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A-24

No esconderijo do Aurora Dourada

por A-24, em 25.09.13
Reclamam a ditadura dos coronéis e atacam os sindicatos, os comunistas e os imigrantes. E infiltram-se nos meios operários, que são as primeiras vítimas de uma crise sem fim. Reportagem no Pireu, onde este movimento neonazi tira partido do desemprego e da miséria. Excertos.
Amélie Poinssot

Rua Tsaldari, em Keratsini. Em frente a uma pastelaria, veem-se ramos de flores frescas e velas. Foi ali que, na noite de 17 para 18 de setembro, terça-feira, o jovem cantor de hip-hop, Pavlos Fyssas, foi assassinado por um membro do partido neonazi Alvorada Dourada.

O assassinato de Pavlos, que chocou a opinião pública e que – se tal ainda fosse necessário – revela a natureza criminosa desta organização neonazi, insere-se numa estratégia bem ponderada. Desde há alguns meses, este partido criado com base na nostalgia da ditadura dos coronéis tenta semear o terror e ganhar terreno nos subúrbios do Pireu, antigos bairros operários e bastiões dos sindicatos, hoje atingidos pelo colapso da indústria naval e pela crise económica. Em Keratsini, Nikaia e Perama, três municípios vizinhos onde a taxa de desemprego é superior a 40%, a maioria dos homens trabalhava nos estaleiros navais ou na indústria metalúrgica.

A frente sindical comunista PAME controlava as contratações e detinha uma posição de força, que lhe permitia defender os operários e as suas condições de trabalho; nos estaleiros navais, ganhava-se 100 euros por dia e nunca havia falta de trabalho. Mas, no fim de 2008, tudo mudou. Os patrões começaram a deslocalizar para a Turquia, para Chipre e para a China. Os dias de trabalho começaram a rarear, os sindicatos centraram-se na manutenção do nível dos salários e não conseguiram que os patrões assinassem a renovação dos contratos coletivos. Em pouco tempo, a maior parte dos operários ficou no desemprego.
Explicações simplistas e promessas

Quatro anos mais tarde, os poucos dias de trabalho nos estaleiros navais são pagos a metade do montante anterior, várias empresas de siderurgia fecharam e, no fim de um ano de subsídio, os operários não recebem qualquer ajuda nem contam com qualquer proteção social. “Muitos consideram os sindicatos responsáveis por esta situação e, por trás destes, o Partido Comunista”, conta Takis Karayanakis, antigo operário dos estaleiros de Perama e antigo dirigente sindical. Com o seu anticomunismo virulento e a sua rejeição do sistema político, o Alvorada Dourada “exprime a angústia e a frustração dessas pessoas que perderam tudo”.
O terreno é propício: com a crise, muitos eleitores perderam as suas convicções políticas

Este movimento neonazi apresenta explicações simplistas e faz promessas: “É culpa dos imigrantes”, “vamos arranjar-vos trabalho”… O terreno é propício: com a crise, muitos eleitores perderam as suas convicções políticas. É o caso de Dimitris Karavas, habitante de Keratsini: “Eu e a minha família sempre votámos no Nova Democracia [centro-direita]. Mas, hoje, não conseguimos rever-nos em nenhuma das forças do espetro político”. Este motorista de táxi diz que trabalha 14 horas por dia, para ganhar, no máximo, 20 euros. “É preciso conseguir manter o sangue frio e isso não é fácil. Percebo a tentação de votar no Alvorada Dourada.” Dimitris preferiu não votar, nas últimas eleições.

A pouco e pouco, o Alvorada Dourada vai-se introduzindo nas brechas. No inverno passado, os seus homens invadiram as instalações da ONG Médicos do Mundo, em Perama, exigindo a expulsão dos imigrantes. Neste município, alguns cafés e bombas de gasolina transformaram-se em redutos da organização: as bandeiras gregas, os braços musculados e as roupas pretas não deixam margem para dúvidas.
Rondas no município

O partido financia os honorários de advogados. “O Alvorada Dourada é a nossa única esperança”, diz Tassos, operário desempregado, diante do seu café. Uma organização criminosa, capaz de matar um homem? “E então? Hoje, as pessoas morrem de fome e ninguém fala nisso…”, replica o homem, com uma violência não contida. Tal como as outras pessoas presentes, nessa manhã, no café da “zona”, o estaleiro naval de Perama, Tassos só tem um desejo: “ver Samaras e Venizelos enforcados”, o primeiro-ministro (Nova Democracia) e o número dois do Governo (PASOK). Não quer ouvir falar desses dois partidos, que governaram a Grécia em alternância nos últimos quarenta anos.

O Alvorada Dourada está firmemente empenhado num braço de ferro com os sindicatos históricos da indústria naval. Há dez dias, quando os sindicalistas da PAME colavam cartazes nas proximidades da “zona”, cerca de quarenta membros do Alvorada Dourada, envergando os seus uniformes pretos e armados de cacetes, apareceram, vindos das ruas adjacentes. Nove sindicalistas ficaram feridos.
No Pireu, o aparecimento do Alvorada Dourada no espaço público começou em princípios de 2012, com rondas no centro do município

No Pireu, o aparecimento do Alvorada Dourada no espaço público começou em princípios de 2012, com rondas no centro do município, realizadas por cerca de 20 membros, aos sábados ou nas tardes de domingo. Essa presença foi-se tornando cada vez mais agressiva, à medida que o país avançava para as eleições legislativas antecipadas: em duas ocasiões, os neonazis cercaram e espancaram militantes antifascistas.
Discurso racista

“Há cada vez mais agressões dirigidas diretamente contra pessoas de esquerda”, opina Dimitris Kousouris, natural do Pireu. Esses ataques verificam-se nos bairros populares e operários, onde o partido neonazi decidiu ganhar a “batalha da rua” – como eles próprios dizem. É evidente que a sua missão é atingir o que resta do movimento operário organizado.

O próprio Dimitris Kousouris, historiador especializado nos anos 1940 na Grécia, foi vítima de agressão por um membro do Alvorada Dourada, há quinze anos – quando a organização era apenas um grupelho que batia em esquerdistas, nas faculdades –, por ser dirigente sindicalista estudantil. Posteriormente, o Alvorada Dourada passou a atacar com cada vez maior frequência os imigrantes – albaneses e, depois, sobretudo afegãos e paquistaneses – e, há três anos, o partido neonazi começou a infiltrar-se num bairro pobre do centro norte de Atenas (Agios Panteleimonas) através de investidas que decorriam sob o olhar passivo – ou mesmo cúmplice – da polícia.

Takis e outros militantes de esquerda fundaram, em Perama, um grupo de entreajuda, que organiza distribuições de alimentos, aulas de apoio escolar gratuitas e mobilizações contra as políticas de austeridade. Nas suas assembleias-gerais semanais, os membros do grupo são constantemente confrontados com a questão do avanço do Alvorada Dourada. Alguns operários desempregados aderem com facilidade ao discurso racista. Nos últimos meses, várias pessoas abandonaram o grupo e juntaram-se às fileiras do Alvorada Dourada.

“Estamos a assistir a uma forma de guerra civil de baixa intensidade”, considera o historiador Dimitris Kousouris, “que se tornou possível, devido, por um lado, a uma certa forma de amnésia coletiva e, por outro, ao desespero das pessoas. Esse encontro despertou a besta fascista que estava adormecida”.

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