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A-24

O "czar moderno" regressa hoje ao Kremlin

por A-24, em 07.05.12
É esperada grande pompa, duas mil figuras de topo da política russa e dignitários estrangeiros, no grande salão dourado de São Jorge, para ouvir hoje o discurso de tomada de posse de Vladimir Putin, ou não se trate do regresso do "czar moderno" ao trono do Kremlin. Mas, para levar a bom termo os próximos seis anos, e se a ambição o conduzir a querer mais seis, Putin vai ter que abandonar o antigo estilo de "durão", aprender a fazer compromissos com a oposição e reafirmar o controlo sobre os clãs rivais no poder.
A Rússia a que Putin vai agora presidir não é a mesma de quando chegou ao Kremlin pela primeira vez, então impulsionado pelo afastamento antecipado de Boris Ieltsin e confirmado, três meses depois, com o triunfo eleitoral de Março de 2000 (53% dos votos) e revalidado em glória quatro anos mais tarde (71,9% dos votos), no auge de popularidade do antigo oficial do KGB.
Depois dos primeiros oito anos em que, como chefe de Estado, apertou a mão no país, com um intensificado controlo de todos os aspectos da vida política, económica e social – a par de uma estabilidade inaudita nos anos liberais mas caóticos da perestroika –, o terceiro mandato presidencial de Putin perfila-se bem mais difícil, ou pelo menos não tão cómodo, face a um tecido social sedento de reformas como não se via no país desde o derrube da União Soviética há mais de vinte anos.
Parte desse movimento de contestação ao regime, apontam alguns analistas, é ironicamente talvez o único legado palpável deixado pelo mandato presidencial do protegido de Putin, seu sucessor e agora predecessor no Kremlin. Dmitri Medvedev pouco mais cumpriu do que a "conveniência política" de manter o poder nas "mãos certas" enquanto Putin se via constitucionalmente impedido de se candidatar a um terceiro mandato presidencial consecutivo e, apesar de também não ter estado "à altura das promessas de mudança feitas", quando chegou ao poder, em 2008, "relançou a paixão pela política na sociedade russa", sustenta o director do think tank alemão Centro Berthold Beitz de estudos sobre a Rússia e Ásia Central.
"Medvedev criou uma atmosfera, mesmo através das críticas abertamente feitas ao establishment, na qual a classe média pôde tornar-se mais politizada. Não com ganho de poder, certo, mas seguramente com uma maior motivação. E mobilizou as novas gerações para a noção de uma mudança", diz o politólogo.
O estatuto de intocável do qual Putin gozou ao longo de mais de uma década, com taxas de popularidade a rasar os 80%, esmoreceu - aliás a atingir valores baixos recorde conforme terminava o mandato como primeiro-ministro. E o "czar" acabou estes últimos meses, desde as eleições legislativas que reconduziram em Dezembro o seu Rússia Unida ao domínio na Duma (câmara baixa), a enfrentar uma vaga de contestação sem precedentes.
Durante semanas seguidas, até às presidenciais de Março, dezenas de milhares de pessoas denunciaram em manifestações em muitas cidades russas a prática de fraudes eleitorais, o domínio das instituições de poder, a corrupção crónica no aparelho de Estado, e juraram não dar "nem um voto" a Putin. Mas Putin ganhou, e com 64% dos votos.
E o movimento de oposição, sem líder nem estratégia clara, perdeu fôlego – enfrentando também agora um renovado teste à sua capacidade de mobilização. Para ontem, os opositores tinham pedido uma "marcha de milhões": junto ao Kremlin estiveram dezenas de milhares.

Aspirações de mudança

Putin desdobrou-se em promessas populares na campanha: aumentos de salários para os professores, médicos e militares, e ainda um crescimento muito significativo dos investimentos do Estado na segurança social daqui até ao final deste mandato, em 2018, a par de programas contra o declínio demográfico e o compromisso de adoptar uma política externa "equilibrada".
Um dos grandes desafios de Putin, de 59 anos (60 em Outubro), é firmar de novo e rapidamente a sua autoridade no Kremlin – o que faz a oposição temer um regresso ao autoritarismo "machão" de 2000-2008 –, mas, se não der resposta célere também às aspirações de mudança na sociedade russa, "arrisca-se a enfrentar problemas sérios", aponta o analista Fiodor Lukianov, citado pela agência RIA Novosti. "Putin caminha nas pisadas de muitos conservadores russos que sempre pediram que lhes dessem tempo para as mudanças. Porém, a experiência mostra que a história jamais deu esse tempo a alguém."Opositores detidos
A polícia de choque usou a força para impedir que a marcha de 20 mil pessoas que protestavam contra a eleição de Vladimir Putin chegasse até junto do Kremlin. Quando os manifestantes tentaram furar a barreira policial foram repelidos à bastonada e com gás lacrimogéneo. Pelo menos quatro polícias foram feridos e há mais de 250 detidos, incluindo três opositores — o blogger anticorrupção Alexei Navalni, o líder da Frente de Esquerda, Sergei Udaltsov, e o antigo vice primeiro-ministro Boris Nemstov.

PÚBLICO