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A-24

Mitt Romney - Um mórmon que vem do Maio de 68

por A-24, em 06.11.12

Em Maio de 1968, quando os estudantes de Paris descobriam a praia debaixo da calçada, um jovem americano de 21 anos, mórmon, tentava convertê-los. Esse estranho missionário no meio da efervescência revolucionária originou situações absurdas ou violentas, chegando a ser acusado de agente da CIA. Inconsciente ou provocador, foi a mistura dos dois registos que permitiu a Willard Mitt Romney acumular fortuna considerável e ter na vida política o êxito que faltou aos pais.
No mesmo ano em que o filho andava a fazer proselitismo entre os companheiros de Cohn-Bendit, o pai, George, governador do Michigan, disputou a Richard Nixon a nomeação republicana à Casa Branca. Acabou como secretário da Habitação e Desenvolvimento Urbano do adversário.
Dois anos depois, Mitt acompanhou de perto a candidatura derrotada da mãe, Lenore, ao Senado. Decidiu dedicar-se aos negócios, mas antes ouviu um precioso conselho do pai: um curso de direito é fundamental para a carreira, mesmo que nunca sejas advogado. Segue tudo à risca: é um dos melhores do curso, casa, tem dois filhos, inicia uma ascensão simultânea no mundo da gestão e no da religião, com o pragmatismo exigido pelo primeiro e o conservadorismo inerente ao segundo.
Esse duplo equilíbrio, potenciado pela provocação e a inconsciência, leva-o, em 1994, a desafiar Ted Kennedy, que se recandidatava pela sexta vez ao Senado no feudo do Massachussets. É então que lhe colam a imagem do rico homem de negócios sem qualquer noção das necessidades das pessoas comuns. Obviamente perdeu.
Ressurge como gestor ao presidir à organização dos Jogos Olímpicos de inverno de 2002, em Salt Lake City. Volta à política e faz-se eleger governador do Massachussets. Em 2006, assina uma lei de reforma da saúde (o chamado "Romneycare"), em muitos aspetos semelhante à reforma de Obama ("Obamacare"), a que agora se opõe. O seu candidato é estrondosamente derrotado quando ele começa já a preparar a candidatura à Casa Branca. Na Superterça-feira de Fevereiro de 2008, perde pontos decisivos e acaba a apoiar John McCain contra Barack Obama. Consciente das falhas da sua campanha - em matéria de propostas, convicção, conhecimentos, organização - recomeça tudo e em 2012 já está solidamente instalado no terreno, esperando desta vez ter ultrapassado os três obstáculos principais: a religião (nenhum mórmone foi eleito Presidente dos EUA), a ideologia (passou do centrismo que afastava os adeptos do "Tea Party" à recuperação de muitas propostas da direita republicana), o êxito financeiro (o alheamento dos problemas do homem comum continua a ser argumento esgrimido contra ele). Só na eleição se saberá se conseguiu.

Albano Matos