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A-24

Terceiro Mundo: O sistema de castas na Índia I

por A-24, em 02.08.13
Os pecados de Girdharilal Maurya são muitos, garantem seus atacantes. Ele tem carma ruim. Por que nasceria intocável, como seus ancestrais, senão para pagar por suas vidas passadas?
Veja só: ele trabalha com couro, e a lei hindu diz que trabalhar com pele de animais torna-o impuro, alguém que se deve evitar e ultrajar.
E sua prosperidade não fica bem, é pecado. Quem esse pária pensa que é, comprando um pequeno terreno na periferia da aldeia? Ainda por cima, atreveu-se a pedir à polícia e a outras autoridades licença para usar o novo poço da aldeia. Recebeu o que os intocáveis merecem.
Uma noite, quando Maurya estava em uma cidade próxima, oito homens de uma casta superior, os rajputes, entraram em seu terreno. Quebraram as cercas, roubaram o trator, espancaram sua mulher e sua filha e queimaram a casa. A mensagem era clara: mantenha-se embaixo, onde é seu lugar.
Girdharilal Maurya pegou a família e fugiu da aldeia de Kharkada, no estado do Rajastão, oeste da Índia. Dois anos se passaram até que ele se sentisse em segurança para retornar – e isso só porque advogados de direitos humanos empenharam-se em seu caso. “Eu os vejo quase todo dia”, comenta Maurya sobre seus atacantes. “Andam por aí, livres.” Ele concordou em encontrar-se comigo – depois de escurecer – no quintal de terra de sua casa na aldeia. Maurya tem 52 anos, é alto e bem-apessoado, de cabelos brancos e rosto vincado pela preocupação. Na gélida noite de fevereiro, ele se enrola em um roupão de banho. A mulher move-se na penumbra, preparando o chá. Moram com os demais de sua casta no extremo sul da aldeia, onde o vento sopra para longe das famílias de castas superiores, que acreditam que não devem sentir o cheiro de intocáveis.
O processo na Justiça contra seus atacantes arrasta-se, explica Maurya, com voz tensa e contida. Tenta mostrar-se otimista: agora os intocáveis podem usar a bomba do poço, e um de seus filhos conseguiu avançar até a universidade – o primeiro de sua casta naquela aldeia. Mas, quando admite que ainda teme seus agressores, a voz de Maurya se altera – e a mulher aumenta o volume do rádio para disfarçar. “O governo recusa-se a lidar com problemas como esse do poço dizendo que, legalmente, o sistema de castas não existe.
Mas basta olhar em volta. Tratam melhor dos animais do que de nós. Isso não é natural.
Só estamos pedindo direitos humanos.” E fala ainda mais alto, clamando para a noite a sua volta: “Por que os deuses permitiram que eu nascesse num país como este?”

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