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A-24

Quando eu era "fascista"

por A-24, em 20.01.13
«Quando se tem vinte anos, em momentos revolucionários e de grande agitação política, ou se é comunista, ou fascista, ou parvo», dizia-me, com ironia, há muitos anos, o Jaime Nogueira Pinto, de quem acabei de ler o excelente e irrepetível (a nossa história pessoal não se conta duas vezes) primeiro romance, Novembro, numa altura em que, por coincidência, um velho amigo me fez chegar às mãos duas colectâneas de músicas perdidas do José de Campos e Sousa, uma delas o célebre Cancioneiro da Resistência, gravado nos idos de 75 e 76, e a outra as Lágrimas de Portugal, com canções desse tempo e outras mais tardias.
Foi quanto me bastou para regressar aos meus tempos de «fascismo», quando tinha 15, 16, 17 anos, na segunda metade da década de 70, numa época em que quem não fosse do PC ou da extrema esquerda era mal tolerado (se fosse do PS), ou perseguido e importunado, se estivesse um pouco mais à direita (ainda que o PPD, nessa altura, se dissesse “socialista” e de “esquerda”, e o CDS, do sempre titubeante Professor Freitas, não se considerasse de direita, mas um partido “rigorosamente ao centro”...), sendo que os incómodos, por esses tempos, não se ficavam pela oratória, assumindo argumentos um pouco mais palpáveis e físicos…
Eu andava pelos liceus do Porto e era visto pelos meus colegas adversários como um «fascista», e pelos meus «camaradas» e por mim próprio como um «nacionalista revolucionário», numa primeira fase, e apenas como «nacionalista», numa fase mais tardia e madura. A minha geração não apanhara, com maturidade, o fim do marcelismo e o 25 de Abril, nem tinha bem a consciência pessoal e política do que significava a ideia de Portugal para além do rectângulo, a ideia do “Império” de que os mais velhos falavam. Assistimos conscientemente, claro, à queda do regime, à sucessão de inventonas e golpes e contra-golpes, ao PREC, ao Verão Quente e à descolonização, mas estávamos ainda, por esses dias, a sair da infância para uma adolescência politicamente precoce e muito agitada, para podermos ter ideias firmes e fundamentadas sobre o mundo que tinha acabado de desaparecer bem à nossa frente.
Para além de termos apanhado a revolução na sua fase thermidoriana, o que nos distinguiu das personagens dos “nacionalistas” de Novembro foi não termos tido essa percepção do que era o «Ultramar», o «Portugal de Minho a Timor», a ideia de um Portugal maior do que o rectângulo europeu que não se confinava à geografia europeia, um ideal com objecto desaparecido, mas que tinha sido, muito pouco tempo antes, o divisor de águas entre os que «defendiam» o regime (muitos dos quais sem simpatizarem com ele, nem na forma salazarista, muito menos na versão marcelista) e aqueles que queriam o seu fim. Mais do que a discussão das liberdades contra a ditadura, foi o Ultramar que dividiu o país e separou os que queriam manter ou derrubar o regime. E foi, de resto, o Ultramar que o fez cair em 25 de Abril de 1974.

Quando chegámos ao pleno da nossa adolescência, já o «Portugal Ultramarino» não existia, nem tinha forma de voltar a existir. O “Império Português” já não existia. A guerra colonial já não existia. A incorporação para África já não existia. Tínhamos ficado no e com o rectângulo, e o Partido Comunista abrandara a marcha da revolução, não apenas por ter sido obrigado a fazê-lo pela resistência popular que o livro do Jaime relata muito bem, mas, sobretudo, porque a descolonização fora feita, em pleno, pelo diapasão dos interesses soviéticos, aos quais o seu internacionalismo proletário devia obediência. O objectivo principal fora cumprido e o resto podia aguardar.
O nosso «nacionalismo revolucionário», ou «fascismo» (conforme as perspectivas) do pós 25 de Abril foi, assim, mais reactivo e romântico, do que programático ou sequer pragmático. A ideia de um Portugal maior pelo qual valeria a pena lutar e dar a vida e a alma, a utopia que exacerbara os nacionalistas das gerações anteriores, já era, e ninguém de senso imaginava que pudesse voltar a ser. Verdadeiramente, não nos podia mobilizar, portanto, a não ser pela proximidade temporal da utopia e o fascínio que ela pudesse ainda exercer em nós. O «rectângulo», por sua vez, começava a entrar na modorra habitual do dia-a-dia a que Salazar o habituara, e os olhos e as cabeças pensantes há muito que se tinham voltado para a «Europa», e já não pensavam noutra coisa: o bom nível de vida da «Europa», que contrastava com o nosso provincianismo; a necessidade de deixarmos a «cauda da Europa» e avançarmos, “rapidamente e em força”, para o “pelotão da frente”; as promessas de entrarmos na “Europa rica”, na CEE. A “Europa” foi a utopia política que o regime saído do 25 de Abril democrático contrapôs à utopia do “Ultramar”, que marcara os últimos anos do regime anterior. Nenhuma delas poderia entusiasmar-nos: a primeira, porque, aos vinte anos, ou se é comunista, ou fascista, ou parvo, a segunda, por ter já expirado no tempo.

