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A-24

João Duque: «A Europa vai-se desmoronar»

por A-24, em 09.08.11

O economista João Duque não tem dúvidas: se continuar neste rumo, a Europa, como a conhecemos hoje, vai desmoronar-se e desaparecer. Em entrevista ao jornal «i», o presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) traça um quadro negro no Velho Continente, sem líderes capazes de levar a cabo as alterações necessárias.

O fundo europeu, que os responsáveis da Zona Euro querem fazer crer ser a solução para o problema da Europa ainda é «uma coisa vaga». E o aumento do fundo de resgate «não resolve o problema de fundo». Teria de ter um valor de, pelo menos, 60% do PIB europeu. «E provavelmente não chegaria». A solução não passa por aqui.

«É preciso esquecer os problemas nacionais e pensar na Europa. Já se percebeu que com os habitantes, com os agentes, com os decisores económicos que temos hoje, ninguém acredita nesta solução. A partir daqui, é simples: isto vai-se desmoronar! Estas pessoas não são capazes de manter o sistema. A Europa, assim, vai desaparecer», diz.

Europa precisa de novos líderes, estes não servemJoão Duque critica os actuais dirigentes da Zona Euro. «Com esta gente não tínhamos feito o euro. E com esta gente arriscamo-nos a desfazer o euro».A culpa não morre solteira. «Há aqui uma potência muito poderosa, que lidera, e que lidera mal». Angela Merkel e Nicolas Sarkozy «têm que dar um passo à frente em termos de construção da Europa. Merkel não tem visão, Sarkozy não tem visão e não é com Berlusconi que vamos contar. (...) Nunca vi Durão Barroso como líder. Ele foi escolhido por características que são tudo menos aquilo que se pede a um líder europeu», critica.«Se querem construir uma Europa, têm que construir um governo europeu, com políticas económicas europeias e políticas de financiamento público europeias (...) de uma forma federal, têm que libertar para a Europa o poder de tributar e fazer uma política económica mais europeia»», conclui. EUA são como uma baleia ferida

«Os EUA são a baleia ferida. Muita força, mas muito ferida. Por outro lado, tem um animal extraordinário que é a China, mas que precisa da baleia para alimentar essa pujança. O curioso é que se criou uma interdependência no Mundo que desagrada a todos. E é por isso que o equilíbrio está agora em risco».Portugal sair do euro sozinho? Ou saímos todos ou não sai nenhumVoltar atrás, ao tempo em que não existia euro, «seria complicadíssimo». Um verdadeiro «trinta e um». «Sair do euro, sozinhos, nunca. Isso, para mim, seria um disparate, sair de livre vontade, não.

Portugal não tem condições nenhumas, não tem crescimento económico, não tem equilíbrio na balança comercial, não tem meios de financiamento alternativos... Não tem nada! Por outro lado, se sair toda a gente, nós não somos o foco, não somos a ovelha ronhosa... Isto é como uma manada em andamento, de vez em quando larga uns que estão mais debilitados para os chacais. Já estamos cá atrás da manada, se nos largam, morremos», diz.«Depois disso, alguém vai financiar Portugal? Portugal vai conseguir importar alguma coisa? Vai haver fome. É demasiado grave. E energia? Que combustível é que se compra? Dentro de Portugal há regiões mais fortes e mais fracas. Se partir e se disser aos fracos agora governem-se, percebe-se logo que estão condenados. Agora, imagine o que é dizer: vocês ficam com a lira transmontana... Quem é que aceita essa moeda? Significa fome, mal-estar, doença, morte. É um cenário apocalíptico. E, se olharmos para a História, temos períodos de grande perda, de grande calamidade», sublinha.Em Portugal, «só temos uma coisa a fazer: cumprir aquilo que se acordou com a Troika. Mais nada. Fazer aquilo e ainda melhor que aquilo, em qualidade de decisão e em tempo».À pergunta «como vê o próximo ano», a resposta é pronta: «Pior que este».