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A-24

O escritor que revolucionou com a sua escrita

por A-24, em 20.06.10
José Saramago subverteu o cânone, a norma: pôs tudo em estado de desordem, revolucionou. Basta ler um excerto de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, romance publicado em 1991, para se notar a maneira peculiar como o Prémio Nobel da Literatura português usou a pontuação na sua escrita.

"A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço, e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais, e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti, Porquê, sorriu a mulher, Porque és bela, Não me conheceste no tempo da minha beleza, Conheço-te na beleza desta hora."

Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica (apesar de o autor fazer parte do cânone literário): falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e o início das falas de cada personagem é assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, uma frase quase sem pontos finais e cadenciada na pausa das vírgulas.

Não foi só nisto que o autor de Caim surpreendeu. O modo como "perturbou a tradição do romance histórico", diz o ensaísta Manuel Gusmão, ou fez "a inscrição da História na ficção", nas palavras do professor Carlos Reis é também inovador. Tinha uma "extraordinária capacidade" para descobrir "sentidos novos e temas por inventar" numa ficção e num teatro que se tornaram referências canónicas da nossa literatura.

E ao mesmo tempo, Saramago chamou a História à nossa atenção e deu-lhe uma nova leitura. "Em AViagem do Elefante, Saramago retorna a algo que estava adormecido na sua obra", diz o professor Carlos Reis que fala da sua "capacidade para pegar num episódio histórico e dar dele uma visão muito peculiar". Por sua vez, em Caim, continua o académico, o imaginário remete para O Evangelho segundo Jesus Cristo e para o imaginário bíblico em geral, que ali é subvertido pela visão interpretativa que Saramago coloca nas suas obras. "Saramago apropria-se da nossa história laica ou religiosa, como acontece em Caim e essa maneira de recuperar o nosso património histórico é muito interessante", acrescenta a especialista Ana Paula Arnaut.

O Nobel português, na sua obra, inventa factos, mistura o maravilhoso com o empírico, o conhecimento do presente com o reconhecimento ou novas versões do passado, diz, por seu lado, Manuel Gusmão. O modo como "joga ironicamente a ficção contra o relato histórico" e "mostra como uma tradição e história dos pobres, dos explorados, oprimidos e vencidos se pode construir contra a história dos vencedores" também o distingue. Para a professora catedrática Maria Alzira Seixo, a sua inovação no romance consegue ser ao mesmo tempo "erudita e popular". É erudita porque "tem bases historiográficas sólidas", quer nos livros sobre eventos do passado quer nos romances onde procedeu a investigações pessoais ou onde elabora conjecturas para a compreensão de uma época ou de uma figura. E é popular "pois inventa uma expressão oralizada, que tem a ver com o saber tradicional comunitário (como em Levantado do Chão), criando a sua frase característica, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa das vírgulas", explica.

Era como narrador oral que Saramago se via quando escrevia e inovou na maneira como utilizava o ponto final e a vírgula (ele chamava-lhe "os sinais de pausa") dando à frase um outro ritmo dado pela oralidade. O escritor "usa pontuação, mas reinventa-a de acordo com um outro ritmo prosódico, que é o da oralidade de quem fala a língua", afirma Carlos Reis e redescobre sentidos ocultos nas palavras. É inovador o tipo de frase que veio a caracterizar o escritor onde se pode "encontrar o narrador a dialogar com uma ou mais personagens, ou duas personagens que dialogam", diz Manuel Gusmão.

Tudo terá começado no "ensaio de romance" Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1997. Nessa obra o autor já ensaiava a sua técnica de construção romanesca e nunca mais a abandonará. Todos os seus futuros romances estão contidos em Manual de Pintura e Caligrafia tal como todos os seus grandes temas futuros estão lá: o "ateísmo confesso", o "papel de primordial importância concedido à mulher" até ao carácter humanista e humanitário que se prolonga pela sua obra, diz Ana Paula Arnaut. E nas últimas obras, As Intermitências da Morte, A Viagem do Elefante e Caim volta a haver uma nova mudança. "Surge um tom marcadamente cómico que se sobrepõe à seriedade que caracterizava os romances anteriores", afirma a professora universitária.

Quando lhe perguntámos se aquilo que Saramago fez em termos estilísticos já tinha sido feito, responde que às vezes a questão não é se já foi feito, é a intensidade com que é utilizado que dá essa coisa nova. "Não é uma coisa nova mas de uma maneira nova", conclui.

Esta é uma nova versão do texto Saramago: o escritor que brinca com a pontuação publicado no suplemento P2, de 23 de Abril de 2008