Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A-24

O Urso ferido

por A-24, em 01.05.13
Recuperando um texto de Jorge Costa n'O Insurgente (2008)

A 31 de Março de 1989, Vasco Pulido Valente escrevia, n’O Independente, um artigo (As origens da III Guerra Mundial) no qual criticava severamente todos aqueles que aplaudiam a perestroika na URSS e a consequente “liberalização” do país. Para Vasco Pulido Valente, essa “liberalização” faria com que o “império russo” começasse a “tremer nos fundamentos” e ficasse numa “péssima posição para resistir aos choques que o esperam”, dos quais resultariam apenas e só um “caos de nações independentes, condenadas ao conflito externo e à tirana interna”: na URSS como no “antigo império dos Romanov” viviam “quinze nacionalidades e dez etnias diferentes”, que só o “chicote” e a “força bruta” mantinham em ordem. Se o “chicote”, por virtude da “liberalização”, deixasse de ser usado, a “desintegração” do “império russo”, como a desintegração dos Impérios Otomano e Hasburgo décadas antes, apenas traria o conflito étnico e um eventual alastramento do conflito (a tal “III Guerra Mundial” cujas “origens” Vasco Pulido Valente via na desintegração do “império russo”).
A Guerra da Geórgia é ainda um dos restos deixados por essa desintegração. Quando a Geórgia se libertou da tutela soviética, duas regiões no seu território (a Abkhazia e a Ossétia do Sul) mantinham uma maioria de “russos étnicos” na sua população. A Ossétia do Sul declarou-se uma República Soviética (um acto que não foi reconhecido pela Geórgia), e após uma derrota imposta às forças militares georgianas, os separatistas da Ossétia realizaram o primeiro de dois referendos (não reconhecidos) nos quais a maioria da população aprovou a reunião do território com a Ossétia do Norte, sob a soberania russa. A Geórgia sempre reclamou que a Ossétia do Sul fazia parte do seu território, e mostrou-se até pronta a oferecer maior autonomia política, proposta rejeitada pelos separatistas, cada vez mais próximos da Rússia, principalmente após Vladimir Putin lhes ter entregue passaportes russos, que na prática os transformam em cidadãos da Rússia, dessa forma “obrigada” (por si própria, note-se) a protegê-los. Após confrontos entre forças militares georgianas e separatistas da Ossétia, a Rússia interveio, com o argumento de que uma “limpeza étnica” estaria a ter lugar. A comunicação social ocidental entretém-se a tentar identificar quem é o “mau da fita” nesta crise, e qual o “injustiçado”. Será difícil arranjar uma resposta que satisfaça toda a gente. Mas há algo bem mais importante em toda esta crise: perceber por que razão a Rússia interveio.

