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A-24

Duquesa de Alba (1926-2014), a última aristocrata de Espanha

por A-24, em 21.11.14

Já nem os reis dão aos filhos nomes assim, tão compridos e tão cheios de referências históricas — María del Rosario Cayetana Alfonsa Victoria Eugenia Francisca. Mas a duquesa era personagem de outra era, mesmo tendo passado a vida a querer ser moderna. O povo gostava dela por isso, pela ilusão de que vivia em dois lados. Cayetana, a duquesa de Alba que morreu na madrugada de quinta-feira, era tradicional por dentro e cool por fora, conservadora nos valores e contemporânea nas atitudes.



Nos obituários, a imprensa chamou-lhe "mítica" — nesta Espanha de monarquia manchada (até por escândalos de corrupção) e que tenta reencontrar um sentido para a sua existência, Cayetana, a duquesa feudal que chegou ao século XXI, sobressaía ainda mais. Era a última de uma estirpe irrepetível, era uma das últimas representantes da grande aristocracia espanhola.
Imagen de Cayetana de Alba en su juventud publicada en el libro 'Yo Cayetana'
Por ser mulher, não se envolveu na política, como o pai e o primeiro marido, Luis Martínez de Irujo y Artázcoz. Para a duquesa, herdeira única de uma das mais importantes casas nobres, de um património riquíssimo — diz o povo que não é possível atravessar Espanha de cima a baixo ou de lado a lado sem que não se pise terras de Alba — e de uma fortuna colossal, restava, como a todas as mulheres do seu tempo e condição, a vida social. Foi nesta área que Cayetana se distinguiu das outras mulheres e foi ganhando, década após década, outro género de títulos. "Duquesa rebelde", por exemplo. As suas causas e modo de vida foram-lhe granjeando a simpatia popular e outro título: “aristocrata de rua”, por parecer estar tão próxima do povo como da classe em que nasceu.

Boda de la duquesa de Alba, Cayetana Fitz-James Stuart, con Luis Martínez de Irujo en octubre de 1947

Foi esta separação — entre alguém importante e alguém popular — que o ministro da Justiça, Rafael Catalá, quis fazer quando lhe chamou “personagem importante” de Espanha. E que o presidente do Governo, Mariano Rajoy, acentuou nas condolências que enviou à família, ao dizer que Cayetana e “a sua Casa” “são imprescindíveis para compreender a História de Espanha e da Europa”.
1970's
Tras enviudar de su primer esposo Luis Martínez de Irujo en 1972, la duquesa se volvió a casar en 1978 con Jesús Aguirre. La fotografía corresponde a la rueda de prensa en la que ambos confirmaron su boda

Cayetana de Alba nasceu no dia 28 de Março de 1926 no Palácio de Liria, em Madrid. Apesar de o pai ser 22 anos mais velho do que a mãe, esta morreu primeiro, tuberculosa, quando a rapariga tinha apenas oito anos. O pai, contou a duquesa no livro autobiográfico Eu, Cayetana (Alethëia Editores), educou-a “com a mesma severidade com que educaria um rapaz”.



Cayetana fotografiada en su casa de Madrid el 23 de enero de 1961.

