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A-24

Proibição de fumar: Os checos resistem

por A-24, em 16.08.13

Kopelnitsky

A UE dedica-se, com sucesso, a uma metódica caça ao tabaco nos lugares públicos. Só a República Checa resiste: fiel à sua conceção liberal, procura, por todos os meios, contornar a regulamentação europeia.


Para levar a cabo a sua missão, o ministro da Saúde irlandês, James Reilly, baseia-se numa enorme motivação pessoal. Tendo ficado cego depois de um enfarte, o pai morreu depois de ter estado acamado durante anos. E um cancro do pulmão levou-lhe recentemente o irmão. Médico de profissão, tentou em vão, durante anos, deixar de fumar.
“Não é um mau hábito, é uma doença insidiosa e devemos combater aqueles que a propagam”, afirma, explicando assim aos jornalistas como conseguiu, na primavera passada, convencer o seu país a introduzir, para todas as marcas de cigarros, uma embalagem única onde há uma imagens de uns pulmões devastados pelo tabaco. A Irlanda foi o segundo país, após a Austrália, a adotar tal regra.
Reilly e os seus colegas de governo fizeram da luta contra o tabaco o tema central dos seis meses de presidência irlandesa do Conselho da UE. Acabou a 30 de junho e o resultado foi extraordinário. Em junho, os ministros da Saúde da União decidiram que, dentro de três anos, todos os países da UE terão de aplicar a mesma medida que a Irlanda. Falta só a aprovação do Parlamento Europeu.

Ponta do icebergue
Os observadores defendem que o último ator a poder ainda quebrar essa vontade é uma das forças mais misteriosas e mais poderosas da política atual: o lóbi do tabaco. “Peço-vos que saiam da sala, excetuando os chefes de delegação.” Os diplomatas europeus lembram-se bem destas palavras pronunciadas por James Reilly, um pedido sem precedentes, feito num dos momentos decisivos das negociações que tiveram lugar no Luxemburgo sobre a diretiva dos “maços de cigarros”.
Mas compreende-se facilmente. As empresas de tabaco eram informadas em pormenor, após cada uma das reuniões, sobre o avanço das conversações. Muitos dos participantes, por outro lado, tinham ainda muito presente o inquérito de que foi alvo o comissário europeu da Saúde, John Dalli, suspeito de ter conseguido alterar a legislação da UE em troca de subornos pagos pela indústria do tabaco.
Quando Reilly conseguiu impor-se, o jornal de Bruxelas EUobservercomparou a sua vitória a "David versus Golias". Golias é, neste caso, um lóbi que emprega uma centena de pessoas em Bruxelas e dispõe de um orçamento anual de cinco milhões de euros. No entanto, e aparentemente, isso é apenas “a ponta de um icebergue” de um exército muito maior de guerreiros a favor do tabaco, que desde há anos conseguem ter uma notável influência junto dos assessores dos responsáveis políticos que gravitam em volta da Comissão Europeia.
Os governos dos Estados-membros são, evidentemente, o alvo privilegiado dos lóbis, porque são os únicos capazes de ratificarem definitivamente as decisões de Bruxelas

Os governos dos Estados-membros são, evidentemente, o alvo privilegiado dos lóbis, porque são os únicos capazes de ratificarem definitivamente as decisões de Bruxelas. Quando, em 2012, cientistas britânicos realizaram um estudo aprofundado sobre a evolução da saúde na Europa, usaram a República Checa como um caso de estudo da qualidade de um país exposto à influência do lóbi do tabaco. “Esses pequenos Estados são especialmente vulneráveis.
Nos Estados Unidos, descobrimos uma estratégia muito refletida das companhias tabaqueiras. Concentram-se a longo prazo nos Estados pequenos, porque aí é mais fácil ganharem influência e, no momento do voto, têm o mesmo peso que os grandes Estados”, explica a diretora executiva da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, Helen Ross, que co-dirigiu o inquérito.
Grandes negócios
A diretiva “tabaco” recebeu a forte oposição da delegação checa. De todas as delegações, foi a única a optar por uma política “sem concessões”, exigindo o arquivamento da diretiva. É apenas graças a um novo sistema de votação posto em prática pelo Tratado de Lisboa que o veto checo, isolado, não conseguiu bloquear o projeto.
Estará a explicaçao na frenética pressão das empresas tabaqueiras em sua defesa, como sustenta Helen Ross? Nesse caso, de que forma exata agem esses lóbis? Nem os investigadores britânicos têm respostas para questões concretas como estas.
Helen Ross passou, ainda assim, algumas semanas em Praga, em 2012, e encontrou-se com cerca de uma dezena de responsáveis políticos, funcionários públicos e representantes de companhias de tabaco. As conclusões da sua investigação são eloquentes. “Os representantes oficiais da República Checa utilizam um discurso que, invariavelmente, convém muito aos fabricantes de cigarros, usando os seus argumentos habituais e recusando qualquer mudança. O seu poder de influência é evidente”, resume.
Como um pouco por toda a Europa, o tabaco, na República Checa, é um grande negócio. A Philip Morris está implantada em Kutna Hora [cidade da Boémia central]. Sozinha, representa cerca de 40% do mercado e declara um lucro anual de 100 milhões de euros. Os grupos internacionais British American Tobacco, Imperial Tobacco e Japan Tobacco partilham entre si o resto do mercado.
Pode não parecer muito à primeira vista, tendo em conta que a companhia energética estatal CEZ aufere igual montante a cada três semanas. No entanto, o tabaco gera dois mil milhões de euros em impostos. Cerca de 77% do preço de um maço de cigarros vai diretamente para os cofres do Estado.

