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A-24

Podem ir indignar-se para outra freguesia?

por A-24, em 02.03.13

Como eu moro relativamente perto dos locais onde os indignados costumam indignar-se nos últimos tempos, pedia aqui encarecidamente que amanhã se fossem indignar para outros lados (Istambul, por exemplo). Apetecia-me ter um dia calmo, à noite vou ter gente cá em casa e além de ser simpático não levarmos com berraria o tempo todo também é mais prático os meus amigos poderem deslocar-se até aqui sem ter que ir dar uma volta a Cascais.
Garanto, como registo de interesses, que eu própria ando muito indignada: com os absurdos aumentos de impostos, com a dimensão da contracção económica e do desemprego, com a quantidade de falências de empresas, com a evidente frieza com que o primeiro-ministro reage aos efeitos devastadores em famílias e empresas que as suas medidas têm (estou convencida, até, que o dito senhor de início se regozijava com a aura de implacável que as medidas fiscais draconianas lhe atribuíam), com a desolação, a incerteza e o medo que todos sentimos por percebermos que o governo não teve qualquer noção do que provocaria no país e agora está em pânico ao começar a entender que vai tudo continuar a piorar. Sobretudo indigno-me porque o governo traiu quem votou nos partidos que o constituem, preferindo manter o status quo estatal e saquear os contribuintes em vez de reformar o estado de forma a diminuir despesa pública estruturalmente (e agora conta com a recusa do PS como desculpa para continuar a nada fazer).
Tenho, no entanto, indignações menos selectivas: indigno-me com aqueles que fingem que os nossos problemas começaram em Junho de 2011; com os que assobiaram para o lado perante as criminosamente despesistas políticas de Guterres e Sócrates ou até as louvaram como conquistas civilizacionais; com os que fazem por ignorar que desde o ano 2000 temos estado ou estagnados ou em crise; com os que evidentemente pretendem que o país continue a viver à conta do que os estrangeiros nos emprestam e têm a lata de se indignar com quem nos emprestou dinheiro quando já mais ninguém o fazia; com os que claramente desejam violência generalizada e caos para se poderem aproveitar dos escombros que restarem; enfim, indigno-me com estes indignados.
Maria João Marques n'O Insurgente