Jacqueline Kennedy visita la Feria de Abril de Sevilla en 1966 acompañada de la duquesa de Alba.
Tras enviudar de su primer esposo Luis Martínez de Irujo en 1972, la duquesa se volvió a casar en 1978 con Jesús Aguirre. La fotografía corresponde a la rueda de prensa en la que ambos confirmaron su boda
A educação e o estatuto, revela no livro, deram-lhe a melhor de todas as armas. “Desde pequena que sempre tive uma grande autoconfiança. (...) Não posso dizer se fui bonita — não sou eu que tenho de o afirmar —, mas sei que sou atraente, interessante, diferente. Posso parecer excessiva, mas a falta de modéstia aborrece-me.”
La duquesa de Alba junto a su hija, Eugenia, en los jardines del Palacio de Dueñas, en Sevilla, en 1973.
Cayetana casou-se três vezes. O pai, Jacobo Fitz-James Stuart y Falcó, o 17.º duque, escolheu Luis Martínez de Irujo y Artázcoz, aristocrata, industrial e conselheiro de Estado, para marido da filha e, aos 21 anos, a rapariga que tinha vivido em Inglaterra e convivido com uma aristocracia mais moderna e mundana do que a espanhola, fez-lhe a vontade, pondo de lado a paixão arrebatada e nunca escondida por sentia por um toureiro sevilhano, Pepe Luis Vázquez. Touros e Sevilha foram paixões constantes da duquesa, que rejubilou quando a única rapariga entre os seus seis filhos, Eugenia, se perdeu de amores por um toureiro, Francisco Rivera, e com ele se casou. O casal divorciou-se, um dos desgostos de vida de Cayetana, que gostava de dizer que era uma mulher à frente do seu tempo, mas se insurgia ferozmente contra o divórcio — e contra o aborto. “Sempre fui católica, mas sem ser beata. Não há incompatibilidade nenhuma entre ser boa católica e ser moderna. Desde pequena que andei sempre à frente do meu tempo, e continuo a andar.”
La duquesa de Alba espera para saludar a Plácido Domingo y Patricia Wise tras la representaciónd de Lucía de Lammermour en Madrid en 1981
Boda de Eugenia Martínez de Irujo, hija de Cayetana de Alba, con Francisco Rivera Ordóñez en el Palacio de Dueñas en Sevilla en octubre de 1998. En la imagen, de izda a dcha, Jesús Aguirre, Cayetano Martínez de Irujo, Cayetana de Alba, Eugenia Martínez de Irujo, Francisco Rivera Ordóñez y Carmina Ordóñez
A boda de Cayetena foi a boda do ano, em Outubro de 1942, na catedral de Sevilha. A reportagem do “casamento mais caro do mundo” — 20 milhões de pesetas, uma imensa fortuna para a época — saiu no Le Monde e no New York Times. O órgão oficial do franquismo escreveu sobre a festa, partilhada na rua com os sevilhanos: “O povo espanhol gosta de ter, de vez em quando, matéria-prima para os seus sonhos. Este casamento deu à gente pobre muitas horas de felicidade.”
Los duques de Alba, Cayetana y Jesús Aguirre, posan acompañados por Cayetano Martínez de Irujo en su casa de San Sebastián en julio de 1986
Luis Martínez de Irujo morreu de leucemia 25 anos depois de se casar. Nos anos que se seguiram, relatam as crónicas de vida de Cayetana, agora republicadas, a duquesa centrou-se na educação dos filhos. Mas um dia encontrou o verdadeiro amor, perturbando a ordem do grupo social em que se movia e alimentando a já poderosa imprensa cor-de-rosa espanhola.
A duquesa apaixonara-se, e era correspondida, por um ex-padre jesuíta, Jesus Aguirre, a quem Cayetana chamou, vezes sem conta, “alma gémea”. A duquesa deu um pontapé nas convenções e casou-se com o ex-padre que viria a morrer em 2001.
“Não me meto na vida de ninguém, não se metam na minha”, disse Cayetana muitos anos depois, quando, para preocupação dos reis — Juan Carlos e Sofia — e inquietação dos filhos, a duquesa se apaixonou por Alfonso Díez, funcionário público duas décadas mais jovem. As crónicas dizem que a duquesa falou com os reis sobre o seu desejo de se casar e que Sofia, a rainha, lhe deu um conselho: “Pense bem.”
Boda de la duquesa de Alba, Cayetana Fitz-James Stuart, con Jesús Aguirre, en el Palacio de Liria de Madrid, el 16 de marzo de 1978
O encontro com Sofia foi mero protocolo, a decisão estava tomada. Cayetana decidira casar-se e pagar o preço. Ela aceitou repartir o património e os títulos pelos filhos. Alfonso aceitou — segundo a imprensa espanhola — uma renda de dois mil euros mensais até ao fim da vida como única compensação financeira. “Na minha idade, ninguém se casa por dinheiro”, disse o noivo numa entrevista recente, a última que Cayetana concedeu para dizer que estava feliz. “Estou convencida de que sem amor não se pode viver. Pode-se, mas muito mal”, escreveu Cayetana no último livro que escreveu, O Que a Vida Me Ensinou, uma colectânea de pensamentos sobre amor, amizade, família, estilo e moda, o Natal e outros assuntos diversos (ed. Pergaminho).
La duquesa de Alba se arranca por sevillanas durante su visita a la cárcel de mujeres de Alcalá de Guadaira, Sevilla, en mayo de 2002
Numa família como os Alba, o futuro do património não é assunto que se resolva numa tarde e Cayetana negociou com os filhos um par de anos, antes de se poder casar, para seu próprio júbilo e do povo que, como em 1942, a foi ver vestida de noiva e para quem, à porta do palácio de Dueñas, Cayetana dançou sevilhanas.
A história dos Alba é muito antiga. Herdeira de um ramo ilegítimo dos Stuart escoceses, a família tem origens na nobreza castelhana do século XIV. Começam a ganhar notoriedade e poder na corte e, em 1429, os Álvarez de Toledo recebem de Enrique II de Castela o senhorio de Alba de Tormes. Ao longo de séculos, os Alba acumulam 45 títulos nobiliárquicos (cinco ducados, um condado-ducado, 20 condados, um vice-condado e 18 marquesados); Cayetana era a titular de todos, a pessoa com mais títulos do mundo.