Não há provas diretas
O interessante é que, embora tenha havido muitos indícios, ao longo dos anos, de que as tabaqueiras financiam partidos políticos em segredo, nunca se descobriram provas diretas de corrupção até à data. Em entrevistas concedidas sob anonimato, os lobistas revelam sempre a sua satisfação por encontrarem no ambiente político checo um grande número de responsáveis que, sem contrapartida alguma, defendem os interesses das empresas de tabaco, unicamente porque se oporem à União Europeia e às regulamentações em geral.
“É apenas mais uma invenção de Bruxelas para regular o mercado. Hoje são os cigarros, amanhã proíbem-nos de comer gordura ou de guiarmos um carro. Temos de resistir e de defender a nossa liberdade”, declara Jaroslav Kubera, presidente do ODS [Partido Democrata Cívico, conservador] no Senado, repetindo os argumentos graças aos quais convenceu os líderes do seu partido a recusarem esse novo projeto europeu.
No quadro da comissão parlamentar dos Assuntos Europeus, os membros do ODS desencadearam mesmo um processo dito “cartão amarelo” contra a diretiva “tabaco”. Trata-se de um instrumento diplomático excecional que permite enviar um aviso a Bruxelas por abuso de poder [não-respeito do princípio da subsidiariedade].
Por agora, nem a esquerda checa pró-europeia promete mudanças
Por agora, nem a esquerda checa pró-europeia promete mudanças. “Não vejo nisso um tema de combate político”, considera Jeroným Tejc, deputado do ČSSD [Partido Social-democrata]. “Essa questão não está em debate dentro do partido. Eu não fumo, mas respeito as opiniões dos meus colegas que têm uma relação diferente com o tabaco.”
Com um consumo [anual] de 2125 cigarros por habitante, a República Checa ocupa o 12.º lugar do mundo, entre a Rússia e a Bielorrússia. Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Saúde Pública, a idade média do primeiro cigarro caiu para antes dos 12 anos, atingindo um marco histórico. As últimas sondagens de opinião realizadas pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Charles de Praga revelam, pelo contrário, que 80% da população e também metade dos fumadores, são favoráveis à proibição de fumar nos restaurantes. No ano passado, depois de décadas de atraso, a República Checa ratificou, finalmente, o acordo da Organização Mundial de Saúde [OMS] que impõe um endurecimento progressivo das legislações nacionais.
“Não tenho dúvidas de que as mentalidades mudarão na República Checa. Única questão é quando”, afirma o deputado [e médico] Boris Šťastný. “Acontecerá, mas só sob pressão da UE, ou depois de um empregado de mesa apresentar uma queixa em tribunal por ter desenvolvido cancro do pulmão no seu local de trabalho. Porque, nos outros países, foram exatamente casos assim que deram início a uma alteração da legislação e que permitiram compreender até que ponto está errado o discurso dos fumadores sobre a sua liberdade.”
Press Europe

República Checa: “Ano 2100: envelhecemos e seremos 7,7 milhões”

por A-24, em 05.08.13

“Está confirmado: os checos estão em vias de desaparecer”, escreve o jornal Mladá Fronta Dnes a propósito da publicação de um relatório sobre a evolução demográfica pelo Instituto Nacional de Estatística checo (ČSÚ).
Dentro de nove décadas, a população terá diminuído 25%, passando dos atuais 10,52 milhões para 7,7 milhões e a idade média terá aumentado nove anos, atingindo os 50 anos. Segundo os investigadores, esta evolução é natural e corresponde à tendência da sociedade da Europa Ocidental e do Norte: os checos trazem menos crianças ao mundo porque têm dificuldade em conciliar a vida profissional e familiar; um modo de vida mais saudável e os avanços da medicina aumentam a esperança de vida.
Os sociólogos sublinham que esta mudança terá um grande impacto no mercado de trabalho que deverá passar do atual modelo baseado na minimalização dos custos salariais para a maximização da taxa de emprego.

Press Europe

Morreu o ex-Presidente checo Vaclav Havel

por A-24, em 18.12.11
Vaclav Havel, o ex-presidente checo e herói da luta que pôs fim à Guerra Fria, morreu hoje de madrugada, aos 75 anos, durante o sono, na sua casa de fim-de-semana no norte do seu país.
A notícia foi avançada em Praga pela sua porta-voz, Sabina Tancevova. Fumador inveterado, Vaclav Havel venceu um cancro no pulmão nos anos 90. No início de 2009, foi obrigado a permanecer hospitalizado depois de uma pequena cirurgia à garganta o ter deixado com sérios problemas respiratórios.

