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A-24

O socialismo dura até acabarem as beatas dos outros

por A-24, em 10.12.12
Por Daniela Silva
Tenho um familiar que trabalha nesse ramo tão vilipendiado que é a comercialização de tabaco. Um dia destes, ele pergunta-me, em jeito de brincadeira: “tu que te insurges contra todas estas coisas, então, qual é a tua ideia sobre os níveis a que taxam aqui o produto?”
É daquelas perguntas a que se responde, de forma pouco contida, pela expressão facial incendiária. Inventariando um conjunto de sentimentos que cá guardo, passa a película do filme à pressa na frente dos olhos: primeiro, a completa antipatia com esse paternalismo disciplinador de vícios alheios; segundo, uma reforçada aversão a toda a taxa que nos sugam, desde o bem mais básico até ao luxo com que, muitas vezes, só nos mimamos, após longa contenção e poupança pessoal; e terceiro, a previsão de todo um desfilar de sermões sobre a necessidade de poupar no SNS (como se o incentivo pernicioso não partisse também daqui), purificar o ambiente envolvente e elevar a qualidade de vida – quiçá proporcionar vida eterna – àquele inconsciente que insiste em fumar.
Perante isto, uma pessoa responde o quê? Se fosse com erudição e calma, poderia citar Lysander Spooner: «Se essas pessoas, que consideram possuir tanto o poder quanto o direito de punir os vícios dos outros, voltassem seus pensamentos para si mesmas, elas provavelmente veriam que têm muito trabalho para fazer em casa; e que, quando esse trabalho for completado, eles não terão disposição para fazer mais do que deixar que os outros conheçam os resultados de suas experiências e observações.»
Mas como as circunstâncias pedem ironia descarada, seria mais do género: «Só 80%? Quem define esse limite? Se é mesmo uma chaga da sociedade, levamos isto até ao infinito e mais além. Taxem a 150%, 200%, 500%. Mata-me esse desgraçado de uma vez por todas, esmifra-o todo, por favor. Não merece viver! Esguincha-lhe o último sopro de vida na baforada maldita. E justifica a condenação bem esfregada na cara “- eras um viciado insubmisso, não tinhas amor à vida, portanto, nós tratamos de encurtá-la para já”. Podemos ficar com as jóias, o carro e casa, o que será uma ajuda para colocar as contas em dia e “refundar” o país.»
Todo este exercício é muito fiel à realidade e parece uma miniatura de algo que acontece a maior escala no país. Reflecte esta incapacidade de perceber quão vãos serão certos sacrifícios que passam sempre pelo lado da receita. Reflecte a actuação destas mentes brilhantes que encontram nos fumadores – e contribuintes em geral – uma galinha dos ovos de ouro que a populaça também não se acanha de mandar para a fogueira pelo vício, pois proporciona um momento de alienação, ideal para canalizar as próprias frustrações diárias. Reflecte a ilusão de que vão pagar aquela dívida impagável se conseguirem obrigar os portugueses a fumar a relva do quintal ou a passarem a pausa do café empenhados no mal amanhado tabaco de enrolar.
Publicado inicialmente no blog Estado Sentido.