A história dos Alba está ligada a Portugal através de Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, conhecido como o grã-duque, que venceu as tropas portuguesas na Batalha de Alcantara e deu a coroa portuguesa a Filipe de Espanha. O duque, recompensado com mais um título (12.º condestável de Portugal), morreria em Lisboa em Dezembro de 1582.
La duquesa de Alba pide la oreja para el novillero Cayetano Rivera Ordóñez durante la corrida mixta celebrada en La Maestranza de Sevilla el 1 de mayo de 2006
À fortuna, terras, palácios e herdades, os Alba — sobretudo a partir do grã-duque — juntaram um património artístico incomparável. “Acompanhei sempre o meu pai nas muitas decisões sobre a ampliação das obras de arte do património dos Alba, uma tradição imposta na Casa desde a sua fundação”, explicou a duquesa, que foi amiga de artistas na sua fase boémia e que Picasso quis retratar, numa reinterpretação da Maja. O primeiro marido, Luis, não gostou e a duquesa recuou no desejo de replicar a vida de María del Pilar Cayetana de Silva-Alvarez de Toledo, sua tetravó e modelo de Francisco Goya em A Maja vestida e A Maja despida. Nas paredes dos palácios dos Alba acumulam-se, literalmente, obras de Goya, Tiziano, El Greco, José de Ribera, Chagall.
Cayetana de Alba en primer plano, durante el acto de inauguración de los Jardines de Cristina en Sevilla en mayo de 2011 tras las obras de rehabilitación. Al fondo, de izda a dcha, sus hijos Cayetano, Carlos, María Eugenia, Alfonso y Fernando.
Rodeada de alguns deles, na sua casa favorita de Sevilha, o Palácio de Dueñas, morreu Cayetana, na madrugada de quinta-feira. As últimas semanas de vida passou-as, doente, em casa com o marido a ver filmes antigos; gostava especialmente de E Tudo o Vento Levou. Já no hospital, quando a gastroenterite deu lugar à insuficiência respiratória e à arritmia cardíaca, pediu para voltar para casa. Fizeram-lhe, pela última vez, a vontade. Cayetana de Alba morreu como viveu — como quis, aos 88 anos.
Cayetana, duquesa de Alba, lanza un beso al aire, durante su boda con su tercer marido, Alfonso Díez, el 5 de octubre de 2011.
Texto: Público