Há muito afastado da vida pública por causa da sua doença, Havel foi um escritor de intervenção contra o regime, o artesão da “Revolução de Veludo” anticomunista de 1989 e o primeiro chefe do Estado democraticamente eleito após quatro décadas de repressão, entre 1989 e 2003. 
Foi, aliás, durante a sua presidência, em 1993, que a Checoslováquia se dividiu pacificamente entre a República Checa e a Eslováquia. Vaclav Havel foi o responsável pela transição do anterior sistema soviético para um regime democrático e uma economia de mercado – um processo acidentado, mas pelo qual recolheu elogios, galardões e homenagens no seu país e no mundo.
Nascido em Praga a 5 de Outubro de 1936, Vaclav Havel viu as posses da sua família abastada serem confiscadas durante as nacionalizações comunistas de 1948. Apesar de ficar inesperadamente pobre, a família ainda era considerada "burguesa" pelo regime, pelo que não foi permitido a Vaclav prosseguir os estudos secundários. Havel matriculou-se na escola nocturna e terminou a trabalhar no teatro.
Tímido e estudioso – e também um jovem do seu tempo, que tinha entre os seus preferidos o músico norte-americano Frank Zappa – Havel tornou-se um escritor e dramaturgo. A sua intervenção política começou logo após a invasão soviética de 1968 que pôs fim à chamada Primavera de Praga – um processo de reformas encetado por Alexander Dubcek e outros líderes comunistas da então Checoslováquia. O seu método foi sempre o da literatura: Vaclav Havel escreveu uma série de peças, ensaios e análises sobre o comunismo, que imediatamente foram proibidas por Moscovo. 
O mês de Janeiro de 1977 marca o arranque do seu activismo político, com a assinatura do manifesto pelos direitos humanos “Capítulo 77”. Um ano mais tarde, o seu ensaio “O Poder e os Sem Poder”, que consagrou o seu estatuto de dissidente político, abria com uma citação do Manifesto Comunista: “Há um espectro a assombrar a Europa de Leste; o espectro daquilo que no Ocidente é denominado por dissidência”, escreveu. Nessa obra, insurgia-se contra a “ditadura do ritual”, e fantasiava sobre um futuro em que os cidadãos redescobriam a sua “identidade e dignidade suprimida”.
A sua aberta oposição ao regime custou-lhe vários anos passados nas cadeias comunistas. “Cartas para Olga”, um livro reunindo as cartas que escreveu à sua mulher da prisão, tornou-se uma das suas obras mais conhecidas (Olga Havlova morreu de cancro em 1996). 
Foi durante as manifestações de Praga em Agosto de 1988 – durante o 20º aniversário do Pacto de Varsóvia – que o seu estatuto político ficou claro. Milhares de jovens saíram para a rua, gritando o seu nome e do seu herói, Tomas Garrigue Masaryk, o primeiro Presidente da Checoslováquia depois da fundação do país em 1918.
A onda de protestos populares em seu nome levou-o mais uma vez à prisão. Em Janeiro de 1989, com o regime comunista já em colapso, o seu julgamento atraiu as atenções internacionais, e a pressão política foi de tal maneira intensa que as autoridades aceitaram a sua libertação.
Uma semana após a queda do muro de Berlim, em Novembro de 1989, Vaclav Havel e outros famosos opositores checoslovacos criavam um movimento político. As manifestações na rua prosseguiram, reclamando a mudança de regime.
A 29 de Dezembro, o Parlamento da Checoslováquia (ainda comunista) elegia Vaclav Havel para a Presidência do país. Na sua mensagem de Ano Novo à população, transmitida pela televisão, o escritor resumia numa metáfora os efeitos de 40 anos de repressão comunista: “Éramos um povo soberano e talentoso, e o regime transformou-nos em pequenos parafusos de uma máquina monstruosa, podre e barulhenta”.Havel liderou, então, o movimento de transição para um novo regime aberto e democrático, nunca se abstendo de denunciar as deficiências da sociedade checoslovaca, fiel à sua máxima “O que o coração pensa, a língua diz”.
Mas os desafios pós-revolucionários foram tremendos, e pouco tempo depois Vaclav Havel apresentou a demissão, classificando como um “falhanço pessoal” o irreversível processo de desagregação da federação checoslovaca. 
O eleitorado não lhe deu razão, e apoiou-o para um novo mandato como Presidente da recém-criada República Checa, um cargo que ocupou até 2003.
Ao longo dessa década, Vaclav Havel assinou os acordos de adesão da República Checa à NATO e à União Europeia. Também viveu momentos de dificuldade e tumulto pessoal: depois da morte da mulher, em 1996, Havel perdeu um terço do pulmão direito numa operação para remover um tumor maligno. Deixou de fumar, e causou surpresa ao casar de novo, com a actriz Dagmar Veskrnova, 20 anos mais nova.
A sua vida pública pós-presidencial manteve-se rica, e Vaclav Havel tornou-se o porta-voz de de causas humanitárias, como “embaixador global da consciência”. Em 2003, destacou-se pelo seu apoio ao plano de invasão do Iraque do Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush – o ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, considerou-o então como parte da “Nova Europa”, por oposição aos países da “Velha Europa” que se opuseram à guerra.
Em 2008, Vaclav Havel viu subir à cena uma nova peça sua “De saída”, que dava conta dos dilemas de um líder político no momento de abandonar o cargo. A obra foi aclamada pela crítica. Público

Um dos países mais secularizados do mundo

por A-24, em 01.12.11
No país dos checos, no censo de 2011, 45% da população não respondeu à pergunta sobre religião, 34% declararam não ter religião e 25% declararam ser religiosos (10% católicos, 4% de outras religiões, e 7% religiosos mas sem especificarem de que religião). Não conheço qualquer outro país democrático e moderno em que se tenham atingido estes valores.

