador, Michael Fabricant, publicou um relatório intitulado "O Pacto", no qual sugere um acordo eleitoral entre os conservadores e o UKIP, com base num referendo sobre a condição de membro da UE do Reino Unido, e oferecendo um lugar num futuro Governo Tory ao líder do UKIP, Nigel Farage. A liderança conservadora manifestou as apropriadas reservas a tal sugestão, mas o pensamento subjacente era revelador: a ascensão do UKIP está a abalar os nervos dos tories [membros do partido conservador].
O UKIP já tem doze deputados no Parlamento Europeu e há três outros ex-conservadores do UKIP na Câmara dos Lordes. Neste momento, o partido tem 158 pessoas em conselhos municipais, embora a grande maioria esteja concentrada aos níveis de cidade e freguesia, um número que é regularmente aumentado por mais conservadores em revolta. Todos eles são devotados a um autodenominado "partido libertário e não racista que defende a saída do Reino Unido da UE", cujas ideias assentam na afirmação de que até os conservadores – e leiam esta passagem lentamente – "são agora sociais-democratas" e que os principais partidos "não oferecem aos eleitores uma verdadeira alternativa".

Menos Estado e cortes nas despesas
Além da saída da Europa, as outras posições e políticas importantes do UKIP parecem deliberadamente concebidas para atravessarem a fronteira do que resta da agenda de "modernização" das grandes cidades que Cameron e os seus apoiantes integraram na moderna política conservadora. A principal dessas posições é a ideia de que as alterações climáticas são uma questão que ainda está a ser debatida e que a "energia eólica é inútil", e a afirmação de que deveria haver "cortes reais e rigorosos na ajuda externa" (aparentemente, a ser "substituída pelo comércio livre"). Se tivesse oportunidade, o UKIP também congelaria a "imigração permanente" por cinco anos.
A corrente dominante do partido favorece uma linha de menos Estado e cortes nas despesas, que manteria as armas nucleares do Reino Unido e "faria das maiores despesas com a defesa uma prioridade clara". O UKIP opõe-se ao casamento de homossexuais (embora as uniões de facto mereçam o OK) e defende o fim da proibição de fumar em "em salas específicas de bares, clubes e hotéis". Os radicais do partido também acreditam numa taxa fixa de imposto sobre o rendimento, uma ideia que obteve aprovação na Sérvia, Ucrânia, Eslováquia, Geórgia e Roménia.
Em 2006, para grande irritação do UKIP, Cameron rotulou-o de partido de "excêntricos, loucos e racistas que não saíram do armário". De vez em quando, há histórias de membros do UKIP com ligações à extrema-direita. No Parlamento Europeu, os seus deputados fazem parte de um grupo chamado Europa da Liberdade e da Democracia, no qual se inclui também a Liga do Norte italiana, o partido lituano Ordem e Justiça e uma formação grega chamada Aliança Ortodoxa Popular.
Por que motivo terá o apoio do partido aumentado de repente? Segundo o conhecido estudioso de atos eleitorais e professor de política da Universidade de Strathclyde, John Curtice, a resposta está inevitavelmente interligada com duas instituições que tiveram um 2012 negativo: a União Europeia e o Partido Conservador britânico. "A resposta simples é que o público está a ficar muito mais eurocético", diz. "Mas não é claro que esteja mais eurocético do que no fim dos anos 1970 e princípios dos anos 1980. O outro argumento é que temos uma série de pessoas que são normalmente apoiantes dos conservadores e que não têm a certeza absoluta de que Cameron tenha as qualidades necessárias. Perderam a confiança na competência dos conservadores. Para onde vai quem se encontre nessa situação e seja um eleitor de centro-direita?"

Objetivo: vencer as eleições europeias

Em 1991, um historiador e académico da London School of Economics chamado Alan Sked formou a Liga Anti-Federalista, uma pequena organização interpartidária que se opunha ao Tratado de Maastricht, o acordo que instituía formalmente aquilo que conhecemos como União Europeia. Dois anos mais tarde, a liga transformou-se no Partido da Independência do Reino Unido.
Em 1999, o UKIP conseguiu os seus primeiros três deputados ao Parlamento Europeu. Cinco anos mais tarde, atingia o seu momento decisivo, ao eleger doze. Nigel Farage, corretor de mercadorias e antigo conservador, tornou-se líder do UKIP em setembro de 2006, tendo-se demitido três anos depois. Em novembro de 2010, Farage voltou a ser líder do UKIP e é agora parte firmemente inserida na sua cultura.
Paul Nuttall, de 35 anos, é um antigo académico natural de Liverpool, eurodeputado pela região noroeste e agora vice-presidente do partido. Atribui o aparente crescimento do partido ao facto de "se ter provado que tinha razão sobre tudo o que tem a ver com a União Europeia" e às inúmeras advertências que o partido fez quanto à "imigração em massa e não controlada".
Recorda-me que o objetivo do partido é ficar em primeiro lugar, nas eleições europeias de 2014. Nas eleições gerais do próximo ano, o UKIP quer nada menos do que um "terramoto político", embora o significado da expressão não seja claro. Mas, pergunto-me, por que não fazer um esforço e aceitar o programa de Fabricant? Afinal, um acordo com os conservadores garantir-lhes-ia pelo menos uma pasta no Executivo – e, é de presumir, meia dúzia de deputados. "Neste momento, o maior obstáculo é o próprio primeiro-ministro", diz Nuttall. "Não se pode confiar nele no que se refere à União Europeia."