Fotos: El país

A sessão fotográfica do ano

por A-24, em 16.11.14

















As mães da Arménia

por A-24, em 14.11.14
Malomil

  Steve Jobs falava fluentemente arménio. Pelo menos, é o que alguns dizem, baseando-se no facto do fundador da Apple ter como mãe adoptiva Clara Hagopian, nascida nos Estados Unidos, mas de ascendência arménia. E não, não estamos a citar a Wikipedia, mas o dossier secreto de Steve Jobs no FBI. Todos conhecem a história dos pais biológicos e dos pais adoptivos de Jobs e que opinião tinha este sobre o assunto. Quando lhe diziam que Paul e Clara eram os seus «pais adoptivos», Steve replicava «são os meus pais, são 100% meus pais». Os outros, os biológicos, eram apenas «esperma e um óvulo», nada mais do que isso. Mas daí a saber falar arménio por via materna vai um grande passo. Seja como for, é provável que, no mínimo, conhecesse os caracteres da língua da sua mãe Clara – e é quase impossível não vermos a marca da beleza delicada da caligrafia arménia no desenho de tudo quanto sai do ventre da Apple.

A exaltação da maternidade é uma característica secular da cultura arménia. Décadas de guerras e horríveis tormentos fizeram o resto. Em 1915, o genocídio do povo arménio deixou-nos essa palavra – a expressão «genocídio» foi cunhada para descrever estes massacres – e imagens devastadoras. Imagens de mães em fuga, carregando os filhos às costas. De todas, a mais poderosa é aquela em que uma mãe chora a morte da sua menina.




Não admira, por conseguinte, que em Erevan exista uma escultura monumental intitulada «Mãe da Arménia». Aliás, existem esculturas com esse nome em vários pontos do país. Mas se a glorificação da maternidade – e da coragem guerreira das mulheres da Arménia – é um traço multissecular daquele país, a escolha da «Mãe da Arménia» deve-se, muito possivelmente, ao amplexo tão maternal quanto sufocante de uma outra mãe, esta severíssima. A Mãe Rússia. Não é por acaso que nas antigas repúblicas da URSS – em Kiev, na Ucrânia, ou em Tlibissi, na Geórgia – existem igualmente estátuas colossais de mulheres de armas, jovens esbeltas mas de ar belicoso, pouco ou nada maternal (ver a estátua de Kiev aqui no Malomil, e a da Geórgia aqui).




Mãe da Geórgia (1958)

A Mãe da Arménia data de 1967. Naquele lugar havia sido inaugurada, em 29 de Novembro de 1950, uma obra diferente, a maior estátua de Estaline erigida na Europa. A autoria desse monstro devia-se aSergey Merkurov (1881-1952), o escultor predilecto de Estaline. Nascido justamente na Arménia, Merkurov foi Artista do Povo da URSS, membro da Academia Soviética das Artes e director de um dos mais belos museus de Moscovo, o Pushkin. A ele se devem largas dezenas de máscaras mortuárias (no Museu Merkurov existe a única máscara mortuária autêntica de Lenine, além dos rostos derradeiros de Tolstoi, Gorky, Mayakowski). Do seu cinzel saíram as três maiores estátuas de Estaline que existiam na defunta União Soviética. Era primo do místico Gurdjieff e praticou actos notáveis, como ter salvo da ira revolucionária a estátua de Catarina, a Grande, que Merkurov discretamente empacotou para Erevan. Ao que parece, teve a tristíssima ideia de, para o 70º aniversário de Estaline, lhe oferecer uma muito dispendiosa estátua chamada, pasme-se, «Morte de um Líder». José Estaline, como é evidente, não apreciou a simpatia – recusou a oferta e o artista caiu em desgraça. Mas, por maiores que tenham sido os seus feitos escultóricos, o nome de Merkurov será sempre associado ao famoso «Abecedário Erótico» que desenhou em 1931. O blogue The Charnel-House publicou-o em abundância, pelo que, por pudor, vamos apenas deixar aqui uma das mais castas imagens. Apenas pro memoria, até porque o alfabeto obsceno já foi reproduzido entre nós, no blogue História Maximus. As figuras têm uma clara inspiração na iconografia erótica greco-romana – o que não admira, dada a formação clássica de Merkurov – e possuíam, aparentemente, um propósito iconoclasta e provocador. Mas, na verdade, o seu objectivo era conformista e servil, visando ferir a susceptibilidade ortodoxa e a influência da igreja para com isso agradar ao novo poder soviético.