Esquerda Republicana

Kvitova é a nova "lady" de Wimbledon

por A-24, em 02.07.11
A tenista checa Petra Kvitova conquistou neste sábado a sua primeira vitória num torneio do Grand Slam, ao bater na final de Wimbledon a russa Maria Sharapova, por 6-3, 6-4.
Kvitova, de 21 anos, impôs-se na relva do All England Club na sua quarta participação no torneio londrino e vai subir do oitavo para o sétimo lugar na próxima classificação do ranking WTA.
“É difícil falar com este troféu nas mãos e ver tantas boas jogadoras na bancada”, afirmou Kvitova, que se tornou na primeira checa a vencer a prova desde 1998, depois de Jana Novotna.
A tenista checa é a primeira esquerdina a vencer o título de Wimbledon desde 1990, quando Martina Navratilova, detentora de nove títulos, se sagrou campeã.
Kvitova, que é a segunda mais jovem tenista a vencer Wimbledon, precisamente depois de Maria Sharapova que triunfou aos 17 anos, admitiu ter estado “sempre muito nervosa” e disse ter jogado “ponto a ponto”.
A russa Maria Sharapova, que triunfou em Londres há sete anos, saudou a vencedora e afirmou: “Estou muito feliz por ter voltado ao circuito e ter conseguido alcançar uma final, infelizmente só uma pode ganhar”.
Sharapova, que há três anos tem sido “travada” por uma lesão no ombro, começou a partida a quebrar o serviço da adversária, mas a checa acabou por conseguir colocar o “set” em 4-2, e vencer o primeiro parcial por 6-3, em 40 minutos.
No segundo “set”, Kvitova, quase sempre a jogar no fundo do court, voltou a quebrar o serviço da russa que, no entanto, conseguiu um empate 2-2.
Com as duas tenistas a “anularem-se”, a esquerdina Kvitova desfez as dúvidas, quando se encontrava a vencer por 5-4, com um ponto do fundo do court.
A checa junta o título de Wimbledon, o primeiro de um Grand Slam, ao dos torneios de Brisbane, Paris e Madrid conquistados esta época.
Petra Kvitova sucede no palmarés à norte-americana Serena Williams, que curiosamente a afastou nas meias-finais de 2010.

Dez olhares sobre a Europa - Quando a minha filha usar burqa

por A-24, em 02.03.11
A mulher é o futuro da Europa, pode ler-se em algumas revistas. Mas muito perspicaz será aquele que for capaz de prever como será esse futuro. A romancista checa Petra Hůlová apresenta a sua visão trágico-cómica.

"Esta já está a preparar-se para usar a burqa", diz o meu marido, apontando, a sorrir, para a nossa filha de seis meses, que acaba de puxar instintivamente o cobertor até aos olhos. Gracejamos muitas vezes, ao imaginarmos como poderá ser a Europa do futuro dos nossos filhos: quando a Internet se tiver tornado um símbolo de um passado distante, como aconteceu com o telegrama e com o fax, e quando, ao recordarmos as nossas representações atuais do futuro, as pessoas se torcerem de riso, como com todos esses filmes de ficção científica da época do cinema mudo. Mas, de facto, não podemos deixar de pensar no futuro.
Experimentem! Aliás, não é verdade que se espera que todos os europeus responsáveis se preparem para o futuro? É certo que o cidadão europeu não pertence a um povo primitivo, não é como esses fatalistas que vivem sem se ralar com o amanhã, ainda que não ter Internet, nem bicicleta, nem autoclismo na casa de banho, não faça de alguém um ser inferior. O mesmo se pode dizer do uso da burqa, apesar de, na Europa, os muçulmanos não serem muito apreciados. No entanto, estes sentem-se em casa na Internet e, em muitos casos, muito melhor do que na França ou na Alemanha onde nasceram.

O futuro da Europa pertence às mulheres?

