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A-24

Terceiro Mundo: O sistema de castas na Índia IV

por A-24, em 05.08.13
Um grupo de homens trajando dhoti branco senta-se em silêncio nos degraus acima da pira. São a parentela masculina da finada. A tradição não permite mulheres em cremações porque podem chorar – e as lágrimas que caem de seus olhos são consideradas poluentes, como todos os líquidos do corpo. Os homens esperam.
Na margem lamacenta, dois adolescentes doms revolvem a pira com uma vara com a tranqüilidade de quem remexe uma fogueira de preparar comida. Um deles usa uma vara para empurrar uma perna de volta para a pilha em chamas. Duas vacas se aquecem ao pé do fogo.


Quando da madeira só restam as cinzas, um dom retira um esterno da falecida, ainda intacto, e entrega-o ao filho mais velho, que o atira ao Ganges. Assim que a família se vai, crianças doms desatam a correr pela terra escurecida, de olhos fitos em uma pequena pipa vermelha no céu. “Depois recolhemos as cinzas”, explica Choudhary. “Se tivermos sorte, encontraremos bons dentes ou enfeites de nariz. Ficamos com eles.”
Abaixo dos doms existem ainda outras castas, os inferiores dos inferiores. Conhecidos como bhangis, pakhis ou sikkaliars, dependendo da região, eles são os “lixeiros manuais”. Em aldeias e cidades, esses homens transportam fezes que removem de latrinas públicas, limpam a fossa sanitária das casas e varrem dejetos de animais nas ruas. Sanitários sem descarga são proibidos na maioria dos estados, mas não se impõe o cumprimento dessa lei, e os municípios não escondem que contratam garis, principalmente mulheres, para esvaziar essas latrinas, em geral por menos de 1 dólar ao dia. Nem mesmo outros intocáveis aceitam algo de comer ou de beber de um lixeiro manual.
Certa manhã em Ahmadabad, a maior cidade do estado de Gujarat, no oeste da Índia, acompanho uma turma de cinco bhangis incumbida de desentupir esgotos em Khanpur, um bairro de classe média. Integram uma força de trabalho de mais de 10 mil lixeiros na cidade. A equipe, trajando roupas comuns limpas e alinhadas, pára diante de um postigo do lado de fora de uma mesquita. Dinesh Parmar, um esguio moço de 25 anos com uma corrente de ouro reluzindo no pescoço, abre a tampa. Da escuridão lá embaixo, brotam baratas e um fedor que inunda a rua.
Parmar hesita apenas um instante, e então desce pelo buraco – sem luvas nem máscara contra gás. Com o corpo oculto lá dentro, metodicamente ele ergue balde após balde de excremento acima da cabeça, virando tudo na rua. Moscas formam uma densa cortina. Ele pára, atordoado com o monóxido de carbono que emana do esgoto. O supervisor faz um sinal com a cabeça, autorizando Parmar a subir. No ano anterior, 30 bhangis haviam morrido intoxicados por gás nos esgotos de Ahmadabad.
Parmar deixa pegadas marrons ao se dirigir para uma viela. Desce por vários outros postigos para remover a imundície coagulada. Mulheres olham das portas, tapando o nariz com véu, só abrindo a boca para reclamar que suas privadas estão entupidas. Depois do último buraco, Parmar queda-se calado no meio da viela, braços e pernas cobertos de sujeira. Então pede água e sabão às mulheres que observam. Finalmente uma se resolve, esbravejando que as outras devem se envergonhar. Parmar despe-se na rua e lava sua roupa, seu corpo e cabelo.
“É meu destino. Não há outro emprego, não tenho instrução”, explica Parmar, andando pela rua com o resto do grupo, todo ensopado mas novamente limpo. “Em alguns lugares consigo ajuda para me lavar; em outros, não. Mas nem mesmo as pessoas bondosas jamais me ofereceram uma xícara de chá.” Parmar tem uma filha. “Eu lhe darei educação”, promete. “Se o destino dela for bom, conseguirá um emprego melhor.” Afasta-se e vai atrás de seus colegas, as poças secando depressa atrás dele. A consciência ocasionalmente levou hindus de castas superiores a combater o conceito da intocabilidade. O próprio Mahatma Gandhi liderou uma das primeiras e mais audaciosas campanhas para eliminar a condição de intocável. No ashram, ou comunidade, que fundou em 1915 em Ahmadabad, Gandhi estarreceu seus defensores acolhendo uma família de intocáveis. Logo depois ele adotou a filha intocável daquela família.

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