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A-24

Não há dinheiro nem para as pedras velhas

por A-24, em 03.09.12
A herança cultural não escapa à cura de austeridade a que estão submetidos os países europeus, começando pelos do Sul. É aí que se concentra grande parte do património histórico – e dos cortes a que estão sujeitos – com efeitos desastrosos.

A crise do euro não é a guerra do Peloponeso mas, com os seus civilizados anfitriões (sejam os homens de negro ou os visionários de branco), ameaça o mundo tal como era. Pode ser que a Europa se salve, mas não voltará a ser a mesma. Nem os seus cidadãos, nem o seu património. Quando não há dinheiro para pensões, torna-se frívolo reivindica-lo para as pedras. Mas as pedras da Grécia merecem ser respeitadas: nelas tem as suas raízes um sistema político de aspiração universal chamado democracia, sobre elas se ergueu uma certa ideia de Europa.
Também elas, as pedras, estão ameaçadas. Curiosamente, os berços da história e da arte ocidentais são hoje países feridos e meio despedaçados por essa sucessão de crise-cortes-crise. Na Grécia, Itália, Espanha e Portugal estão 122 locais declarados Património Mundial da Humanidade pela UNESCO (13% do total). Gloriosos passados de incertos futuros como o Coliseu romano?
Os males da bela Veneza
O anfiteatro de Vespasiano perde pedras e a sua fachada sul sofreu uma inclinação de 40 centímetros, para surpresa dos italianos e por causa do excesso de tráfego. Os bolsos públicos estão tão vazios que vai ser Diego Della Valle, empresário de sapatos, a pagar os 25 milhões necessários para restaurar o grande anfiteatro inaugurado pelo imperador Tito com 100 dias de festa. Também os achaques da bela Veneza recorreram a um médico particular: a Bulgari forrou a Ponte dos Suspiros com os seus anúncios para ajudar a sua reabilitação.
Itália é o país com mais locais protegidos pela UNESCO (tem 47) e um feroz exemplo de que a história nem sempre anda para a frente. Os 2300 milhões de euros do orçamento da Cultura em 2001 encolheram para 1400 milhões (2012). Por isso se desmoronam ruínas como Pompeia e outras menos famosas. Gian Antonio Stella e Sergio Rizzo, jornalistas do Corriere della Sera, referem vários exemplos do crepúsculo da arte no seu livro Vandali. L’Assalto alle bellezze d’Italia (Vândalos, o assalto às belezas de Itália. “As únicas riquezas que temos – a paisagem, os museus, as aldeias medievais – estão a ser agredidas. Exatamente o setor que podia ser o tesouro do país neste momento de crise”, lamenta Stella. 
A Grécia, como um pé gangrenado
A Europa está a quebras os vínculos clássicos dos quais emergiu. A Alemanha, tão entusiasta de gregos e latinos no século XIX, olha agora para a Grécia como o pé gangrenado que convém cortar. Os cortes que exige emagrecem carteiras públicas e privadas. Até junho passado, o orçamento do Ministério da Cultura grego tinha sofrido um corte de 35% e, para 2013 e 2014, preveem-se cortes adicionais. Menos meios para proteger e tratar.
Itália, Espanha, Grécia e Portugal possuem 13% do património mundial protegido. Talvez seja mais fácil repetir-se o que se passou a 5 de fevereiro último no Museu de Olímpia, onde um roubo à mão armada tornou patente o óbvio: cortar em pessoal e recursos pesa na fatura. Já em janeiro tinham sido roubados um Picasso e um Mondrian da Galeria Nacional de Atenas, vigiada por um único guarda.
“Os monumentos não têm voz, só nos têm a nós”, alertam os arqueólogos gregos tentando evitar o abandono do seu gigantesco património: 17 locais na lista da UNESCO, 210 museus e coleções de antiguidades, 250 sítios arqueológicos e mais de 19 mil monumentos históricos declarados.
E o que se passa em Espanha, glória do passado com periclitante futuro? No segundo país mais protegido pela UNESCO, com 44 locais, acontece algo paradoxal: vai conservar-se pior mas destruir-se-á menos. Víctor Fernández Salinas, professor de Geografia Humana da Universidade de Sevilha e secretário do comité espanhol do ICOMOS, organismo internacional não-governamental que assessora a UNESCO, sublinha o efeito benéfico da crise sobre o património. Acabou a festa da especulação e, com ela, as principais ameaças ao património espanhol. “Os maiores danos vinham de projetos urbanísticos como campos de golfe ou arranha-céus e deviam-se à especulação”, afirma.
Alemanha imune
No Sul, os torniquetes apertam até à asfixia, mas há outros modelos. França, que também não pode deitar foguetes, deu um corte limitado no orçamento para conservação do património. Em 2012 esse orçamento é de 380,7 milhões de euros, ou seja, 0,2% mais do que no exercício anterior. Novamente, a exceção francesa. Para além da inclinação de 43 centímetros do Big Ben, o English Heritage, o organismo governamental encarregue de tratar do património do Reino Unido, assinala três mil 168 monumentos em perigo. Alguns deles requerem “intervenções significativas”.
Nesta Europa a várias velocidades, a Alemanha também está à vontade na cultura. A crise não afetou os orçamentos culturais que, segundo o instituto federal de estatística Destatis, que têm aumentado desde 2008. Há mais seis mil museus subsidiados, 150 teatros e 130 orquestras, para além de 84 óperas (em 81 localidades). O democrata-cristão Bernd Naumann (CDU), comissário para a Cultura e Meios no segundo governo de Merkel disse, em maio, o que seria impensável ouvir noutro país: “Nestes tempos de desorientação seria um atrevimento cortar nos orçamentos culturais”. Na Alemanha “há mais gente nos museus do que nos estádios de futebol”.