Hoje, o debate sobre os muçulmanos e a Europa está no auge. Até no meu país natal, a República Checa, onde encontrar um muçulmano nas ruas de uma das  cidades não é coisa muito fácil. "Não interessa", afirmam alguns dos polemistas checos de direita. "Que vão todos para o diabo!" Até agora, no meu país, à falta de um número suficiente de muçulmanos, estes dirigem os seus ataques contra os ciganos, os vietnamitas e, por vezes, as mulheres.
Até as revistas mais conformistas, cheias de belas imagens, dedicadas à área casa e jardim, dizem que o futuro da Europa pertence às mulheres. Afirmar isto não tem, pois, nada de extraordinário e as pessoas que se opõem a tal ideia são apenas aquelas que têm qualquer coisa contra as mulheres ou que imaginam as europeias do futuro usando burqas e pensam que, vestidas dessa maneira, terão maior dificuldade em governar. Desde que, evidentemente, ainda haja alguma coisa para governar – no fundo, a questão mais importante.
A espécie europeia está em vias de se extinguir, lentamente e, segundo alguns, a culpa é das mulheres emancipadas, às quais deveria pertencer o futuro da Europa. Quanto mais elevado é o seu grau de formação, mais independentes são financeiramente e menos filhos têm, essas desgraçadas! Algumas feministas defendem que a culpa é dos homens, porque foram eles que inventaram a pílula contracetiva, para poder gozar plenamente os prazeres da carne, sem o risco da procriação. Mas será que o regresso coletivo ao preservativo iria inverter a situação? Dificilmente.

Na República Checa somos particularmente alérgicos às instruções

Quando olho para a nossa filha, da qual só vejo espreitar, sob as cobertas, dois pequenos olhos azuis e uma cabecinha careca de bebé, imagino-nos às duas, europeias, dentro de 30 ou 40 anos. Então, já terei ido juntar-me ao exército das reformadas exasperantes. Iremos invadir as ruas, aos magotes, umas velhas amargas, daquelas para quem o passado era melhor, como sempre acontece quando os velhos olham para trás, para a sua própria juventude. Um pouco senil e sem ilusões, irei protestar, com os meus contemporâneos, contra a quarta geração de livros digitais, daqueles que se podem meter no bolso como um bilhete de amor, sempre com o meu telemóvel de décima segunda geração ligado, para o caso de os meus netos quererem falar comigo, enquanto a minha filha, a caminho de uma reunião, voa a 500 km/h numa autoestrada virtual. Com o vidro aberto, a burqa a flutuar elegantemente ao vento. A autoestrada estará cheia de mulheres idênticas.
As europeias dos anos 2040 voltarão a lutar (quantas vezes o fizeram já!) pela emancipação. Desde que, evidentemente, tudo corra bem e consigamos lá chegar. Não estou com isto a referir-me às euro-regiões, à moeda única ou à ideia da Europa, mas sim às cidades, aos patrimónios e às pessoas. Como nos filmes-catástrofe, imagino um desastre ecológico, o colapso da Internet, o aparecimento de uma epidemia. Perante a possibilidade de tais catástrofes se verificarem, as perspetivas da extinção lenta da espécie europeia ou de haver na Europa uma maioria de muçulmanos parecem bem aprazíveis. Quanto às mulheres, mesmo que voltassem a ficar em casa isso não seria, no fundo, assim tão grave. Na verdade, não seriam precisas muitas coisas para nos livrarmos desta visão sombria do futuro. Bastaria que nascessem mais crianças, que vivêssemos mais modestamente e que fossemos menos gastadores.
Olho para a minha filha, deitada ao meu lado, e tomo consciência de que, dentro de alguns anos, serei eu quem falará com ela usando "ses", enquanto ela me vai lançar olhares carregados. "E és tu quem me diz o que devo fazer?" É sempre a mesma coisa. Os estímulos só servem para irritar. Ao fim de 40 anos de experiência comunista, nós, na República Checa, somos particularmente alérgicos aos estímulos. Que ninguém se lembre hoje de querer fazer engenharia do futuro! Exceto, talvez, quando se trate de um fórum ou de um seminário, em que se apresentam comunicações e se discute inocentemente. E chega. Aliás, a História não mostra que os acontecimentos têm sempre um desfecho diferente daquele que se esperava? Sem dúvida. Aqui temos uma conclusão bem simpática. Mas quem acredita realmente nela?

Afectos e rupturas de um líder revolucionário

por A-24, em 22.11.10
"Não te escrevo mais porque não admito que a carta de uma mãe para um filho seja lida por outras pessoas." Esta mensagem de ruptura de relação está inscrita na última carta que Mercedes Barreirinhas Cunhal escreveu, em 1950, para o seu filho, Álvaro Cunhal, preso na Penitenciária de Lisboa desde 1949, e revelada na obra Álvaro Cunhal - Retrato pessoal e íntimo, da autoria do jornalista Adelino Cunha, e hoje lançada pela editora A Esfera dos Livros.


A carta, que permanece na posse de Eugénia Cunhal, irmã de Álvaro, é o último contacto estabelecido com o seu filho por Mercedes Cunhal, que veio a falecer em 1971. Já numa anterior carta, Mercedes assumia: "Álvaro, eu já não tenho forças para te ir ver à prisão".
Era o desgaste de uma mãe que não aceitava a opção de vida do filho. "A minha mãe perdeu dois filhos e ver o Álvaro a viver na clandestinidade, a passar fome, a ser preso e torturado, significava perdê-lo também", diz Eugénia. Prossegue Adelino Cunha: "Mercedes não aceita que uma pessoa com as suas qualidades humanas e intelectuais esteja condenado ao contínuo sofrimento numa prisão interminável" (pp. 265/268).

