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A-24

"Racismo (ele existe)"

por A-24, em 27.05.12
In Bairro do oriente

Estava no outro dia a ver o programa "5 para a meia noite", que passa agora nas manhãs de terça a sábado na RTPi. O apresentador era o desengraçado Nuno Markl, e nele mais uma vez assistimos a piadolas sem graça sobre "os chineses", ainda na sequência da compra da EDP pela empresa "Três Gargantas", algo que parece incomodar os falidos lusitanos. Tenho pena que ainda seja assim. O nosso orgulho (ignorância?) ainda nos deixa olhar para os chineses como uns tipos "engraçados", exóticos e vilões. Ainda são os tais que figuram no pacote do pudim flan El Mandarin (que ainda por cima é espanhol), ou dos filmes de kung-fu. Os chineses ainda são os gajos dos restaurantes... chineses. Ou das lojas dos trezentos, agora chamadas lojas dos chineses. Os chineses ainda são uma piada. Ahahah. E nós ali todos falidinhos da Silva. Ahahah. E eles a maior economia emergente do mundo. Ahahah. Dá mesmo vontade de rir.
Aqui em Macau estamos mais que vacinados para isto. Quem vive no território há pelo menos 3 anos sabe que os chineses são um povo empreendedor, trabalhador e sério. Não há lugar para piadas e bocas racistas. Nós somos os convidados, e eles até nos respeitam, e na volta ainda querem aprender qualquer coisa connosco. Duvido que na televisão chinesa existam programas onde façam piadas sobre os tesos dos portugueses, que imploram que lhes comprem a dívida, que se afundam na miséria e no desemprego. Enfim, os chineses não têm tempo para isso. Se calhar a maioria deles nem sabe onde Portugal fica, e se isso pode ser entendido por ignorância ou falta de cultura geral, também pode ser entendido por desprezo. Desprezo do bom e do fresquinho. Deste lado, dos do "ou mun ian" (macaenses), existe uma espécie de descriminação com que deparo todos os dias. É sabido que os chineses não gostam muito de misturas, e ainda é-lhes difícil aceitar casamentos mistos, com estrangeiros ocidentais ou africanos. A coisa não muda muito de figura quando se trata de imigrantes do Sudeste Asiático. Falo das filipinas e das indonésias. Não é muito normal um chinês de Macau casar com uma filipina ou indonésia, e basicamente - e isto chamando os bois pelos nomes - porque elas são consideradas "sujas". Isto tem a ver com um tipo de preconceito antigo, a ver com as "tan ka ian", ou tancareiras, ou seja, a versão macaense das "boat people".
As tancareiras eram mulheres originárias da China continental que imigraram para Macau sobretudo depois dos anos 40. Viviam em embarcações estacionadas na zona do Porto Interior, eram bronzeadas do sol e cheiravam a peixe podre. Muitos portugueses, especialmente soldados, casaram e miscigenaram-se com elas, dando origem a muitos macaenses que ainda hoje são vivos. Mas quanto aos chineses que não eram "boat people", estes sempre lhes deram uma grande dose de desprezo, que passou para as tais imigrantes do Sudeste Asiático. Os "ou mun ian" preferem as mulheres "branquinhas", se bem que, e falo por experiência própria, branqura de pele nunca foi sinónimo de higiene. São preconceitos com que convinha acabar. Porque não?