É certo que existia ainda a União Soviética e a cortina de ferro, e que, em Portugal, o domínio das instituições e das opiniões pertencia totalmente à esquerda e à extrema-esquerda. Também é evidente que, embora ainda muito jovens, tínhamos valores e conhecíamos princípios, e que uns e outros estavam nos antípodas do que a esquerda comunista nos tinha oferecido: uma revolução. Essencialmente, e ao invés do que chegamos a acreditar, éramos verdadeiros contra-revolucionários e mesmo até conservadores, no sentido político mais elevado que a expressão pudesse ter nas nossas idades. E tinha.
Para combatermos uns e defendermos os outros, fomos para a rua, actuamos nos liceus, fizemos o "10 de Junho" e o "1º de Dezembro". Mas isto, por si só, não constituía uma ideologia, menos ainda quando a nossa maior proximidade intelectual se encontrava na defesa de um Ultramar que já não existia, e na utopia de um Portugal integracionista, que nunca chegara verdadeiramente a estar nos planos dos decisores políticos anteriores ao 25 de Abril (se tivesse estado, talvez a descolonização não tivesse sido a tragédia que foi). O nosso «fascismo» foi, assim, essencialmente reactivo, mesmo “reaccionário”, se preferirem, e por isso mesmo, e antes de tudo, uma forma de afirmação da nossa liberdade individual, contra a «liberdade» que os novos senhores dos vários “regimes” que começavam a florescer em Portugal nos pretendiam impor. Muito distantes de qualquer programa político, tão pouco de uma ideia pragmática de Portugal, sabíamos, contudo, muito bem o que não queríamos, e tínhamos como muito firme a necessidade de defender a liberdade de dizermos e de pensarmos o que nos apetecesse. Esse era o nosso verdadeiro “programa” político.
Julgo que o tempo veio depois a ensinar-me alguma coisa, e aquela de que tiro maior proveito é a da volatilidade das paixões políticas, sobretudo quando combatemos, até ao extremo, por uma ideia que queremos que seja reconhecida por todos, como quase sempre sucede nos períodos de revolução.
Na verdade, o domínio do político é o do que é comum a nós e aos outros, pelo que é absolutamente insensato querermos impor a quem pensa de modo diferente de nós aquilo que nós pensamos e em que acreditamos. A virtude duma sociedade livre não está tanto da democracia stricto sensu considerada, já que esta é essencialmente um método e não um fim, mas na pluralidade, isto é, na coexistência pacífica de todas as opiniões, e no respeito pelas escolhas do próximo, que devem ser tão livremente assumidas e decididas quanto as nossas. Há valores que são «melhores» do que outros? Não duvido. Por isso tenho e defendo os meus. Mas o que uma sociedade livre – e mais nenhuma outra – permite é que eu possa pensar de modo distinto dos outros, sem que isso signifique que nos excluamos reciprocamente.
As revoluções, no meio das suas imensas tragédias, têm, porém, algumas virtudes. Talvez a maior seja a de constituírem lições de humildade para todos os protagonistas, os que mandaram antes e que deixaram de mandar, e os que passaram a mandar, mas que deixarão de mandar no dia seguinte. A utilização do estado e do aparelho de poder para impormos aos outros a nossa visão do mundo, um dia pode ser-nos útil, mas amanhã poderá condenar-nos à mesma brutalidade que impusemos aos outros. Também por essa razão, cheguei, com naturalidade, à necessidade do estado mínimo, não como afirmação minarquista da necessidade de um aparelho de cocção para podermos viver uns com os outros, mas como reconhecimento objectivo da existência desse aparelho de poder e a necessidade de o reduzir, de modo a podermos viver pacificamente. Só um estado neutro em relação às opções individuais de vida, isto é, um estado que não seja programático, é tolerante para com a liberdade. Tudo o mais são imposições autoritárias de uma «ideia» do que devemos ser, logo, limitações inequívocas da liberdade individual. E essas coisas acabam, mais tarde ou mais cedo, por dar mau resultado. Uma vez para uns, outras para os outros, quase sempre para todos.