Mesmo antes de mergulhar na clandestinidade, aos 22 anos, a mãe de Cunhal já se opunha às actividades políticas do filho e a relação fortíssima do ponto de vista afectivo existente entre ambos viveu essa permanente tensão. A caracterização desta relação é um dos aspectos bem conseguidos desta obra, que Adelino Cunha foi construindo ao longo dos últimos três anos e que aposta em trazer à luz do dia os afectos e as rupturas afectivas de um dos principais líderes políticos portugueses e um dos principais dirigentes comunistas a nível mundial no século XX, Álvaro Barreirinhas Cunhal (10/11/1913 -13/06/2005).
Contando com uma inédita colaboração da irmã de Cunhal, Eugénia, da filha do líder comunista, Ana Cunhal, da mãe desta, Isaura Moreira, e de dirigentes comunistas históricos, como Cândida Ventura, Carlos Costa, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Margarida Tengarinha e Sofia Ferreira, Adelino Cunha consegue revelar, pela primeira vez, aspectos e facetas da intimidade e da afectividade do homem que insistiu em apenas revelar ao mundo o seu perfil de líder político e de ícone revolucionário.

Testemunhos orais

Álvaro Cunhal - Retrato pessoal e íntimo é um trabalho bem conseguido, que não esquece também o perfil e o percurso político do líder político, se bem que Adelino Cunha tenha a inteligência de não tentar sequer ser exaustivo neste aspecto, em que rivaliza com a obra de investigação que Pacheco Pereira tem publicado sobre Cunhal (Álvaro Cunhal, uma biografia política, da qual já foram publicados três volumes pela Temas & Debates). Mas este Retrato pessoal e íntimo não deixa de fazer também uma incursão narrativa na história política do século XX e não ignora aspectos fulcrais da vida do Partido Comunista Português (PCP). Sempre escrita de uma forma que atrai, de fácil leitura e num registo claramente jornalístico, como assumiu o autor ao P2.

Foi, aliás, a opção por um texto fácil de ler que levou Adelino Cunha à questionável decisão de não incluir notas ao longo do livro, indicando de onde retirou os factos e as afirmações que cita. "É uma decisão só minha, para não complicar a leitura. Com notas o livro ficava muito denso, muito grande. Foi uma opção prática. Admito que prejudica a credibilidade científica por ser um registo jornalístico. Se for reeditado, tentarei pôr notas", argumentou Adelino Cunha ao P2, clarificando também que foi escolharecorrer sobretudo a fontes orais, ou seja, aos depoimentos de dirigentes comunistas ainda vivos, o que o leva a desvalorizar e a quase ignorar a dimensão de figuras como Sérgio Villarigues e Octávio Pato na história do PCP. 


É de sublinhar, contudo, que, pelo facto de ter feito uma biografia de Cunhal bastante dependente dos testemunhos orais que recolheu de pessoas próximas do líder histórico, Adelino Cunha não cola a sua visão de Cunhal à imagem idolatrada. E é possível ver exposta a dureza das críticas que Cunhal fez ao seu principal adversário interno, Júlio Fogaça, que com ele rivalizou pela liderança. Bem como ver apontados erros a Cunhal, como quando tentou que fosse atribuída a uma falha organizativa de Militão Ribeiro a prisão de ambos e de Sofia Ferreira no Luso, em 1949.

