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A-24

Sobre o Cais do Sodré

por A-24, em 08.04.12
Quando António Figueiredo se mudou para lá, o Cais do Sodré "era completamente diferente". Foi há 16 anos. "O que se passava [de problemas] era dentro dos bares, que tinham as portas fechadas. Havia desacatos na rua, mas isso era pontual", explica. "Depois havia as meninas, mas eram sempre as mesmas e iam para as pensões." E que ajudavam a controlar o que se passava na rua. Os moradores davam-se bem com elas. A fama da zona não era das melhores, mas tem saudades desses tempos.

Hoje queixa-se de não conseguir dormir, dos gritos, das "corridas de caixotes do lixo a meio da noite", dos graffiti, dos carros vandalizados, do lixo e do mau cheiro nas manhãs de fim-de-semana. "Já tive de saltar por cima de um carro para entrar em casa, ao sábado e ao domingo de manhã não posso abrir a janela, que fico com a casa a cheirar mal."
Desde o final do ano passado que o Cais do Sodré não é o mesmo. Em Setembro, após obras no edifício, reabriram os emblemáticos Tokyo, Jamaica e Europa. Em Novembro, surgiram três novos espaços: a Pensão Amor, o Povo e a Velha Senhora. Por essa altura também, a Rua Nova do Carvalho foi fechada ao trânsito e pintada de cor-de-rosa. Há mais gente na rua. O Cais do Sodré ganhou uma nova vida. Para os moradores, foi o início de um pesadelo.
"O Cais do Sodré tinha má reputação, mas para quem morava cá era mais seguro", diz Dani Simeray, um belga que escolheu esta zona para viver. "Isto é esquizofrénico", resume. "Em vez de estarem a resolver os problemas pelas causas estão a ir às consequências", critica, referindo-se à actuação da câmara. A freguesia tem perdido moradores. De acordo com os Censos, em 2011 viviam 2728 pessoas em São Paulo, menos do que os 3521 habitantes registados dez anos antes. "É impossível continuarmos a viver aqui assim", conclui António Figueiredo. "Mas agora vendo o andar a quem, nestas circunstâncias?"


Juntou-se a outros moradores. Formaram um grupo de trabalho, o Nós Lisboetas, e prometem não baixar os braços. Em http:/www.flickr.com/photos/maiscais/ vão construindo um arquivo fotográfico com o que se passa no Cais do Sodré. Já se queixaram e tiveram uma reunião com o vereador José Sá Fernandes - que prometeu mais fiscalização de horários - e vão apresentar uma reclamação sobre os horários dos bares ao provedor de Justiça, que por duas vezes já se pronunciou sobre questões semelhantes no Bairro Alto.

"Policiamento insuficiente"

A PSP não revela números das queixas e das ocorrências registadas nos últimos meses. E não diz quantos agentes fazem o policiamento da zona. Segundo Pedro Vieira, proprietário do Europa e presidente da Associação Cais Sodré, que junta os comerciantes, "o policiamento sempre foi insuficiente" e só não é ainda mais porque há polícias gratificados pelos bares, desde Setembro. A autarquia não respondeu às perguntas enviadas pelo PÚBLICO.
Porém, o presidente da Junta de Freguesia de São Paulo, Fernando Pereira Duarte, reconhece que há queixas, como, garante, sempre houve. Mas fala em "outro tipo de queixas", relacionadas não com a rua onde está a maior parte dos bares mas com a envolvente. Mas nem todos estão descontentes. Miguel Brito Gonçalves, dono da Taberna Tosca, na Praça de São Paulo, que também já foi morador, diz que, graças ao esforço dos comerciantes, "já não é nenhuma vergonha frequentar o Cais do Sodré à noite" e que a zona está "muito mais segura".
O mesmo não pode dizer Maria, prostituta. Há oito anos que conhece o Cais do Sodré e nunca gostou tão pouco dele. Já não fica até às horas que se deixava ficar antigamente. Vai para casa à meia-noite. Depois disso aparecem "uns miúdos, que já não têm respeito pelas mulheres" como tinham os homens que antes frequentavam a zona.
A Associação Cais Sodré reuniu-se, há uma semana, com o presidente da junta, para encontrar formas de convivência saudável entre a noite e o dia no Cais do Sodré. "Estamos a devolver à cidade esta zona, que era um bocadinho pesada nalguns aspectos", diz Pedro Vieira. "O nosso objectivo é levar isto a bom porto e fazer com que as coisas funcionem bem, respeitando todas as partes, incluindo os moradores." 
O problema da limpeza e a venda de garrafas para a rua são as questões mais urgentes, adiantou Pedro Vieira no final da reunião. "Já pedi ao presidente da câmara para alargar o despacho [que limita os horários das lojas que vendem bebidas alcoólicas em garrafas de vidro] para o Bairro Alto ao Cais do Sodré", conta Fernando Pereira Duarte. As mercearias e lojas de conveniência têm-se multiplicado agora que o Bairro Alto deixou de servir para aquele negócio. Uma moradora deixa um aviso: "Os moradores do Cais do Sodré vão fazer o mesmo caminho que os do Bairro Alto."

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