Sergey Merkurov




Abecedário Erótico, de Sergey Merkurov (1931)



Ross Wolfe, escritor, tradutor e autor do blogue The Charnel-House, agradece a Agata Pyzik, ensaísta de origem polaca que, segundo ele, foi quem deu a conhecer ao mundo anglófilo o alfabeto lascivo de Merkurov. Agata Pyzik, que vive em Londres desde 2010, publicou recentissimamente um livro, com o título Poor But Sexy, Culture Clashes in Europe East and West, Ainda que centrando-se muito no caso da Polónia, sua terra natal, a tese que defende não anda longe da sustentada por André Meier em 2006 no documentário Do Communists Have Better Sex?



André Meier, Do Communists Have Better Sex? (2006)


Nesse documentário afirmava-se que os alemães de Leste tinham uma vida sexual muito mais activa e interessante do que os seus irmãos do lado ocidental do Muro. Mesmo que estes tivessem mais liberdade e maior poder de compra, os cidadãos da RDA beneficiavam de leis mais flexíveis em matéria de divórcio e aborto, além de uma política muito mais efectiva de controlo de natalidade. Sem pôr em causa a conclusão geral sobre a abundância e variedade do sexo na Alemanha de Leste, importa ter presente o seguinte: as alemãs e os alemães, quando jovens, parecia estar dispostos a optar pela monogamia, pelo menos jurídico-formal. Casavam muito mais cedo, em média, do que os cidadãos da Alemanha ocidental. Porquê? Entre outras coisas, para conseguirem subir na lista de espera dos apartamentos distribuídos pelo Estado. Ao fim de três anos, em cada três mulheres da RDA duas estavam divorciadas. E com filhos a cargo. Não admira que 90% das crianças da RDA tenham sido, desde tenra idade, educadas emKindergarten. A dada altura, dada a escassez de géneros, só vendiam fraldas a quem tivesse um documento comprovativo de maternidade: em resposta, as alemãs de Leste, apresentavam os seus bebés nas caixas dos supermercados. Um país curioso, desparecido há 25 anos, que, com a cumplicidade da indústria farmacêutica do Ocidente, permitiu que 14.000 dos seus cidadãos tenham sido usados como cobaias humanas no uso experimental de novos fármacos ou produtos congéneres (quimioterapia, antidepressivos, anticoagulantes, até pasta dentífrica). Desconhece-se o número de vítimas, como não se encontrou um único documento em que as «cobaias» dessem o seu consentimento – o seu consentimento informado – a estas experiências farmacológicas. O negócio rendeu cerca de 16,5 milhões de marcos às autoridades da RDA. Os pacientes não receberam um cêntimo.














Voltemos à Mãe da Arménia ou, melhor dizendo, regressemos à base. A monumental escultura de Estaline, como se disse, fora desenhada por Merkurov, autor do não menos escandaloso abecedário erótico. A base era do arquitecto Rafayel Israyelian (1908-1973), que expressamente afirmou que concebera o pedestal como uma basílica arménia, com três naves. Diz-se que a construção tem claras semelhanças com a Igreja de Santa Ripsima, construída no século VII. Não deixa de ser irónico que, na base de uma estátua a Estaline, desenhada por um escultor que fizera um abecedário pornográfico com fitos anticlericais, esteja um edifício inspirado numa igreja do século VII.









Já Estaline durou menos tempo. Praticamente a seguir à sua morte, várias estátuas em sua homenagem desapareceram da paisagem do Leste da Europa. Assim aconteceu, por exemplo, na Karl Marx Allee, em Berlim, hoje só restando no Café Sybille um pedaço do bigode e uma orelha da estátua do Pai dos Povos, que já mostrámos aqui. Também na capital da Arménia se fez desaparecer Estaline. Na Primavera de 1962, a estátua foi removida, o que exigiu um aturado trabalho de desconstrução, que matou um soldado e fez vários feridos.








A Estátua de Estaline, em Erevan



Substituíram Estaline pela Mãe da Arménia, agora uma estátua de Ara Harutyunyan. Com uma altura de 22 metros, feita de cobre, forma com o pedestal em basalto um conjunto de 51 metros de altitude. A basílica original mantém-se, sendo hoje um museu militar dedicado à 2ª Guerra e, em especial, aos mortos da Guerra de Nagorno-Karabakh, o conflito entre a Arménia e o Azerbaijão que terminou com um cessar-fogo em 1994 mas que, em substância, permanece por resolver. Entretanto, em Erevan, a belicosa Mãe da Arménia tornou-se um ícone, infinitamente reproduzido, quase sempre num registo kitsch pavoroso.






