Havia na prisão uns bichos

Numa obra cuja grande aposta e importância é a revelação de aspectos pessoais e íntimos, é assim possível perceber não só a relação tensa e profunda que ligava Cunhal à mãe, bem como a absoluta cumplicidade que manteve com o seu pai, Avelino Cunhal, que o defendeu sempre em tribunal. E também a fraterna e intensa ligação entre os dois irmãos, Eugénia e Álvaro.
Em 1953, recorda Adelino Cunha, durante o atroz período de 11 anos da sua terceira e última prisão (1949-60), na Penitenciária de Lisboa e em Peniche, Cunhal beneficia de um regime de visitas mais tolerante. "A alteração do regime de visitas permitiu finalmente ver o pai, a irmã, o sobrinho-afilhado. Avelino e Eugénia reencontram-no pela primeira vez sem barreiras de vidro entre ambos. "Já podíamos tocar-lhe as mãos, abraçá-lo, dar-lhe beijinhos. O Álvaro era muito terno e carinhoso. As pessoas quando gostam precisam de se tocar"", conta Eugénia Cunhal. (p. 271)
Uma relação que marcou Eugénia Cunhal, desde que muito nova vive a primeira prisão do irmão, em 1937. "Lembro-me do corredor por onde tínhamos de passar e da rede que havia entre nós. Ele estava do outro lado. Muito pálido, muito magro, com o cabelo todo cortado. Fiquei muito impressionada por ver o meu irmão assim. Ainda hoje tenho o cheiro do Álvaro, a memória daquele cheiro impressiona-me imenso e há coisas que ficam para sempre", revela Eugénia Cunhal a Adelino Cunha. Prossegue o autor: "Recorda-se de a mãe lavar em casa a roupa ensanguentada que levaram do Aljube. "Fiquei muito nervosa quando vi o sangue e a minha mãe tentou tranquilizar-me dizendo que havia na prisão uns bichos que mordiam o meu irmão. O sangue era da pancada que ele levava."" (p. 127)
A dureza do regime prisional e a noção exacta de que a PIDE não o libertaria levam Álvaro Cunhal a tentar negociar, em 1957, com o Governo de Salazar a sua libertação para o exílio no México, que foi, por sua vez, autorizado por Moscovo. "Cunhal negociou com o Estado Novo o regresso à liberdade após ter cumprido oito anos de prisão. A proposta de compromisso implicava o abandono de Portugal e o exílio no México. Os detalhes deste processo foram directamente comunicados ao responsáveis soviéticos para solicitar aprovação e ajuda do movimento comunista internacional. Moscovo aprovou a negociação da libertação condicionada ao exílio", escreve Adelino Cunha. E acrescenta: "A publicação de "escritos clandestinos" posteriores à prisão de 1949 e a ausência de garantias claras quanto ao seu comportamento em liberdade" foram os motivos alegados pelo regime para não o libertar. (p. 332) 
Anos de clandestinidade e um regime prisional violento, mais as quebras afectivas mudam Cunhal: "Quando conheci o Álvaro, era uma pessoa de uma enorme modéstia e de respeito no trato com os outros e criticava os que se comportavam de forma altiva dentro do partido (...). Depois da fuga de Peniche, mudou", afirma Cândida Ventura a Adelino Cunha. (p. 417)
A tensão no relacionamento afectivo com a mãe reproduz-se anos depois com a sua filha, Ana Cunhal, que optará por não viver na sombra da imagem de líder e de ícone do pai. "Os que queriam fazer de mim um exemplo acabaram por desistir", diz Ana Cunhal, que cedo deixou Portugal, vivendo na Bélgica, primeiro, e actualmente nos Estados Unidos. (p. 521)
Embora recuse conviver e depender da vida política do pai, tal como a sua avó Mercedes fizera décadas antes, Ana Cunhal tinha uma ligação afectiva profundíssima e uma relação forte de cumplicidade com o pai, que transparece com elegância no livro de Adelino Cunha.
Ana Cunhal, nascida em Dezembro de 1960, só viveu com o pai os primeiros anos da sua vida, em Moscovo (os pais separaram-se em 1965, e Ana e a sua mãe, Isaura Moreira, foram para Bucareste). É, aliás, Isaura Moreira que relata a Cunha: "Deu -lhe sempre muita atenção. (...) Fazia tudo para que ela fosse feliz." (p. 432)
Mas a vida afectiva, pessoal e íntima de Álvaro Cunhal que Adelino Cunha consegue fazer transparecer abrange também as suas relações amorosas, isto é, as suas mulheres. Adelino Cunha humaniza o ícone e o líder revolucionário que gostava de se apresentar ao mundo esculpido na pedra. Afinal, Cunhal era feito de carne e osso e de prosaicos pecados, como todos os homens e todas as mulheres.
As suas relações são conhecidas, pelo menos algumas, mas surgem neste livro na sua quase plenitude. Desde Fernanda Barroso, a última mulher, de quem Adelino Cunha diz: "Ana Cunhal guarda a memória dessa relação como um "tesouro"." (p. 616) Até Isaura Moreira, com quem o líder teve a única filha. E que conheceu depois da fuga de Peniche, ao recolher-se na casa clandestina preparada pelos pais de Isaura.
"Os pais de Isaura Moreira receberam instruções para abandonarem a casa de Runa e foram instalar um novo ponto de apoio no Penedo para receber o líder do PCP. A serra de Sintra devia servir apenas como mais um ponto de apoio para os preparativos do exílio de Cunhal em Moscovo, mas acabou por se transformar no cenário de uma relação amorosa com Isaura Moreira. A paixão, ao fim de uma década de prisão, gerou rapidamente a única filha do líder comunista. Conheceram-se em Março e foram pais em Dezembro. O carisma do chefe supremo estava a solidificar-se, quando conheceu esta jovem idealista de 19 anos." (p. 365)
Cunhal e Isaura foram para Moscovo em 1961, depois de Cunhal ser formalmente eleito secretário-geral do PCP, e aí viveram até 1965. É o período em que Cunhal volta a ter uma vida familiar estável. Em apartamentos próximos ao seu viviam Francisco Miguel, dirigente histórico do PCP que mais fugas de prisão teve e que foi o último prisioneiro a sair do Tarrafal, por um lado, e, por outro, Margarida Tengarinha e a filha Margarida Tengarinha Dias Coelho, que tem mais um ano do que Ana Cunhal - as duas crianças, a "Anita" e a "Guidinha", foram criadas juntas. E diz Isaura Moreira: "Tínhamos uma vida normal. Passeávamos, íamos às compras, aproveitávamos para ir ao teatro, aoballet e ao cinema." (p. 424)
Quando se separa de Isaura Moreira e esta vai com a filha para Bucareste, onde já está Margarida Tengarinha, Cunhal fica em Moscovo a viver com a irmã mais nova de Isaura, Dorília, e é com ela que viverá nos arredores de Paris, a partir de 1965, até virem para Portugal após o 25 de Abril (p. 499). Uma revelação sobre a vida de Cunhal que pela primeira vez aparece escrita.
Ao P2 Adelino Cunha explicou que não escreve preto no branco que ela foi sua companheira, porque não conseguiu falar com Dorília. "Assim, não posso garantir em absoluto que ficou com a cunhada como companheira, mas ela acompanha-o. Não fui capaz de esclarecer, não consegui falar com ela e Isaura Moreira não foi mais longe. Mas quando ele mandou a mulher e a filha para Bucareste, fica com a cunhada. E vão juntos para Paris. E vivem juntos ainda quando vêm para Portugal. A minha percepção é que sim, que foi companheira. E houve quem mo dissesse. Mas como não consegui falar com a própria, ficou assim implícito."
Adelino Cunha desenvolve também a história do namoro de Cunhal, nos anos 40, com Aura Vieira, com quem tem um romance em Bucelas, onde estava clandestino. Uma história já abordada por Pacheco Pereira, mas que agora é relatada com todos os pormenores. Ela muda-se para Lisboa. Cunhal estava enamorado. Para não perder o contacto com a jovem, que conheceu numa aldeia da zona de Bucelas, onde vivia clandestino com Sérgio Villlarigues, pede-lhe para ela deixar um papel com a morada no escritório do seu pai. Ela assim faz. E quando a PIDE, em 1945, invade o escritório de Avelino Cunhal, encontra a morada e chega à zona de Bucelas como reduto do PCP. A sorte para os clandestinos é que já não havia casas lá e a falha de Cunhal não teve maiores consequências.
E é Cândida Ventura - que com ele namorou em jovem e no início da vida política e da militância de ambos e com quem Cunhal manteve uma amizade forte e cúmplice para sempre, apesar das insanáveis divergências políticas - quem afirma a Adelino Cunha: "O Álvaro foi um homem como outro qualquer na sua vida sexual. Apesar de querer passar pelo homem que não se interessava por essas coisas e que não prevaricava, prevaricou. Prevaricou como as outras pessoas, homens e mulheres, prevaricam." (p. 160)

