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A-24

Os intelectuais de direita estão a sair do armário: O legado que o Independente deixou

por A-24, em 19.06.14
A síntese foi introduzida nos anos 1980 por um veículo cultural particularmente poderoso e original: o semanário O Independente. Era um jornal de direita, que agradava à juventude e intelectualidade de esquerda. Miguel Esteves Cardoso representava o cosmopolitismo e a ousadia estética de um estrangeirado genial, enquanto Paulo Portas lançava ataques políticos que combinavam virulência e inteligência, com consequências contundentes na política corrente. O Independente, depois do Semanário e da sua revista de novidades sociais, a Olá, representaram o primeiro grande contra-ataque da cultura de direita, depois da revolução.

Veicularam uma certa ideologia individualista, acompanhada de elitismo (levada ao extremo nos ataques à suposta “parolice” e “arrivismo” de políticos como Cavaco Silva, oriundos de classes sociais relativamente baixas) misturadas com revivalismo estético (em bandas de música como os Heróis do Mar) e divulgação do mais arrojado que se fazia no estrangeiro, em termos artísticos.
Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas discutiram
há três semanas os tempos em que fundaram e
dirigiram o 
Independente PEDRO NUNES
Os intelectuais da nova direita reivindicam hoje entusiasticamente esta herança de Miguel Esteves Cardoso e O Independente. E protagonizam um novo assalto aos media, ancorado nas crónicas, nos blogues, nos livros e agora no Observador.
Tal como no tempo do Independente, surgiu uma linguagem agressiva e iconoclasta, muito opinativa. Segundo Araújo, é a lógica da blogosfera e das redes sociais que permite e instiga este tipo de atitude, ao obrigar à permanente notoriedade. “A competição é enorme, as pessoas só existem se obedecerem à tirania da notoriedade. É preciso estar sempre a emitir opiniões, a ser agressivo e original.”
Outra razão é a competição com os intelectuais da esquerda, que não têm tanta necessidade de provar o seu valor. “Temos de ser melhores do que eles, porque trabalhamos em ambiente hostil”, disse Raposo. O ambiente hostil que ainda são os jornais e revistas, onde ainda há uma hegemonia da esquerda, mesmo que não se dê por ela, de tão habitual. “Escrever crónicas nos jornais, para nós, é como ser do Benfica e ir todas as semanas jogar ao estádio do Dragão.”

Araújo notou que, por exemplo, a forma como vários cronistas da direita se têm referido a Mário Soares denota uma agressividade e informalidade que eram até aqui apanágios dos cronistas da esquerda. “Mesmo em termos de vestuário, os novos cronistas são diferentes, mais informais. Olhe para o Henrique Raposo. Não andam de fato e gravata. Perderam os complexos de direita, não querem ser identificados com betinhos. O que provoca mais horror aos novos intelectuais de direita é serem identificados com a direita ultramontana, caceteira, miguelista, reaccionária, ou a direita dos fados e das touradas. Eles renegam isso, a direita dinástica, familiar, provinciana. São urbanos, sofisticados, cosmopolitas, universitários. Pedro Mexia não é universitário, mas move-se nos meios literários e intelectuais sem complexos, como qualquer indivíduo de esquerda.”
Este tipo de atitude é também a que impede estes novos intelectuais de direita de se misturarem com os partidos da direita. Nogueira Pinto e Raposo dizem que, ao contrário dos intelectuais de esquerda, têm outros interesses, para além da política. A direita interessa-se pela realidade, enquanto a esquerda se ocupa da utopia. A direita não está portanto tão preocupada em mudar essa realidade. Gosta dela tal como é, é esse o princípio do conservadorismo.
Raposo disse que, mesmo com as suas crónicas, não tem por objectivo influenciar os eleitores, e muito menos os dirigentes partidários, mas apenas comunicar com os seus leitores. Admite que está a formar neles, principalmente nos mais jovens, uma mentalidade diferente, mas que só produzirá resultados visíveis a nível político na próxima geração.
“Estes bloggers e cronistas são franco-atiradores”, disse Araújo. “Beneficiam do star-system, mas não têm tradução política imediata. O importante para eles é terem conquistado o direito de existir. O direito de cidadania. Como se soubessem que a única coisa que têm agora é o direito de estar no circo. E eles não querem entrar na política partidária. São inexperientes nisso. Não fizeram o percurso da ‘carne assada’, como os líderes políticos têm de fazer. Ou se andou em Yale ou na ‘carne assada’. Por isso os partidos vão continuar imunes a estas pessoas. No momento em que eles quiserem dominar, a máquina expulsa-os.”
Os representantes da nova direita intelectual têm a noção de que o seu poder está fora dos partidos, nos media. Além disso, são demasiado heterogéneos ideologicamente para que se pudessem organizar num projecto. Essa é uma das suas características. Uns são liberais, outros nacionalistas, uns conservadores, outros libertários. E em comum têm alguma coisa? O que os faz dizer que são de direita? Poucas coisas. O tradicionalismo, o valor da nação, a religiosidade. Mas nem isso é comum a todos. Uma coisa sim: o pessimismo. Pessimismo antropológico, diz Nogueira Pinto. A crença de que o ser humano é mau. “A esquerda acha que o homem, se o deixarem livre e sozinho, fará coisas maravilhosas. A direita desconfia disso. É preciso haver autoridade ou não permitir que ponham em prática projectos totais, utópicos.” É por isso que a direita é necessária, segundo ela própria, para evitar a perigosa mudança. E que precisa da esquerda, senão nada muda.