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A-24

"Nada volta a ser o que já foi" - sobre o fim da imprensa em papel

por A-24, em 11.07.12

O Eleftherotypia  foi durante 37 anos o segundo diário mais importante da Grécia. Erros de gestão atiraram-no para a falência. Com os salários suspensos desde Agosto de 2011, os jornalistas ainda trabalharam quatro meses numa desesperada tentativa para o manterem vivo. Em vão: o jornal fechou em Dezembro.
No mundo do jornalismo, nada volta a ser o que já foi. As receitas da imprensa norte-americana em 2011 foram apenas metade das geradas em 2005. Diariamente, um pouco por todo o mundo ocidental, jornais existentes há décadas - ou mesmo há mais de um século - despedem-se das edições em papel. Títulos tão conhecidos e tão diversos como o Christian Science Monitor, Rocky Mountain News, Cincinnati Post (EUA), La Tribune (França), Público (Espanha), Post-och Inrikes Tidningar (Suécia) e o Jornal do Brasil deixaram de se publicar na forma tradicional, embora alguns continuem à disposição do público na internet.

O popularíssimo France-Soir, que chegou a ser o jornal com maior tiragem no continente europeu (1,5 milhões de exemplares diários em 1955), encerrou definitivamente em Dezembro passado. Títulos norte-americanos tão prestigiados como o San Francisco Chronicle, o Boston Globe ou o San Diego Union Tribune estiveram já a um passo do fecho definitivo por sérias dificuldades financeiras. E até gigantes como o New York Times ou o El País têm problemas financeiros eventualmente insuperáveis a médio prazo.
"Vivemos a mais grave crise da história da imprensa", admite um dos mais influentes jornalistas norte-americanos, Allan Mutter, em declarações à revista brasileira Veja. Quando um jornal tão emblemático como o Washington Post luta pela sobrevivência, agora que se assinalam o 40º aniversário da eclosão do caso Watergate.

Lembro-me por vezes dos jornais da minha infância. Quase todos fecharam: O Século, Comércio do Porto, Jornal do Comércio, Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Mundo Desportivo, A Capital. Restam o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e o Expresso. Também revistas como a Flama, o Século Ilustrado e a Vida Mundial já há muito desapareceram das bancas - tal como tantos títulos surgidos após o 25 de Abril, como O Jornal, O Ponto, Opção, Jornal Novo, Tempo, O País, O Dia, O Diário, Se7e, Grande Reportagem, Tal & Qual, Semanário, O Independente, Já, Euronotícias e 24 Horas, entre vários outros. E já não falo em publicações regionais, incluindo títulos históricos como o Comércio do Funchal ou o Notícias de Évora.
Não são problemas que digam respeito apenas aos jornalistas. Porque não existe democracia sem imprensa. A progressiva extinção de publicações que funcionaram como testemunhas vivas da História empobrece a sociedade no seu conjunto, tornando o debate político mais vazio de conteúdo e menos sujeito ao indispensável escrutínio que entre nós lançou raízes no tempo do constitucionalismo liberal. É verdade que existem hoje múltiplos espaços de notícia e comentário no universo da Rede, muitos dos quais não sujeitos a qualquer filtro deontológico nem obedecendo sequer às normas do mais elementar bom senso. Mas não conheço nenhuma democracia que subsista sem grupos sólidos de imprensa. E neste aspecto andamos a caminhar perigosamente para trás.

in Delito de Opinião