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A-24

O portista que acabou ídolo em Lisboa

por A-24, em 10.02.13
Não é muito habitual em Portugal que se conheça a paixão clubistica de um jogador quando este se transforma em ídolo do seu maior rival. Mas com o Benfica o historial de jogadores que nasceram e cresceram portistas e acabaram por brilhar ao serviço dos encarnados não é curta. Os exemplos mais recentes de Nuno Ribeiro (Gomes, apenas pela sua devoção ao "Bibota" a quem queria suceder de azul ao peito) e João Vieira, Pinto que chorava baba e ranho quando o FC Porto perdia em miúdo e acabou rejeitado nas captações do clube, ou até mesmo de Artur Jorge, que das categorias inferiores do FC Porto passou a Coimbra e daí a Lisboa, escondem uma história similar mas com mais de 70 anos.
Em 1949, o mundo do futebol acordou estupefacto. O acidente de Superga, em Itália, tinha acabado com a vida da mais formidável equipa do pós-guerra, o Il Gran Torino. Era a equipa de Loik e de Mazolla, os pentacampeões de Itália, herdeiros superlativos da escola centro-europeia. Um mês depois deveriam viajar à Peninsula Ibérica para decidir o destino da primeira edição da Taça Latina, criada em parte para medir o seu valor nos palcos europeus. Nunca veio a equipa de gala, perdida nessa tarde de nevoeiro. O voo vinha de Lisboa, precisamente. De um jogo de homenagem que passaria para a história como um jogo negro. O jogo de despedida do capitão do Benfica, Francisco Ferreira.
O curioso é que o herói encarnado, capitão da equipa durante largos anos, era portistas dos pés à cabeça.

Tinha nascido em Guimarães, em Agosto de 1919, mas desde cedo tinha vindo viver para o Porto. O seu pai era o porteiro do campo da Constituição e desde pequenino que "Chico"  se tornara um fanático adepto do clube. Começou desde baixo, a limpar as chuteiras dos jogadores da primeira equipa no intervalo dos treinos das equipas juvenis e com 17 anos cumpriu o sonho de estrear-se com a camisola azul e branca. Era uma das grandes promessas do clube e foi um dos mais lutadores no célebre Porto vs Benfica que acabou com o sonho do título em 1938 no estádio do Lima. Sofreu o insofrível às mãos da defesa benfiquista e assistiu Pinga para o segundo golo. No final da temporada, recebeu uma oferta inesperada do Benfica. Ofereciam-lhe 1000 escudos de ordenado e uma ficha de 15 mil escudos.
O jogador, pobre mas honrado, respondeu que preferia ficar no Porto e que falaria com o clube para saber se tinham previsto melhorar o seu salário. Titular indiscutível, Ferreira ganhava a metade de muitos dos seus colegas de equipa como Reboredo, Pinga, Poças, Vianinha e Carlos Nunes. Pediu 700 escudos - menos trezentos do que oferecia o Benfica e mais duzentos do que ganhava - e uma ficha de 10 mil escudos. E um emprego numa das empresas dos directivos do clube. A direcção bateu-lhe com a porta na cara. Uma semana depois apareceu o Benfica com 13 mil escudos nas mãos para conseguir a carta de liberdade. A directiva do FC Porto acedeu de bom grado e um dos seus melhores jogadores lá fez as malas e tornou-se na figura nuclear da equipa encarnada durante a década de 40.
Curiosamente, um mês depois de vender Francisco Ferreira, o FC Porto abordou o espanhol Quincoces, que acabaria por assinar pelo Real Madrid, oferecendo-lhe 1500 escudos de salário e um prémio de 15 mil escudos para substituir...Francisco Ferreira. O espanhol recusou a oferta (ganharia o dobro ao serviço dos merengues a partir da época seguinte) mas ficou claro que para a directiva de então o dinheiro não era o problema. O problema era onde o gastar. Quanto ao jogador, voltou ao Porto depois de acabar a carreira. Quando soube do desastre de Superga - ele que tinha sido convidado para seguir com a equipa no avião - enviou todo o prémio do jogo de despedida para as famílias das vitimas. Um coração à Porto que a directiva do clube preferiu esquecer e impedir uma carreira de sucesso de dragão ao peito.

Miguel Lourenço Pereira