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A-24

Ucrânia: As perguntas certas

por A-24, em 14.04.14
Via Da Rússia

"Os mais recentes acontecimentos em solo ucraniano lançaram o espectro da guerra civil no país entre, por um lado, a facção pró-Rússia, concentrada sobretudo no Leste e Sul do país, e a facção revoltosa, empossada como governo legítimo por uma parte da comunidade internacional.


Mas a quem é que interessa uma guerra civil ucraniana?

Afirmação do poder na ordem interna
Presentemente, e como é do conhecimento público, as autoridades saídas da revolta da Maidan estão a afirmar, pela força, a sua opção política e o seu poder, quer através da criteriosa eliminação de elementos-chave das facções “incómodas” aliadas ao poder, quer através da detenção (ou rapto) dos contestatários à presente ordem “constitucional” sob a acusação de promoverem “actividades ilegais relacionadas com separatismo, organização de distúrbios e atentado à saúde de terceiros”, como o refere o Ministério do Interior ucraniano.

Da mesma forma que efectuam estes “ataques cirúrgicos”, as novas autoridades usam a força, ou a ameaça do seu emprego, para impor uma pretensa unidade nacional – que é inexistente – e a segurança da integridade territorial do país, país esse, obviamente, submetido aos critérios e opções dos revoltosos, sem qualquer possibilidade de contestação ou discussão de uma eventual alteração da Constituição e da estrutura política do país.


Os ataques aos contestatários do Leste por parte dos facciosos do Oeste poderão espoletar, de facto, uma guerra civil, mas isso, à partida, beneficiaria sobretudo a facção que tomou o poder em Kiev, isto é, a facção Ocidental.

Ao contrário do anterior poder ucraniano, as novas autoridades de Kiev não hesitam em usar forças especiais fortemente armadas para contestar e retomar aos “revoltosos” do Leste os edifícios governamentais que estes ocuparam, nomeadamente em Kharkov. Tais “operações anti-terroristas” têm total aprovação por parte dos mesmos elementos da comunidade internacional que criticaram fortemente as “operações anti-terroristas” lançadas pelo anterior governo contra os revoltosos violentos que acabaram por tomar o poder em Kiev.
Como seria de se esperar, estas acções armadas não reúnem o consenso em Kiev. Hoje mesmo o líder do Partido Comunista ucraniano, Petro Symonenko, elevou os ânimos na Rada ao afirmar, referindo-se à ocupação de edifícios no Leste, que os nacionalistas tinham criado esse precedente no início deste ano ao tomar de assalto edifícios do governo um pouco por todo o centro e Oeste da Ucrânia, e que agora, grupos armados atacavam pessoas que procuravam afirmar os seus direitos pela via pacífica, reforçando ainda as suas afirmações dizendo que o actual governo “faz tudo por intimidar as pessoas, efectua prisões e combate todos aqueles que têm uma opinião diferente da sua”. Naturalmente, e de forma bastante “democrática”, Symonenko foi expulso pela força do palanque de onde discursava por deputados do Svoboda.
Às novas autoridade ucranianas também interessa provocar confrontos que levem a uma eventual intervenção militar russa, ou ameaça, real ou imaginária, de intervenção. Isso servirá de arma política extra para apressar uma intervenção da NATO e da UE no país e cimentar, com a ajuda armada estrangeira, um poder que é intensamente contestado na ordem interna.

Cofres e gás
Uma das causas mais profundas da crise ucraniana – talvez a mais profunda – é a incapacidade que o país tem revelado em reerguer a sua economia. Durante anos, esta foi mantida artificialmente à tona por via da ajuda de Moscovo, que não só concedia empréstimos como fornecia gás natural muito abaixo do preço praticado a outros países. Evidentemente, não há almoço grátis e a Rússia esperava, legitimamente, obter benefícios políticos e económicos por parte de Kiev. Contudo, o volte-face verificado na Ucrânia e a tomada do poder por uma facção fortemente hostil à Rússia deitou por terra tais expectativas.