Num território martirizado por séculos de conflitos, as mulheres ora pegavam em armas, ora ficavam em casa, cuidando dos filhos, esperando que os homens regressassem da frente. Entre as que se destacaram em combate, Sose Mayrig (1868-1952). Há quem diga que Mãe da Arménia se inspira nela, ou noutras como ela. Sose Mayrig lutou contra os turcos, de armas na mão, juntamente com o marido e os filhos do casal. Animou as tropas, era admirada pela sua bravura. Não abandonou os combates mesmo depois de ter sido ferida, de ter perdido o marido e todos os filhos.

Nos anos vinte, cansada de guerra, estabeleceu-se em Alexandria, no Egipto, onde morreria em 1952. Mas ainda hoje existem na Arménia muitas mulheres como ela. Eis uma imagem desconcertante: na aldeia de Degh, na fronteira com o Azerbaijão, uma senhora com a bonita idade de 106 anos não baixa os braços. De metralhadora A-47 em punho, defende a sua casa, agora e sempre. Com os azeris por perto, há que estar alerta.





Mães da Arménia foram, e são, também as mulheres e mães dos mortos em combate. A expressão «mãe da Arménia» vulgarizou-se na linguagem corrente e na iconografia do país. Existem estátuas de mães-coragem em vários lugares. Em Gyumri, uma mãe-escultura datada de 1975. Outra, mais erótica e dinâmica, em Ijevan. Em Abril deste ano, foi inaugurado no Memorial do Genocídio do Povo Arménio, em Erevan, uma escultura de Serouj Ourishian que figura uma mulher fugindo dos massacres, protegendo uma criança.







Estátua de Gyumri






Estátua de Ijevan




Estátua de Erevan,
Memorial do Genocídio do Povo Arménio

Uma das mais conhecidas e emblemáticas imagens de mães arménias é da autoria de Chanik Aramian, e data de 1861, chamando-se «Arménia de Luto» ou «Ruínas da Arménia», tendo sido reproduzida em bordados, tapeçarias. A partir da década de 1870, tornou-se um símbolo patriótico da nação arménia. É espantosa a semelhança existente entre essa gravura e a fotografia estereoscópica tirada por Onnes Kurkdjian circa 1877-1880, mostrando uma mulher entre ruínas, que pode ser vista aqui.








Recentemente, e tirando partido da popularidade do termo «mãe da Arménia», foi desenvolvido um projecto artístico, mas também de intervenção cívica e política, intitulado mOther Armenia (ou aqui). Dez fotógrafas arménias apresentaram o seu país segundo um ponto de vista feminino. Imagens de pessoas que vivem nas margens da sociedade (uma série é dedicada aos transsexuais), outras das viúvas ou das mães de soldados mortos. Interiores vazios, com fotos e recordações (ver o vídeo,aqui)

O trabalho mais marcante, neste contexto, é o de Sara Anjargolian, a série «An Absent Presence». Sara fotografou os familiares dos soldados mortos em circunstâncias acidentais, nunca esclarecidas. Não eram militares em combate. Estas «Mães da Praça de Maio» (e desculpem o lugar-comum, óbvio em demasia) reúnem-se na Praça da República, em Erevan, em frente aos edifícios ministeriais. Exigem saber em que condições morreram os seus filhos. Numa das imagens, Nana Muradyan observa as fotografias da autópsia do seu filho. Valery apareceu morto em 2010, numa base militar. As forças armadas sustentaram que se tratou de um suicídio, mas a família acredita que Valery foi assassinado para encobrir outro crime, possivelmente o furto de combustível. Nana afirma que, dias antes de morrer, Valery lhe dissera que tinha recebido um telefonema anónimo, dizendo-lhe para manter o silêncio quanto ao roubo de gasolina que testemunhara. Ofereceram-lhe uma quantia pelo seu silêncio: 3000 dram, a moeda local. O equivalente a sete dólares. Dias depois, apareceria enforcado na base militar onde servia.



