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A-24

Sobre a saída da Grécia (e de Portugal) do Euro

por A-24, em 11.05.12
Foram precisos dois referendos para a Irlanda aceitar a moeda única. Nos outros países da UE onde foi feito o referendo, as pressões dos organismos centrais europeus sobre os Governos soberanos foram extraordinárias. "A Europa não pode avançar a duas velocidades", diziam. A Grécia, para entrar no pelotão, contratou a Goldman Sachs para disfarçar as contas públicas através do investimento em produtos tóxicos; os mesmos que acabariam por levar à crise financeira de 2008. Portugal aprovou a moeda sem consulta referendária - o centrão gosta de trabalhar nas costas de quem o elege e sobretudo rege-se por uma política de subserviência, pusilânime e anti-patriota, na relação com os países mais fortes.
A crise de 2008 pôs à vista as fragilidades da construção europeia. De um projecto europeu solidário e mais ou menos democrático passámos a viver sob uma oligarquia dos poderosos. Com a Alemanha à cabeça. Os países periféricos, mais expostos à crise financeira, viram a sua dívida pública e o défice crescerem de forma brutal. Por razões de fundo na Grécia - a engenharia financeira promovida pelos sucessivos Governos com o apoio da Goldman Sachs; para salvar os bancos na Irlanda e em Portugal; pelo rebentar da bolha imobiliária em Espanha. Em comum, estes países tinham uma dependência excessiva do sistema financeiro. A economia especulativa dominava, sobrepondo-se à economia real e política. Por todo o lado? Nem por isso. A Alemanha continua a planar sobre a crise muito por causa das suas exportações, cada vez menos dependentes dos outros países europeus.
Mas a crise da dívida trouxe um problema à Alemanha: a exposição dos seus bancos à crise grega. A Grécia não poderia ir ao fundo rapidamente, era necessário salvar as instituições financeiras. Nos últimos três anos, mais de metade dos fundos europeus para a recapitalização bancária foram absorvidos por bancos alemães. Para além disso, o pornográfico funcionamento do BCE - empréstimos a 1% aos bancos nacionais para estes reemprestarem aos Estados com juros à taxa variável que os "mercados" impõem - beneficiou sobretudo os bancos alemães.
Passados três anos, a Grécia pode finalmente cair. O resultado das últimas eleições - a rejeição das medidas de austeridade - é a janela de oportunidade para a Alemanha se "livrar" da indesejada Grécia. Mesmo que o Syriza queira continuar no Euro e tivesse vontade de liderar um Governo europeísta. Isso agora não interessa. Não poderiam ser mais claras, as declarações do ministro das Finanças alemão: "Zona Euro está em condições de suportar saída da Grécia".  De uma maneira ou outra, a Alemanha sairá sempre a ganhar. Continuará a crescer à custa dos países periféricos. Acabe ou não o Euro, destrua-se ou não o projecto europeu, a Alemanha ganha sempre.
Resta saber se, neste momento, não será melhor para a Grécia e Portugal sairem também do Euro, e deste modo poderem encetar políticas de recuperação económica independentes dos ditames do directório europeu e das vicissitudes da moeda única. Para a Alemanha, pelos vistos, é igual ao litro. E para nós?

Sérgio Lavos in arrastao.org