De momento, e num futuro a médio (10 anos) ou longo prazo, a economia ucraniana não reúne condições para se reerguer. A Rússia, já se viu, irá ser a principal perdedora, pois dificilmente irá recuperar o investimento feito a não ser, eventualmente, numa situação de federalização do país, com a metade Leste e Sul - mais desenvolvida - a cooperar estreitamente com Moscovo. Mas na emergência de uma guerra civil, as estruturas produtivas destas regiões poderão ser destruídas e a sua recuperação será ruinosa. Nada que perturbe o Oeste, que só poderia contar com tais unidades produtivas numa situação de absoluto controlo das mesmas, ou o “Ocidente” (leia-se UE), que nunca terá verdadeiramente contado com essas empresas para investir na Ucrânia, ou seja, para encetar um programa de “reestruturação económica” similar ao criado para “auxiliar” Portugal e a Grécia.


Com o “fecho da torneira” do gás subsidiado e o fim dos empréstimos concedidos pela Rússia, o único país com verdadeiro interesse em empenhar dinheiro na Ucrânia pois os outros, até ao momento, apenas anunciaram intenções, é duvidoso que a Ucrânia recupere economicamente para um nível sequer aproximado ao do existente antes do início dos protestos na Maidan.
Contudo, numa situação de guerra civil, a intervenção da comunidade internacional que está do lado da facção do Oeste terá de ser real pois “a NATO e a EU não podem deixar o país ficar dividido como a Alemanha” nem “deixa-lo ficar sob a alçada de Moscovo”. Enterrar copiosas quantidades de dinheiro nos cofres de Kiev poderá ser a tábua de salvação para o novo regime o qual, face à escassez, poderá sempre invocar que “a culpa é dos moskali”.

Em jeito de conclusão

A tomada do poder por parte dos revoltosos da Maidan foi uma violação da ordem constitucional da Ucrânia que abriu a Caixa de Pandora de todas as reivindicações no país. A afirmação de uma ideologia chauvinista e etnicamente definida, violentamente hostil não só a um país vizinho como a 1/3 da população do seu próprio país, bem como a assumpção de uma identidade nacional “ucraniana” exclusivista que a retira ao “outro”, provocou uma crise de enormes proporções no segundo maior país da Europa.
Contudo, tal como acontece com qualquer novo poder, há sempre a necessidade de afirmação, quer na ordem interna, quer na externa. Derivado do apoio internacional que precedeu as manifestações na Maidan, as novas autoridades ucranianas, cuja legitimidade é duvidosa, adquiriram-na de imediato, ainda antes de serem poder, pelo menos para uma parte da comunidade internacional. No entanto, o que é verdade (parcial) na ordem externa não o é na ordem interna, onde subsiste a contestação.
Privados, logo à cabeça, da “jóia da coroa” estratégica que era a Crimeia, as novas autoridades lutam agora para afirmar o seu poder – usando a força armada – no que resta do seu território, mau grado os anseios de parte da população que não se revê no novo poder.
Simultaneamente, a braços com uma bancarrota, o novo poder de Kiev sabe que, tendo mordido na mão que alimentava o país, terá de captar novos investidores. Nada como provocar uma emergência para captar rapidamente esses fundos.

Ao provocarem confrontos com uma comunidade que é retratada, quer para a metade Oeste do país, quer para parte da comunidade internacional, não só como alógena como constituinte de uma “5ª coluna”, os revoltosos de Kiev esperam obter a “legitimidade” para, mais uma vez, usar a violência para atingir os seus objectivos. Ao mesmo tempo adquirirão o estatuto de vítimas, reais ou potenciais, de uma intervenção armada russa “que viola o Direito Internacional”, podendo assim obter, de forma pronta e desabrida, a ajuda militar e económica de que presentemente carecem.

Parece assim claro que uma guerra civil, com todo o seu cortejo de horrores, beneficiará apenas a facção actualmente no poder em Kiev, e o Ocidente, mais uma vez, demonstrará nada ter aprendido com a História, podendo vir a colher os amargos frutos da sua semeia."