Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A-24

Olena, uma mãe que quis escolher a escola do seu filho

por A-24, em 29.07.13
Olena tem 36 anos. Chegou a Portugal, vinda da Ucrânia, em busca de uma vida melhor, tanto para si como para os seus filhos Pavlo e Nadiya (ela nascida cá). Cozinheira, a ausência de papéis impediu-a de arranjar emprego nessa área e, por isso, tornou-se empregada doméstica. Hoje, mora em Camarate, num bairro de paredes amarelas onde tem como vizinhos os primos Roman e Viktor, que entretanto também escolheram Portugal para criar raízes. Não gosta de lá morar, mas sabe que dificilmente poderia suportar uma renda em Lisboa, pelo que decidiu não se lamentar. Só tem uma preocupação: dar aos seus filhos as condições que ela própria não teve, isto é, uma formação escolar que lhes dê instrumentos para um futuro melhor.

No momento de matricular o seu filho mais velho, com sete anos e sem saber falar bem português, visitou a escola da sua área de residência. Percebeu de imediato que aquela escola não reunia as condições para garantir a adequada formação escolar do seu filho, face aos elevados níveis de indisciplina e de insucesso escolar. Mas qual seria a alternativa, visto que não tinha dinheiro para pagar uma escola privada e que nenhuma escola pública de outra área geográfica aceitaria o seu filho? Nessa noite, Olena não dormiu.
No dia seguinte, durante os seus afazeres, desabafou com a patroa, a Dra. Teresa, uma senhora mais velha com quem criara uma relação de confiança, quase amizade. A patroa estava reformada, mas havia sido professora de português e logo percebeu o problema. E, com a mesma rapidez, deu a Olena uma solução: escolher uma escola melhor e entregar uma declaração que indicasse um emprego localizado na área de influência dessa escola. Olena hesitou – tratar–se-ia de uma declaração forjada e ela ficou aterrorizada com as consequências de ser apanhada. A patroa insistiu. Disse-lhe que conhecia alguém que já o tinha feito antes e que a ajudaria com o papel. Apesar de hesitante, Olena aceitou – o que estava em causa (o futuro do seu filho) valia o risco.
E assim foi. Num espaço de dois dias, conseguiu uma declaração indicando que o seu marido, Petro, trabalhava a tempo inteiro para uma empresa de construção civil cuja obra era (e seria nos próximos dois anos) junto ao Campo Grande, em Lisboa. Ao terceiro dia, acompanhada da patroa, levou toda a documentação à escola local e, apesar de algumas resistências da senhora da secretaria e da directora da escola (que tudo fizeram para evitar a matrícula), o seu filho Pavlo ficou matriculado. Hoje, ainda frequenta essa escola. E com reconhecido sucesso escolar.
A história de Olena (nome fictício) é apenas mais uma entre centenas de casos semelhantes que podiam ter feito parte da peça publicada pelo Expresso (Isabel Leiria, 13.07.2013), onde são descritos os truques que os pais usam para contornar a lei e escolher a escola dos seus filhos. Histórias que, sendo reais, mostram bem que as escolas não são todas iguais e que os pais querem mais liberdade para escolher a que consideram melhor para os seus filhos.
Mas, sobretudo, estas histórias revelam-nos que o centralismo do actual sistema não garante a igualdade que tantos proclamam. Todos querem escolher, mas só os pais com níveis socioeconómicos mais elevados conseguem contornar a lei. Este sistema, com os seus defeitos, protege-os. Quanto aos filhos dos outros pais, resta-lhes esperar que o sistema mude ou que, nas suas vidas, haja entretanto uma Dra. Teresa que faça a diferença.

I Online