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A-24

O caso do fascista que não sabia que era fascista

por A-24, em 20.03.13
Henrique Raposo

Não, não estou a falar do meu caso. Como toda a gente sabe, eu sou mesmo fascista, reacionário (um fascista de armário), neoliberal (um fascista que aposta na bolsa) ou simplesmente estúpido. Estou a falar, isso sim, de Giorgios Katidis, o jogador do AEK que comemorou um golo com uma celebração fascista . Como é óbvio, a federação grega reuniu de imediato e baniu o jogador, uma das grandes esperanças do futebol helénico.


Após o jogo, Katidis afirmou que "nunca teria feito tal coisa se soubesse o que significava". O que dizer sobre estas declarações? A reação mais segura passa por afirmar que Katidis é um tangas homérico, mas eu não colocaria de parte a hipótese da ignorância. Katidis tem vinte anos, faz parte da geração que não tem a mínima noção de tempo e/ou espaço. Devido a uma série de factores que não cabe nesta coluna, a história e a geografia desapareceram do mapa mental dos mais novos. Têm falado com miúdos de 15 ou 20 anos? Eles até podem saber linguagem de código informático, mas ficam à nora perante um mapa-mundo e acham que 1945 fica no período cretáceo. "Jogar aos países" não é com esta malta.
Paolo di Canio, sim, sabia que era fascista. Nasceu em 1968 e jogava na Lazio, não há que enganar. Ao invés, este miúdo grego nasceu e cresceu em pleno fim de história (1989-2008). Esta cultura ahistórica, a nossa, fabricou miúdos que conseguem operar este milagre da lógica: fazem algoritmos com a pretensão de explicar a totalidade das relações internacionais e, ao mesmo tempo, desprezam as relações internacionais do passado, isto é, a história. Ou seja, acham que podem adivinhar o futuro através dos métodos quantitativos que fazem gala do seu desprezo pelos métodos qualitativos da história e das humanidades. O manguito fascista de Katidis pode ser apenas a manifestação boçal e inconsciente desta cultura amnésica glorificada por muitos.