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A-24

Lisboa à beira de um ataque de nervos

por A-24, em 25.10.14
Vitor Belanciano

Os bairros históricos de Lisboa estão a viver momentos de mudança. Nos últimos anos foram surgindo novos polos de animação nocturna e cultural, ao mesmo tempo que a pressão turística se intensificou para níveis nunca vistos.
Inicialmente o sentimento predominante foi de regozijo. Aos olhos da maioria o turismo era sinónimo de desenvolvimento económico, fortalecendo também o sentimento de orgulho pelo reconhecimento no exterior.
Já o surgimento de novos centros de animação nocturna e cultural, no Cais do Sodré, Santos, Príncipe Real, Bica, Intendente, Santa Apolónia, Martim Moniz ou a faixa de Alcântara, através da Lx Factory, foram deslocando a cidade, diversificando-a, ao mesmo tempo que desanuviaram o congestionado eixo Bairro Alto-Chiado. 
Mas o sentimento predominante está a modificar-se. Os protestos recentes de moradores de algumas dessas zonas, do Cais do Sodré a Santos, por causa do ruído e consumo de álcool na rua, e o intuito da Câmara em restringir os horários de actividade dos espaços nocturnos, constituem o mais recente episódio que revela que esse tipo de conflitos, decorrentes da mutação, vieram para ficar.
Ainda não estamos ao nível de Barcelona, onde no quotidiano se vislumbra alguma hostilidade entre autóctones e forasteiros, mas é perceptível um descontentamento crescente dos residentes em relação ao turismo e à nova vida dos bairros. Em Lisboa estamos a passar com grande rapidez do oito, e dessa ideia romântica que o turismo é a salvação da pátria, para o oitenta, e para a ideia que as mutações só trazem estragos.
A preocupação é bem-vinda. O Antagonismo não. Durante muitos anos Lisboa viveu ao largo destas lógicas, mas elas são inevitáveis. A questão é como é que elas se podem operar de uma forma a mais equilibrada possível.
Não vale a pena termos ilusões. Se queremos acolher a mudança, temos que estar preparados para entender o seu alcance e privilégios, mas também os constrangimentos.
As cidades reorganizam-se e reconfiguram-se. As que não o fazem vão expirando. Por isso, em vez de reagirmos epidermicamente contra o turismo em Lisboa ou contra a renovada vida de alguns bairros, devemos sim equacionar as melhores formas de coexistir com esses fenómenos.
Este tipo de dinâmicas é comum em cidades onde as centralidades se vão renovando. Não foi o caso de Lisboa durante anos. Basta pensar que o Bairro Alto manteve a centralidade durante três décadas. Agora não só a pressão turística é novidade, como também a acelerada renovação urbanística por via das dinâmicas de boémia e cultura.
Um bairro é um ecossistema complexo. Não surpreende a tensão que se manifesta entre residentes e frequentadores, entre comércio tradicional e novas actividades, entre utilizadores nocturnos e diurnos. A harmonia é quase sempre instável. Mas é dessa conjugação de actuações, e da forma como os diferentes actores se relacionam entre si, que depende o equilíbrio.
A coexistência não é fácil. Mas é possível. Exige-se actuação pública. Mas com pinças. Às vezes mais vale ser orientadora do que pró-activa, especialmente se não se tiver em linha de atenção as especificidades dos lugares.
A actuação pública deve facilitar a apropriação pelas actividades culturais, distinguindo espaços nocturnos que geram interesse cultural ou que funcionam como veículo de requalificação urbanística, de outros que só vendem copos. Ao mesmo tempo essa acção deve facilitar a simetria entre actividades diurnas e nocturnas, disciplinar operações urbanísticas e regular o espaço público
Os perigos dos excessos (de ruído, de bares ou de pessoas) colocam em causa os equilíbrios. Mas a questão dos horários é apenas uma, entre outras, reveladora de conflito de interesses, num momento de mudança.
É uma medida que não será solução (para além de poder criar problemas colaterais de concorrência desleal e de criação de fluxos de tensão, por causa da desmobilização à mesma hora), se não for integrada em políticas transversais que garantam a estabilidade dessas áreas. 
Não basta tornar os centros das cidades apelativos, ficando os residentes remetidos à condição de figurantes. Ninguém deseja que os bairros se transformem em cenários rasurados e artificiais, destituídos justamente dos atributos que, por agora, atraem, quem os habita ou visita.
O turismo, ou a reconversão de zonas anteriormente esquecidas, não tem de gerar um fluxo negativo. Pelo contrário. Podem ser alavancas de dinamização. Basta que os poderes públicos percebam que os residentes são a maior garantia de sustentabilidade desses locais. Da mesma forma esses moradores terão de compreender que a regeneração das suas zonas lhes traz benefícios, mas também que algumas situações de tensão são quase inevitáveis.
O que há a fazer é manter uma cidadania atenta, negociar e gerir essas situações o mais coerentemente possível. Se a cidade se mantiver heterógena, movendo-se com equilíbrio – necessariamente instável – entre lisboetas e turistas, entre moradores de um bairro e visitantes do mesmo, não se desvirtuará. Pelo contrário. Valorizar-se-á.

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