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A-24

Leonid Brejnev faleceu há 30 anos no país do "surrealista socialista" ou do "socialismo surrealista"

por A-24, em 01.12.12
Faz hoje 30 anos que faleceu Leonid Brejnev, dirigente comunista da União Soviética entre 1964 e 1982.

Recordo esse dia como se fosse hoje, pois tratou-se de um grande choque para todos. O anterior secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, José Estaline, tinha falecido em março de 1953 e, por isso, parece ter-se criado a ideia de que Brejnev era eterno.
Nesse dia, eu tinha bilhete para viajar para Tallinn, para onde devia ir ilegalmente, pois os estrangeiros não tinham direito a abandonar Moscovo sem um visto especial, mas a minha filha estava para nascer, o que era bem mais importante do que uma multa.
As autoridades soviéticas tomaram medidas de segurança especiais em Moscovo e, por isso, só regressei à capital soviética depois do funeral de Brejnev, a que assisti pela televisão. Receava que houvesse controlo de documentos nas estações de caminho de ferro e fosse apanhado pela milícia.
Mas o que me levou a recordar esta data foi o que li hoje na imprensa russa. Passo a citar: “Num texto para a agência Ria Novosti, o escritor e jornalista Vadim Dubnov descreveu as duas décadas de Brejnev – período a que se convencionou chamar "estagnação" - como um "socialismo light".
“Ele era tudo para nós, ele estava em toda a parte”, escreveu, lembrando que o preço da vodka, bebida nacional russa, aumentou apenas em metade durante os 18 anos em que Brejnev governou.
“Muitas pessoas recordam a era da ‘estagnação’ com nostalgia”, observou, por seu lado, a agência russa Itar-Tass.
“Muitos dos que eram jovens durante a ‘estagnação’ têm saudades desses anos em que todos beneficiavam de uma proteção social e tinham confiança no futuro”, escreveu a agência.
Ainda que o regime de Brejnev se tenha pautado também pela repressão dos opositores ao regime, o fim da sua era trouxe “nepotismo” e “um cinismo geral”, segundo uma reportagem mostrada na televisão Pervyi Kanal.
Já velho e doente, Brejnev teve sempre a compaixão de todos, porque, assinalou a mesma reportagem, “não foi nem sanguinário, nem vingativo, foi, de facto, diferente dos seus predecessores””.
Estou de acordo que a vodka era barata, mas discordo que fosse uma época de “socialismo light”. Diria que vivemos (no meu caso, a partir de 1977 e até 1982) um período de decadência do “surrealismo socialista”, ou, para os que preferirem, do “socialismo surrealista”, vai tudo dar ao mesmo.
Se nos esquecer-nos que as perseguições contra os dissidentes aumentaram e a expulsão dos melhores filhos da URSS era cada vez mais frequente, então o regime era mais “light”, porque deixou de fuzilar os opositores sem qualquer julgamento e melhorou um pouco as condições de vida nos campos de concentração (campos de reeducação para alguns).
Depois do terror de Estaline e da instabilidade de Khrutchov, o período de Brejnev foi um tempo de calma se nos esquecermos que foi nessa época que a URSS se envolveu na invasão da Checoslováquia, em guerras no Terceiro Mundo (Angola, Moçambique, etc.) e, por fim, na invasão do Afeganistão.
Para os que viviam em Moscovo como eu, não se podem queixar da vida, porque o abastecimento das lojas era sofrível. Havia falta de muita coisa, mas alguma coisa aparecia. O saco de rede para os produtos e o fio para transportar ao pescoço os rolos de papel higiénico andavam sempre no bolso ou numa pasta para o que desse e viesse.
Porém, para os que viviam na província, esse período ficou marcado pelas viagens a Moscovo para comprar alguma coisa que aparecesse nas lojas: mortadela, lápis, cadernos, etc.
O culto da personalidade de Brejnev aumentava à medida que as suas capacidades psíquicas, o que tornava o dirigente comunista um alvo perfeito de anedotas. Apenas uma: porque é que Brejnev transporta às costas um saco de cimento? Para não cair para a frente com o peso das medalhas!”.
Depois, o dirigente soviético, quando já estava mesmo caquético, começa a escrever livros com tiragens de milhões de exemplares nas mais exóticas línguas do mundo. Os amantes de alfarrabistas nos países lusófonos talvez ainda consigam encontrar a “tríade imortal”: “Terra Pequena”, “Terras Virgens” e “Ressurreição”. Pelo menos, as edições “Avante” não deixaram escapar a obra deste homem que tinham mais títulos e cognomes do que o rei D.Manuel I depois da descoberta da Índia: “secretário-geral do PCUS, presidente do Presidium do Soviete Supremo da URSS, três vezes Herói da URSS, duas vezes Herói do Trabalho Socialista, Prémio Lenine de Literatura, etc. etc.” As más-línguas diziam que só lhe faltava um título: o de “Mãe Heroína”, concedido às mulheres que tinham mais de dez filhos.
Foi na época de Brejnev que na produção industrial começou a aparecer desenhado um homem de braços abertos, semelhante à obra imortal de Leonard da Vinci. As autoridades comunistas chamavam-lhe “símbolo de qualidade”, pois só dele eram dignos os produtos de melhor qualidade, mas as “más-línguas anti-soviéticas” deram-lhe outra leitura. Tratava-se de um homem com os braços abertos a gritar: “Não podemos fazer melhor!”.
O carreirismo político (o cinismo total) estava na moda. Eu conheci algumas pessoas que aderiram por convicção ao Partido Comunista, mas isso era raro entre os jovens. Estes queriam fazer carreira e uma grande parte deles são os que, no espaço pós-soviético, constroem actualmente o capitalismo com o mesmo êxito com que construíram o comunismo.
Posso ter saudades dessa época, pois era jovem! Mas não tenho saudades nenhumas da forma absurda como era dirigida a URSS. O resultado começou-se a ver rapidamente, apenas três anos depois (1985), mas após mais dois secretários-gerais ainda mais decrépitos do que Brejnev. Os pomposos funerais de dirigentes comunistas transformaram-se numa banalidade.
Descanse em paz, mas não volte…
in Da Russia 10-11-2012

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