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A-24

O “Interessante” Rasto Do Halloween Nas Minhas Paragens

por A-24, em 03.11.12
Via Educar

Sei que pode parecer paroquialismo, mas vamos lá, que desta vez é que é, pois já é tempo de não usar este espaço apenas para outras coisas.

O panorama defronte do meu humilde domicílio de subúrbio rural (freguesia da Quinta do Anjo, Palmela) era este e, sim, o veículo que escapou a levar com um ecoponto em cima era um dos cá de casa. Foi coisa de centímetros não ter ficado com a luz da frente esmagada.





Pela madrugada, uns jovens com um conceito particular de doce ou travessura, andaram a vandalizar os eco-pontos, fazendo um ligeiro upgrade em relação ao que é habitual em muitas noites sem aulas no dia seguinte ou apenas quando lhes dá vontade, e que passa por estragar canteiros, defecar e urinar nas traseiras de casas alheias, fumar os seus charritos enquanto dizem aos papás que vão passear o cão, ouvir música em (relativos) altos berros nos telemóveis, discutir dilemas juvenis e tardo-juvenis para que toda a gente em redor possa ouvir.

Quando confrontados, ofendem como lhes dá na gana, achando que o número os protege e intimidam com ameaças de danificar a propriedade alheia, ou acabam por fugir quando, por fim percebem estar a ser fotografados para a posteridade.

É verdade que não se trata de um único grupo mas de vários, alguns deles fui observando ao longo dos tempos evoluindo do fim da infância para o fim do Secundário, o início do desemprego ou, no caso de alguns grupinhos mais favorecidos, para o que passará por ser Ensino Superior.

Nem todos são descamisados ou pequenos marginais, em potência ou já em efectividade de funções. Não são poucos os que apenas são filhos de famílias que não estão para aturá-los e os preferem ver pelas costas até á hora que eles entendem voltar para casa deixando rasto de ruído, lixo e pequena destruição por onde passam e estacionam, mais alcoolizados ou menos inebriados por umas fumaças aditivadas que suportam apenas ao custo de muita escarradela e alguma tosse.

Nos momentos mais giros, arrancam as plantas dos canteiros, partem as garrafas no empedrado ou na estrada, falam aos berros uns com os outros com uma riqueza de palavrões que não escolhe género, sendo a estridência das meninas equiparável à grunhice dos meninos, procuram vandalizar equipamentos públicos ou tentam acrobacias próprias de símios, algo que foi muito notório em algumas noites de Verão em que os papás e mamãs estavam fora ou, estando dentro, tinham mais do que fazer do que verificar o que a sua prole fazia nas redondezas. Bem… no caso de se preocuparem minimamente porque em muitos casos, quando os crianços andam lavadinhos pela manhã e se lhes faça algum reparo, respondem que é próprio da idade e já todos fizemos o mesmo, que é o argumento típico da desresponsabilização parental.

Bem como o argumento do sempre foi assim nos remeter para – e talvez seja apropriado – uma estabilização dos comportamentos por altura dos neandertais.

E há sempre o canónico, sacramental, não foi o meu(minha) filho(a). Claro, que a culpa é sempre dos outros, tadinhos do Bruninho ou da Catiazinha. Que no outro dia eram dois irmãos aos berros, que ela ia telefonar à mãe e vou dizer-lhe que estás a fumar droga, só porque ele não a queria partilhar.

Mas, por acaso, não, não andei a subir aos candeeiros para tentar partir os globos de vidro para apagar a luz e ficar a zona em penumbra.




Claro que num país crescentemente disfuncional em meios e valores, tudo se passa sem especiais consequências. As autoridades policiais queixam-se, justamente, de falta de meios mas, quando aparecem e para evitar chatices, ligam a sirene e as luzes para que todos possam desaparecer das zonas visíveis e percorrem duas ruas e, quase sempre, desaparecem em poucos minutos deixando tudo na mesma. Consideram que estas coisas são menores, não valendo a pena burocracias e discussões. Os lesados pelos actos de pequeno ou médio vandalismo, receando represálias dos grupos mais complicados, preferem fingir que não vêem ou ouvem ou, quando saem da apatia por um momento, recuam logo a seguir, perante ameaças e ofensas. Os comerciantes preferem mesmo o silêncio pois acabam com material partido, dejectos à entrada dos estabelecimentos e outros mimos assim. E instala-se o silêncio, amedrontado por pivetes de 3ª ordem.

Mesmo quando tudo se passa à luz do dia, seja o consumo, o tráfico ou apenas o vómito ou o wc onde dá vontade fazer, reagindo à necessidade do momento, não interessando onde se está (sim, o menino da camisola amarela…).





Restam uns quantos palermas que ainda tentam extrair um pouco de sentido da vida em sociedade e que, mesmo que de forma irregular, vão documentando o crescimento destes simpáticos seres humanos que certamente se tornarão adultos muito responsáveis e progenitores de descendência que descomprovará a teoria da evolução como eles próprios já o fazem à saciedade.

Quanto a mim, já me preocupo quase só em manter um perímetro de algum conforto visual e auditivo e agradeço ao meu bom senso não dar aulas perto de casa, porque assim não tenho de me cruzar com estes seres dentro de quatro paredes, nem – há que ser sincero – com alguns dos seus demissionários encarregados de educação, mais preocupados com a pose de esplanada. A apatia que vejo perante estes actos, repetidos, semanas após semana, ao longo dos meses, com esta ou aquela intermitência, já me moeu mais o neurónio. Agora apenas desejo que quem tolera um dia se arrependa e que quem permite que a sua linhagem faça estas figuras um dia acabe por ter de ir a uma esquadra.

Um dia, em que ostensivamente estava a fotografá-los começaram a gritar que eu não podia fazer isso, que era proibido e que se iam queixar à polícia (dos direitos todos têm uma imensa, mesmo desmesurada) consciência. Agradeci-lhes e perguntei se precisavam de telemóvel e do número, pois que eu percebesse estavam em local público a fazer uma bela m€rd@, algo que eu estava a registar e que sempre poderia servir-lhes de prova para mostrar em casa.

Quanto ao resto, enfim, tudo corresponde ou ao meu intolerante envelhecimento ou a um estado de progressiva degenerescência dos usos e costumes de um país governados por patetas ignorantes, assessorados por gente de condomínio privado e mandados porulricos, doces e salgados.

Nota final: os serviços camarários revelaram-se os únicos eficazes nesta matéria. A meio da manhã apareceram e removeram a porcaria feita por quem não faz isto por qualquer desagregação ou desestruturação familiar, mas apenas por pulverização completa de noções de civilidade, em particular de quem teria como função transmiti-las aos seus filhos. Mas… em boa verdade andam mais ocupados com aipódes e a passear os canídeos que fazem o mesmo que os filhos, quase nos mesmos sítios. De ser do reconhecimento do cheiro…