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A-24

Perguntas que ninguém faz ao PC

por A-24, em 14.02.13

Entre 1900 e 1960, nasceram 2 biliões de seres humanos. Desses, 5%, ou seja, 100 milhões, foram mortos por regimes comunistas na URSS, na China, na Coreia do Norte, no Cambodja, no Afeganistão, no Vietname, na Europa Oriental, na Nicarágua, em Cuba, na Etiópia e Moçambique em purgas, fomes artificiais, destruição premeditada de grupos sociais, deslocação de populações, campos de trabalhos forçados, repressão policial, privação de assistência médica. Os horrores cometidos pelos nazis atingiram cifras impressionantes estimadas entre 7 e 12 milhões, perfazendo 10% das vítimas do comunismo. Moral e academicamente, é pertinente lavrar juízo sobre experiências políticas pela quantificação do mal que causaram - isto é, do sofrimento - assim como identificar as ideias, os programas e os homens que estiveram na origem de tais crimes, na larga panóplia de genocídios, democídios, classicídios, crimes contra a humanidade e terror de Estado.
O tema já foi tratado com propriedade por Steven Rosefielde, Robert Conquest, Anne Applebaum, Stéphane Courtois, Manus Midlarsky, entre outros, em estudos sérios, quantificados, alicerçados em aturado trabalho arquivístico, pelo que neles não há preconceito, propaganda, manipulação ou qualquer outro intuito que escape ao objectivo eminentemente científico da investigação académica. Os crimes cometidos em nome do regimes que se reivindicavam do marxismo-leninismo foram cometidos em tempo de paz; ou seja, foram executados em situação regular do exercício do Estado, sem a emergência de guerra interna ou externa que pudesse desencadear mecanismos de auto-defesa preventiva ou perda de controlo dos decisores superiores sobre os respectivos subordinados.
Afirmava na passada semana um deputado comunista que o actual governo é causador de infelicidade, desespero e fome. Estas acusações fazem amiúde parte do jargão das oposições. Porém, há que saber distinguir entre a decisão programática em executar políticas causadoras de mal-estar social e humano - consequência de orientações e, até, impostas pelas circunstâncias - e políticas cujos efeitos perversos são o fundamento do tipo de governança. Neste último caso, o exercício do poder contra as pessoas, silenciando-as, manietando-as, privando-as legal e socialmente de amparo, detendo-as, exterminando-as até, constituiu um programa e um método do exercício do poder. Os regimes comunistas fizeram-no durante décadas e a uma tal escala e similitude que ninguém minimamente honesto poderá contrariar. Entre nós persiste, lamentavelmente, um temor reverencial que impede que o tema dos muitos holocaustos comunistas sejam aflorados na disputa política. Estamos no último ano da evocação do genocídio dos ucranianos, que se saldou pela morte, entre 1932 e 33, de dez milhões de camponeses que se opunham à colectivização imposta por Moscovo. Que eu saiba, nenhum deputado da maioria pediu à Assembleia um voto de pesar lembrando essa tragédia da história contemporânea. Não há, nos grupos parlamentares do PSD e do CDS, ou até do PS, um só deputado que levante o debate?

Miguel Castelo Branco in Combustões