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A-24

O sistema de castas na Índia VIII

por A-24, em 09.08.13
A raiva ressoa até no mais alto escalão do governo. De 1997 a 2002, K.R. Narayanan assumiu o cargo de presidente da Índia, o primeiro intocável nessa função. O presidente extrapolou os limites de seu papel e criticou o sistema de castas. Em 2000, na cerimônia do Dia da República, ele parafraseou Ambedkar e disse que, se intocabilidade e discriminação contra as mulheres não fossem eliminadas, “o edifício de nossa democracia será como um palácio erigido sobre um monte de esterco”.
Mas nenhuma retórica porá fim ao drama dos intocáveis, vítimas de uma religião que os julga subumanos e de uma sociedade rural que os explora como escravos. Existe esperança na nova geração de ativistas que emergiu para combater usando as armas do sistema legal. E as linhas divisórias das castas perderam nitidez nos cenários mais anônimos e pragmáticos das cidades. Mas, enquanto não surgir um líder intocável como Ambedkar ou o hinduísmo não deixar de ter papel central na política e na imposição da lei – duas perspectivas distantes –, a vergonha da condição de intocável persistirá.


A mudança fundamental, quando e se vier, será traumática. Acontecerá de aldeia em aldeia, onde os primeiros passos serão atos de desafio. Como o passo dado por Babulal Bairwa, dono de terra na aldeia de Chakwara, no Rajastão.
Certa manhã, Bairwa decidiu banhar-se na lagoa da vila, não freqüentada por intocáveis.
À noite, uma turba cercou sua casa e ameaçou matá-lo. Ele deu queixa à polícia e a um grupo de defesa dos direitos humanos. Agora Bairwa nunca anda sozinho. Ele tem esperança de que seu apelo à Justiça acabe levando à abertura da lagoa para todas as castas. Mas, enquanto isso, vive do único modo que lhe é possível. “Sou limpo. Não fumo, não bebo nem como carne. Trabalho muito. Faço tudo direito. Por que então sou intocável?”
Porque nasceu intocável. Há 160 milhões de indianos que cumprem essa sentença vitalícia.

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