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A-24

Tenis - Com o adeus de Safin chega ao fim a geração dos "bad boys"

por A-24, em 13.02.10
Génio desperdiçado ou talento sobrevalorizado? Uma pergunta que fica sem resposta na despedida de um jogador carismático do ténis.
Paris foi ontem testemunho da despedida oficial de Marat Safin, aos 29 anos, mas o ponto final na sua promissora carreira no ténis data do jogo das meias-finais do Open da Austrália de 2005, em que deslumbrou toda a gente ao interromper a série de 26 vitórias consecutivas de Roger Federer na rota para o seu segundo Grand Slam e o último título individual.
Não, não estamos a exagerar. Depois disso o russo perdeu a motivação, mentalizou-se que não tinha mais nada a provar, arrastou-se nos courts, lembrando apenas pontualmente por que era a cara mais emblemática e promissora da campanha New Balls, Please. Tão pontualmente que o seu último grande momento foi mesmo a presença nas meias-finais de Wimbledon 2008, presença essa que o tornou no quinto jogador em actividade, a par de Roger Federer, David Nalbandian, Novak Djokovic e Rafael Nadal, a atingir as "meias" nos quatro Slams.
Noctívago convicto e confesso, polémico q.b. dentro (mais do que uma vez festejou pontos baixando os calções) e fora do court (são conhecidas a sua fama de playboy e a atribulada vida sentimental), crítico dos colegas (desde Andy Roddick a Gustavo Kuerten, passando por Thomas Berdych) e das organizações que regulam o ténis (o excesso de torneios do calendário merece-lhe críticas desde 2004), impulsivo e inconstante no court, oscilando entre a genialidade e a mediocridade, um pesadelo para os árbitros, Marat encerra a geração de bad boys do ténis, germinada por Ilie Nastase, John McEnroe e Jimmy Connors e herdada por Andre Agassi e Goran Ivanisevic.
Por isso, não estávamos à espera de um final assim. Na sua tournée de despedida pelos torneios mais importantes da sua carreira, o "Leonardo DiCaprio do ténis" (nome dado pela revista norte-americana Tennis Match) não partiu raquetes (foram cerca de 700 as destruídas nos 12 anos como profissional), não olhou para o céu em busca de respostas (a sua imagem de marca) enquanto vociferava em russo, não perdeu a cabeça. Não mostrou qualquer emoção, simplesmente porque deixou de se importar com as derrotas e, sobretudo, porque o ténis para ele perdeu todo o encanto: "Estou cansado do circuito, cansado de ficar em hotéis, cansado de viajar... para mim, chega!"
Jogou esta época, não por honra, mas por dinheiro - "Por mim tinha terminado logo em 2008, mas recebi uma oferta irrecusável" -, mas foi como se não tivesse jogado. Sucessivas derrotas nas primeiras rondas de quase todos os torneios em que participou, raros momentos do ténis bonito que derrotou Sampras na final do US Open de 2000 (o primeiro dos seus dois Slams), que ajudou a Rússia a conquistar duas vezes a Taça Davis (2002 e 2006), que se traduziu em cinco Masters e sete semanas como número um mundial. Nem na despedida gosta de recordar: "Detesto falar das minhas conquistas. Sim, ganhei esses dois Slams. Foi o que fiz. Toda a gente parece pensar que mudei o mundo. Simplesmente fiz o meu trabalho e recebi uma bonita taça e um bonito cheque."
A frieza demonstrada no adeus herdou-a da infância difícil: "Não é uma história bonita, ser proveniente de uma União Soviética a sair de 70 anos de comunismo. Não havia dinheiro, nem raquetes, nem bolas, foi terrível." Mas um patrocinador viu nele potencial e um investimento seguro. Seguiu-se Valência aos 14 anos, onde treinou com Juan Carlos Ferrero, vários satélites em Portugal, uma ascensão meteórica nos rankings (aos 20 anos, chegou a número um), algumas lesões e um final de 12 anos de poucos altos e muitos baixos. Um regresso ao ténis? "Não. Quero fazer qualquer coisa completamente à margem do ténis, algo que me dê muito dinheiro."
Ela será sempre a irmã mais nova de Marat

Há cinco anos, o diário desportivo L"Équipe lançou um desafio a Marat: entrevistar a irmã Dinara. Desafio aceite, o mais velho dos Safin (o "a" da mana mais nova explica-se pela tradição russa, que distingue os sobrenomes de homens e mulheres) terminou a sessão perguntando "o que pensas de mim?".
A resposta é reveladora da admiração excessiva que se prolonga até hoje. "És o meu Deus. Quando jogas, adoro ver-te. Quando perdes, fico ainda mais triste do que quando perco. Quando estás lesionado, sofro. Quando falas comigo, bebo as tuas palavras. Quando assistes a um jogo meu, fico nas nuvens. Detesto ouvir ou ler algo mau a teu respeito. Para mim, és o jogador mais talentoso e não tenho metade do teu talento."
Cinco anos depois, nada mudou - é a própria Dinara que admite ainda ouvir vozes da bancada a identificarem-na como "a irmã mais nova do Safin". A mesma veneração, a mesma emoção, a mesma síndrome de inferioridade, alimentada durante anos pelo ego de Marat, que nunca se escusou a revelar publicamente a falta de empatia com a irmã, que nunca se mostrou interessado em ver um dos seus jogos, que prefere passar o seu tempo livre em festas com a número dois russa, Svetlana Kuznetsova, a conviver com a "mana" mais nova.
Até este ano. Até Dinara, que chora cada vez que revê o triunfo de Marat no Open da Austrália, ter chegado ao topo da classificação mundial, igualando o feito do seu "ídolo" (são os únicos irmãos na história do ténis a terem ocupado o primeiro lugar nos rankings ATP e WTA), e ser duramente criticada por ser líder sem ter conquistado nenhum Grand Slam. "Deixem-na em paz", repetiu, vezes sem conta aos jornalistas, um protector Marat. "Não tenho tanto orgulho em mim como tenho nela. Ela é mais profissional do que todos os outros jogadores juntos."

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