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A-24

Se vê muita televisão, está a perder anos de vida

por A-24, em 16.11.12

Ver televisão diminui a esperança de vida em vários anos, concluiu um estudo australiano, cujo autor diz ao Expresso que as pessoas não têm noção dos riscos que correm.

"Couch potato". A expressão norte-americana (qualquer coisa como "batata de sofá") que é utilizada para qualificar as pessoas que passam muito tempo 'enterradas' no sofá a ver televisão é habitualmente utilizada num tom jocoso, mas a verdade é que a situação acarreta mais riscos do que aparenta.

A conclusão é de um estudo australiano - "Television viewing time and reduced life expectancy: a life table analysis" - publicado no "British Journal of Sports Medicine". A pesquisa assegura que a cada hora que uma pessoa passa sentada a ver televisão reduz a esperança de vida em 22 minutos. Isto é, quem passa uma média de seis horas por dia a ver televisão pode viver menos cinco anos, além de elevar os riscos de ter diabetes e doenças cardiovasculares.
Os dados analisados referem-se às respostas de 12 mil australianos (com mais de 25 anos) sobre o seu estilo de vida, obtidas depois de se questionar não só o sedentarismo, mas também os hábitos alimentares e o tabagismo. Mas a pergunta mais importante era aparentemente inofensiva: "quantas horas vê televisão por dia?" 

"Os riscos que enunciamos vão crescendo com o tempo" 


"Os resultados aplicam-se às pessoas que vêm televisão, mas, se estiverem igualmente paradas, também se podem aplicar às pessoas que estão no computador. Os comportamentos sedentários podem ser 'triviais', mas quase todos nós fazemos isso por várias horas todos os dias, por isso os riscos vão acumulando", explica ao Expresso Jacob Lennert Veerman, médico e investigador da Universidade de Queensland, um dos autores do estudo publicado na semana passada.
"Só agora é que os investigadores começaram a olhar para as consequências deste comportamento na saúde e o nosso estudo reflete os resultados que encontrámos", acrescenta Veerman, admitindo que a questão não se colocaria há 15 anos, por exemplo, porque havia muito menos pessoas a ver televisão.
"Pode ser uma das razões pelas quais estas conclusões só se põem agora - e há que ter em conta que os riscos que enunciamos vão crescendo com o tempo. Por exemplo, com a diabetes há uma deterioração gradual do sistema antes de uma pessoa ter a doença, depois sofre-se com a doença durante um longo período e após muitos anos morre-se das consequências. O que se vê, portanto, em termos de mortalidade de algumas doenças, é o resultado do efeito cumulativo de 'vícios' ao longo dos anos e até de décadas", explicou o investigador australiano, especialista em utilizar estatísticas para fazer previsões.

Fumar vs. ver televisão 


Os resultados do estudo são especialmente alarmantes porque as consequências do comportamento sedentário podem não ser visíveis a curto prazo, mas afetarão um número mais alargado de indivíduos. Na Austrália, as pessoas com mais de 25 anos viram 9,8 mil milhões de horas de televisão, em 2008, de acordo com o estudo.
"Se assumirmos que fumar reduz a esperança de vida em 10 anos, de acordo com a nossa pesquisa teríamos de ver 12 horas de televisão por dia para ter consequência semelhante. Portanto, digo que fumar é pior, claro, a nível individual. Mas se olharmos para a toda a população, ver televisão pode causar mais danos porque, ainda que cada vez menos pessoas fumem, quase todas as pessoas vêm televisão."

"Não podemos evitar todos os riscos na vida, pois não?" 


Jacob Lennert Veerman ressalva, no entanto, que o exercício físico regular pode "compensar", em parte, os possíveis problemas de ver demasiada televisão, até porque se o limite de duas horas por dia de televisão não for superado, os riscos são menores.
"Independentemente da idade, nunca é tarde para melhorar o nosso comportamento e reduzir drasticamente os riscos", explica Veerman. "Tenho 41 anos, vou de bicicleta para o trabalho e faço natação quatro vezes por semana. Se vejo quatro horas de televisão por semana já é muito. Mas também é verdade que passo imenso tempo no computador. Afinal, não podemos evitar todos os riscos na vida, pois não?"