Ajuda a Dubcek

Cândida Ventura é a primeira mulher a ascender ao secretariado do PCP, em 1944, e nos anos 50 opõe-se às orientações de Júlio Fogaça. Foi acusada pela direcção de "trabalho fracionário" e, pouco depois, estava presa pela PIDE. ""Houve denúncia de alguém da direcção do PCP. Desconfio de quem possa ter sido", afirma a própria Cândida Ventura a Adelino Cunha. (p. 301)
Doente, consegue ser libertada e ir tratar-se a Londres, em 1964. Daí segue para Moscovo. "No ano seguinte, Cunhal escolheu Cândida Ventura para representante do PCP na Checoslováquia", conta Adelino Cunha. "Aceitou, apesar da ruptura interior com o comunismo. Tornou-se agente dupla na Checoslováquia e uma apoiante incondicional da resistência checoslovaca após a invasão dos tanques soviéticos. Abandonou o PCP após o 25 de Abril." (p. 301)
E é na Checoslováquia que Cândida Ventura protagonizará uma história inacreditável em que serve de veículo consciente de Cunhal para proteger Alexander Dubcek. Cândida Ventura conhecia bem a resistência checa e "travara conhecimento com Alexandre Dubcek em 1965, tendo sido apresentada por Michael Sabolcik, membro da direcção do PCC. É uma fase decisiva da relação entre Cunhal e Cândida." E esta conta um encontro entre os dois: "Queria saber da minha boca o que eu achava sobre o que se tinha passado e sobre o que se podia estar a passar." (p. 482)
Cunhal admite então que a contenção da revolta e do clima anti-soviético na Checoslováquia pode passar pela eliminação física de Dubcek. Uma "inconfidência" que Adelino Cunha garante ao P2 que não é um deslize inconsciente de Cunhal, mas sim um aviso que fez, porque quis e porque sabia que Cândida Ventura o iria fazer chegar ao destino.
No livro, Adelino Cunha escreve: "Cândida Ventura encontra-se pouco depois com os líderes da resistência nesta estância termal perto de Praga e revela a inconfidência de Cunhal. O facto de a informação partir de um dirigente internacional com contactos permanentes com os soviéticos justifica que sejam tomadas medidas imediatas. A informação chega até Dubcek, na altura a viver em Bratislava, e este começa a ser protegido por seguranças pessoais em permanência." (p. 483) E Cândida Ventura afirma: "A verdade é que, depois deste aviso de Cunhal, ele começou a andar com segurança pessoal e morreu precisamente numa viagem quando estava somente com o motorista." (p. 482) Mais uma vez foi o afecto de Cunhal que determinou o laço e a mensagem. Desta vez, o afecto entre ele e Cândida Ventura que, apesar das divergências profundas entre ambos, a política não quebrou.