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A-24

O que tem a UE contra a Roménia?

por A-24, em 09.03.13

A Alemanha anunciou a decisão de vetar a entrada da Roménia e da Bulgária no espaço Schengen. Por quanto tempo mais vão os romenos aceitar ser vítimas dos jogos políticos dos seus parceiros?, pergunta um colunista romeno.
Dan Tomozei
A Alemanha está em ano eleitoral e joga contra o estrangeiro a carta outrora brandida pela Itália, Holanda, França e Reino Unido, demonstrando assim que as reminiscências de comportamentos de superioridade desdenhosa em relação aos países de Leste continuam bem vivas.
A declaração oficial do ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedrich, avisando que a Roménia e a Bulgária vão ser brindadas com um “veto” no Conselho de Justiça e Assuntos Internos (JAI), em 7 março, é uma confirmação das obsessões e jogos políticos internos dos países da UE, muito distantes de uma demonstração do princípio da igualdade de tratamento entre os membros da União Europeia.
A Roménia é novamente deixada fora do espaço Schengen, por razões que nada têm a ver com os critérios de adesão. Hans-Peter Friedrich (CSU – União Social Cristã), parceiro de coligação de Angela Merkel (CDU – União Democrata Cristã), apresentou sem dúvida o ponto de vista da aliança dominante na Alemanha (CDU/CSU) e isso permite-nos avaliar a tensão eleitoral a que a coligação está sujeita.

Uma mensagem incendiária

A lendária retidão alemã dissipa-se quando um responsável pelo “motor” da União confunde política nacional e europeia, adotando posições que nada têm a ver com os critérios de adesão ao Espaço Schengen. Ao abordar um tema eleitoral interno, ou seja, os benefícios sociais, fala da corrupção do sistema de vistos na Roménia e na Bulgária. “Temos de impedir a entrada de pessoas que vêm apenas beneficiar dos nossos apoios sociais e que abusam, assim, do direito de livre circulação”: eis a declaração de um ministro responsável, que não é capaz de apresentar provas nem de resolver problemas internos que permitem que alguém receba ajudas sociais ilegalmente.
O problema de Schengen já havia sido encarado da mesma forma pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, e pelo Presidente francês, Nicolas Sarkozy. A tática de diversão utilizada pelos velhos países europeus para desviar a atenção da opinião pública de questões sensíveis no plano interno faz parte de um arsenal que torna a UE cada vez menos credível, na medida em que se revela cada vez menos capaz de resolver os seus problemas.
Ultimamente, a atitude do Reino Unido, que declara abertamente recusar-se a cumprir os acordos europeus de livre acesso a búlgaros e romenos ao mercado de trabalho, a partir de 1 de janeiro de 2014, confirma uma realidade cada vez menos animadora dentro da União Europeia. Empregando o mesmo tipo de mensagem incendiária, o primeiro-ministro David Cameron expôs a ideia de que uma invasão de trabalhadores dos dois países se prepara para afetar os empregos dos britânicos, jogando o seu trunfo dos estrangeiros para dourar a sua imagem no plano interno.

Fartos da política de chantagem
Nada disso teria sido possível se, em Bucareste, o Governo agisse correta e coerentemente em matéria de política interna e perante a população. Nenhum dos ministros romenos dos Negócios Estrangeiros ou do Interior pagou ou vai responder pelos erros dos governos ou pelo tratamento insultuoso dos países da UE aos cidadãos da Roménia.
Segundo o Ministério romeno dos Negócios Estrangeiros, “a Roménia garante efetivamente a segurança das fronteiras externas da UE, desde a sua adesão, em janeiro de 2007. [...] Os relatórios das missões de avaliação técnica evidenciam que todas as disposições de Schengen foram postas em prática de forma uniforme e correta na Roménia.” Portanto, é natural que nos interroguemos sobre as razões para a obstinação da União Europeia contra a Roménia. Quanto tempo vai o procedimento técnico continuar a ser utilizado como meio de chantagem política e económica?
A reação do ministro dos Negócios Estrangeiros romeno, Tito Corlatean, apoiada pelo primeiro-ministro Victor Ponta e rejeitada pelo Presidente Traian Basescu, [segundo a qual Bucareste “retirará” em caso de novo veto], expressa claramente uma realidade social, pelo menos tão real como a do ministro Hans-Peter Friedrich: os romenos percebem as jogadas de bastidores e estão fartos da política europeia de chantagem.

Procurar o apoio popular
Em fevereiro, alarmada com a posição da Turquia – que é um interveniente importante na confluência do Oriente com a Europa e pertence à NATO –, a chanceler Angela Merkel meteu-se a caminho de Ancara, para atenuar as declarações do primeiro-ministro turco, propenso a voltar-se para a Ásia e sobretudo a China, visto as negociações de adesão à UE terem sido congeladas por período indefinido.
É, pois, possível os decisores e os países-membros da UE começarem a agir não apenas em resposta a pressões do Ocidente para o Leste, mas também no sentido inverso. Se o Reino Unido e a França podem evocar a possibilidade de um referendo sobre a saída da UE, porque não há de a Roménia deixar de aceitar incondicionalmente ser exclusivamente um mercado de escoamento de produtos dos principais países da UE?
Isso significa que o Governo de Bucareste deve apoiar políticas económicas internas realistas e procurar o apoio popular necessário para alcançar uma órbita mais digna, orgulhosa e proveitosa nas suas relações externas.