Nara Muradyan, observando as fotografias da autópsia do filho
Fotografia de Sara Anjargolian

As forças armadas são uma das instituições mais reservadas e fechadas da Arménia. Nos últimos anos, têm-se acumulado queixas de maus-tratos e homicídios nos quartéis. Às dezenas, jovens aparecem mortos, dizendo-se que pereceram por acidente ou que se suicidaram. As mães da Arménia temem que os seus filhos cumpram o serviço militar obrigatório. A guerra terminou oficialmente em 1994, mas os mortos continuam. E, com eles, as mães da Arménia.





















Fotografias de Sara Anjargolian

No fim, enfim, Tigran Hamasyan, compositor e pianista de jazz arménio, tocando uma música inspirada no folclore do seu país. Título:Mãe, onde estás?
António Araújo

Fotografia: Caçador de tornados

por A-24, em 11.11.14
Every summer, Matthew Higgins, 28, leaves his home in Berkshire and heads to mid-west America to chase tornadoes
















Rocktober Fest 2014: Imagens

por A-24, em 17.10.14


































Marlboro boys

por A-24, em 12.10.14
Via Malomil


Tem havido tanta violência e morte por esse mundo fora – Gaza, Síria, Ucrânia, a queda do avião da Malaysian Airlines, o vírus do Ébola – que Fred Ritchin se interroga, num artigo daTime, até que ponto deveremos ser tão expostos ao sofrimento dos outros. Professor na Universidade de Nova Iorque, o argumento de Ritchin a favor da publicitação da violência é convincente, ainda que previsível. Mas há coisas que nos tocam de maneira muito diferente. Ver uma retrospectiva no 10º aniversário do massacre de Beslan,
como esta aqui, perturbou-me ao ponto de não querer sequer escrever sobre aquelas imagens, sobre o luto que por ali persiste – e que persistirá até ao fim. Na sede da Caixa Geral de Depósitos foi inaugurada há dias uma exposição fotográfica, imagens de meninas obrigadas a casar precocemente, contra a sua vontade. Too Young to Wed. Neste caso, o que nos incomoda é a exibição da vida matrimonial, 

na sua aparente normalidade. Também aqui, com os meninos fumadores da Indonésia, não se mostra nada particularmente cruel, pelo menos à superfície. Não há sangue, não há lágrimas. Tudo normal. Apenas crianças a fumar cigarros, num país onde 60% da população masculina é fumadora e onde muitas dos rapazes começam a fumar… aos quatro anos. Não se fale, aqui, neste caso concreto, de autodeterminação pessoal e de liberdade na vida privada. O que mostraeste trabalho Marlboro Boys, da fotógrafa canadiana Michelle Shiu, é tão violento como as imagens de sangue e dor. Na Indonésia, a cultura de tabaco é importante para a economia, mas por todo o Extremo-Oriente se fuma desalmadamente. As multinacionais tabaqueiras, sentindo-se ameaçadas pelas leis antitabágicas do mundo «civilizado», direccionam agora os seus investimentos para roupas e acessórios (a Marlboro é quase tanto uma marca de vestuário como de cigarros), enquanto apostam forte – e feio – em novos mercados. Isto não é economia de mercado, é crime organizado. Que deveria ser punido como tal, o que jamais acontecerá num país tão dependente do cultivo do tabaco – e que despreza desta forma tão cruel a vida dos que nele vivem.

Super Lua @ Madeira

por A-24, em 11.08.14

fonte

Burning Man 2012, Black Rock Desert, Nevada, USA Temple Of Juno

por A-24, em 27.07.14

Source

Taiwan

por A-24, em 18.07.14

Imagens da semana

por A-24, em 12.07.14
Morreu Di Stefano


Ponte caída em donetsk, Ucrânia


Bombardeamentos em Gaza


Começaram as festas de San Fermin


A tragédia brasileira I


Miroslav Klose, melhor marcador de sempre em Mundiais


A tragédia brasileira II



A tragédia brasileira III