...e é por isso que é perigosa

Ao contrário do que escreve João Marques de Almeida no Diário Económico, a acção russa na Geórgia não significa o “regresso daquela para o topo da hierarquia do poder mundial”. Antes pelo contrário: a Rússia ataca a Geórgia porque sabe que está fraca, e acima de tudo, a enfraquecer. A intimidação de países vizinhos, o abuso da sua posição no mercado energético, ou os estranhos assassinatos de opositores ao regime de Putin, fizeram com que os observadores ocidentais falassem do “ressurgir” do “urso russo”. O crescimento económico russo, à boleia do aumento do preço dos produtos energéticos, apenas lhes confirmou essa ideia.
Na realidade, o “urso” está ferido, e com gravidade: como notou há tempos Fraser Nelson, o futuro demográfico da Rússia é negro, devido aos graves problemas de abuso de de drogas e bebidas alcoólicas da sua população, e ao elevado número de pessoas contaminadas com o HIV; no plano militar, o orçamento de Defesa da Rússia correspondia a apenas 5% do americano. Por outro lado, a receita para o “milagre económico russo” poderia ser também a receita para o seu desastre: uma eventual queda do preço dos produtos energéticos seria um rude golpe para uma economia excessivamente dependente dos lucros que daí tem retirado. Para além do mais, os estados vizinhos vão-se aproximando cada vez mais dos EUA: a Polónia, a Hungria e os Estados bálticos já fazem parte da UE da NATO, e Ucrânia e Geórgia já receberam promessas de que serão admitidos.
É por isto que a Rússia ataca a Geórgia agora (e chantageia os seus vizinhos com o abastecimento energético, ou mata os opositores ao regime). Porque os seus responsáveis sabem que à medida que os anos passarem, terão cada vez menos capacidade para o fazer, e que se os seus vizinhos entrarem na NATO, nada poderão sem fazer sem arrastarem forçosamente os EUA para um conflito. Esta é, aliás, a razão pela qual a Guerra da Geórgia é perigosa, tal como um eventual conflito militar entre a Ucrânia e a Rússia também o será: a Rússia prefere que uma eventual guerra a larga escala tenha lugar agora, em vez de anos mais tarde.
Tal como a Alemanha em 1914 (a braços com o abrandamento do crescimento económico em relação ao aumento da despesa pública, o aumento dos custos da dívida pública, e o receio de ser “cercada” pelos planos militares russos e ingleses) deu o seu “cheque em branco” à Austria para atacar a Sérvia, também a Rússia deu aos separatistas um “cheque em branco” para provocar a Geórgia, pois se a Rússia “tiver” de entrar em conflito com esse país, mais vale ser agora, antes de os países ocidentais serem obrigados a auxiliá-la, do que quando a NATO “cercar” a Rússia. O que torna esta disposição russa para “correr riscos” particularmente preocupante é o facto de essa ausência de “obrigação” de auxílio de países como os EUA à Geórgia não facilitarem a sua posição. Pois tal como a Inglaterra em 1914 (que, como Asquith repetidamente insistia, por nada estava obrigada a defender a neutralidade belga do avanço das tropas alemãs) os riscos de não ir em auxílio do pequeno estado ao qual se prometeu protecção talvez sejam demasiado grandes.
Em 1914, a Inglaterra temia que a “anexação da Bélgica e da Holanda” fizesse com que a Alemanha tivesse acesso aos portos da costa do Canal, em posição de atacar as ilhas britânicas, e que a “elevada indemnização imposta à França” colocasse a Alemanha numa “posição dominante” no continente, que poderia “colocar à sua disposição” uma futura “preponderância naval” (a tradição estratégica britânica sempre procurara limitar a fraqueza das suas forças militares terrestres através de duas linhas essenciais: a primeira, como o Sir Humphrey de Yes Minister diz, “manter a Europa dividida”, para que a sua superioridade naval (a segunda) não fosse posta em causa por uma potência hegemónica que a pudesse suplantar). Hoje, dificilmente os EUA (e os países europeus) se sentirão confortáveis com um eventual domínio russo do Cáucaso, e principalmente com o controlo do oleoduto BTC, que transporta o petróleo do mar Cáspio para a Turquia (que de certeza não quer o controlo russo da Geórgia, e que é membro da NATO), e que oferece ao Ocidente uma alternativa aos oleodutos controlados pela Rússia.
Voltemos a 1914: apesar de, como disse, a Inglaterra não estar obrigada a defender a neutralidade belga, havia no seio do governo britânico a ideia de que, se perdesse o “seu bom nome”, a Inglaterra arriscava-se a “destruir” a sua “posição no mundo”. Ao não respeitar uma aliança, arriscava-se a que, no futuro, os seus aliados a imitassem, isolando-a. Ora, se é verdade que os EUA não estão “obrigados” a defender a Geórgia, não é menos verdade que a Geórgia tem várias tropas no Iraque. Se os EUA abandonarem um aliado que esteve do seu lado quando eles precisaram, todos os seus outros aliados pensaram duas vezes antes de colaborarem com a América. Países como a Polónia, ou a Ucrânia (aqueles que temem a Rússia e dos quais os EUA e a “Europa” precisam) dificilmente se sentiriam seguros se os EUA fechassem os olhos ao ataque russo à Geórgia.
A gravidade da situação reside no facto de, como escreve Anne Applebaum, tudo estar nas mãos da Rússia. Um país que entra em acção para eliminar o status quo não aceitará a sua restituição. Outra possibilidade poderia passar pela ocupação da Ossétia do Sul e da Abkhazia por forças de manutenção da paz, mas um país que age contra a Geórgia com o objectivo de impedir a sua entrada na esfera de influência do Ocidente dificilmente estará disposto a que esses mesmo países enviem tropas para a sua fronteira. A única forma de o conseguir seria apresentar esta proposta juntamente com a ameaça de que, se esta for rejeitada, os aliados da Geórgia não teriam outra alternativa senão entrar em guerra com a Rússia. O risco desta hipótese é que a Rússia pode preferir a concretização da ameaça à solução pacífica (mais uma vez, a “solução” é precisamente aquilo que se quis evitar com o ataque á Geórgia): a sua fraqueza poderá levá-la a preferir arriscar tudo agora, em vez de ficar à espera do futuro. A Rússia responderia ao bluff dos EUA. E como uma III Guerra Mundial não estará na lista de desejos de muita gente nos EUA e na Europa, o melhor será não arriscar o tal bluff: se apostarmos nele, ou o levamos até ao fim, o que resultará numa tragédia, ou ficaremos à mercê da Rússia. Mas ficar a assistir ao que a Rússia fizer na Geórgia poderia não ser garantia de nada. Os países que realmente não querem ver a Rússia com a rédea solta (Polónia, Ucrânia, República Checa, os países bálticos) e aqueles que não estiverem dispostes a ver a Rússia tomar conta das suas mais-valias geo-estratégicas (o problema da Turquia com o oleoduto BTC), podem não ser tão cautelosos como outros países mais distantes. E como eles são membros da NATO, a sua entrada numa guerra com a Rússia significaria uma de duas coisas: ou a tal “III Guerra Mundial” que se pretende evitar, ou a desintegração da NATO, e a consequente insegurança dos países europeus.
Distraída com os Jogos Olímpicos, a comunicação social não se apercebe da gravidade do que se passa na Geórgia. Iludida pela coreografia russa, a intelligentsia ocidental não percebe por que razão esta crise é tão perigosa: a percepção russa de que está a ficar cada vez mais fraca em relação aos seus “rivais” (e de que essa tendência não será invertida nos próximos tempos), faz com que esteja disposta a “agitar” o xadrez internacional, e mais grave ainda, com que qualquer tentativa de “refrear” os seus ânimos tenha poucas hipóteses de ser bem-sucedida, pois para a Rússia, precisamente porque se sente enfraquecida e a enfraquecer, o cumprimento de qualquer ameaça será preferível ser levado a cabo agora, do que ser adiado para mais tarde; por outro lado, as circunstâncias particulares deste conflito (o facto de ele envolver um aliado próximo dos EUA e afectar interesses geo-estratégicos de membros da NATO), faz com que a possibilidade de todo o Ocidente ser arrastado para uma guerra a larga escala (ou, em alternativa, ver ruir todo o seu edíficio de Defesa) não seja assim tão longíqua. Se a Rússia realmente quiser a “III Guerra Mundial” que, há anos atrás, Vasco Pulido Valente escreveu que iria decorrer da desintegração do seu império, dificilmente poderemos fugir a ela.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.