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A-24

Mandela não é um deus, nem um diabo, mas apenas um grande ser humano

por A-24, em 10.12.13
José Milhazes

Muito se escreveu sobre Nelson Mandela após a sua morte. Para uns morreu um quase deus, um homem sem mácula, nem pecado. Para outros, morreu um revolucionário terrorista, autor de atentados que fizeram vítimas mortais. Mas, para mim, Mandela foi um grande ser humano, cuja vida e obra deve ser cuidadosamente analisada, à luz do seu tempo e da situação política e social então existente.
É verdade que Nelson Mandela apelou, como outros revolucionários sul-africanos, à violência para derrubar o apartheid e participou em actos de terror para pôr fim a esse regime, considerando que as formas pacíficas para alcançar esse objectivo não eram suficientes.
Isso aconteceu numa época em que o colonialismo reinava ainda numa parte significativa do Sul do Continente Africano e a luta contra ele se travava dentro de uma guerra fria entre super-potências. Por isso, sendo eu contra a violência, compreendo que, nessa altura, não havia outras possibilidades de derrubar o regime segregacionista e racista existente na África do Sul. Não duvido que, noutras condições, a luta de Mandela e do Congresso Nacional Africano tomaria formas menos violentas. 
Prova disso é que, quando foi libertado e, depois, chegou ao poder, Mandela tudo fez para que não se repetisse o que tivera acontecido em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Zimbabué, ou seja, tentou e conseguiu impedir uma guerra civil e outros desvarios sociais e políticos. É de salientar que, nas três ex-colónias portuguesas, os movimentos e partidos que saíram da guerra colonial se envolveram em sangrentas guerras civis, que mataram muitos milhares de pessoas.
O papel de Mandela é tanto mais importante se tivermos em conta que ele evitou a perseguição e fuga da população branca, como aconteceu nas ex-colónias portuguesas. 
E há um aspeto de suma importância: Nelson Mandela chegou ao poder e abandonou-o democraticamente, não se agarrou a ele como a lapa ao rochedo, fenómeno muito frequente em África, nomeadamente nas já citadas ex- colónias lusas, onde os dirigentes só abandonam o poder em posição horizontal, esquecendo-se da verticalidade que é respeitar os direitos dos cidadãos dos seus países. 
O dirigente sul-africano soube evoluir à medida que a situação no seu país mudava, para ele não havia cartilhas, embora não escondesse a sua simpatia pelo marxismo-lenismo. Foi coerente com os seus princípios, mas não foi dogmático, nem teimoso. 
É isto que o distingue não só de muitos dirigentes africanos, mas também de muitos líderes e seguidores de regimes ditatoriais de direita e de esquerda no mundo. Nós conhecemos alguns em Portugal, que, hoje, são considerados políticos coerentes apenas porque se confunde coerência com teimosia e cegueira política. 

Obrigado Nelson Mandela por não teres sido nem um deus, nem um diabo, mas um homem com letra maiúscula, um homem bom.


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