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A-24

Inimigos íntimos: quando a rivalidade no desporto obriga a jogar, não a jantar

por A-24, em 03.10.12

Hulk e Witsel chegaram ao Zenit e revolucionaram a equipa. A inveja dos descontentes, como chamou Dalí ao termómetro do sucesso, leva muitas vezes as equipas ao êxito. O bom relacionamento não é fundamental.
Hulk e Witsel deixaram Portugal para rumarem à Rússia. Os ordenados elevados e o estatuto de estrelas criaram uma divisão na equipa do Zenit. “Percebia se fosse o Messi ou o Iniesta”, disse o capitão Denisov — e foi dispensado para as reservas. A inveja e os egos não são um caso único no desporto. Muitos tornam-se inimigos íntimos e têm de superar as diferenças pelo bem comum da equipa. A história deu-nos alguns exemplos ao longo do tempo e, dizem os resultados, nem sempre negativos.

Moniz Pereira não tinha dúvidas sobre como conciliar dois dos melhores atletas mundiais nos treinos do Sporting, nas décadas de 70 e 80. Carlos Lopes e Fernando Mamede mal se falavam — ainda hoje é raro ouvir uma palavra do campeão olímpico sobre aquele que foi durante anos o recordista mundial dos 10 mil metros, ou vice-versa. “Nos treinos faziam o que eu mandava, se não deixavam de treinar naquele momento. Ou então vinha eu embora”, conta ao PÚBLICO o treinador, hoje com 91 anos, dizendo que às vezes eram inscritos os dois atletas na mesma prova. “Apesar de haver essa crispação, nunca deixei que isso afectasse o rendimento.”



Na Fórmula 1, a rivalidade de Ayrton Senna, quando se juntou a Alain Prost na McLaren, em 1988, saltou para as páginas dos jornais. O auge da animosidade aconteceu no final de 1989, quando o título se decidiria entre os dois em Suzuka: os McLaren chocaram, quando o francês bloqueou a passagem do brasileiro. Senna continuou em prova e seguiu ilegalmente cortando a chicane; ganharia a corrida, mas ser-lhe-ia retirada a vitória e o título ficou à mercê de Prost. Um episódio que se repetiria na época seguinte, também em Suzuka, mas agora com os dois em diferentes equipas: desta vez, o desfecho inverteu-se. A 260km/h, Senna não deixou Prost fazer a curva e bateram os dois. Fora de prova, o título ficou nas mãos do brasileiro. 

“O que ele fez foi lamentável, é um homem sem valor”, disse na altura Prost. Senna admitiria, um ano depois, que a manobra tinha sido premeditada, em retaliação pelo que Prost lhe havia feito no ano anterior. 

Mesmo assim, nos dois anos em que os dois pilotos convergiram na McLaren, em 1988 e 1989, a escuderia conseguiu 30 “pole positions” (26 de Senna contra quatro de Prost), 25 vitórias (14-11), 15 voltas mais rápidas (5-10) e dois campeonatos (1-1). 

Nas motos, a rivalidade entre Jorge Lorenzo e Valentino Rossi na Yamaha também é histórica. Os dois cruzaram-se entre 2008 e 2010 e o relacionamento era mau. Eram muito parecidos, de egos inchados e a lutarem ambos pelo título. O italiano exigiu mesmo que colocassem um muro entre os dois na ofi cina para o espanhol não ver as afi nações da sua mota. Rossi acabaria por sair para a Ducatti devido ao título de Lorenzo. 

Mas durou pouco tempo, já que o italiano vai reencontrar o espanhol novamente na Yamaha nesta época. “Somos pilotos vencedores e nunca queremos perder. Acredito que o nosso relacionamento melhorou, mas talvez porque estávamos em equipas diferentes. Na Yamaha vai ser complicado o relacionamento melhorar”, admitiu Lorenzo sobre o regresso de Rossi, a quem acusou de ter um problema de carácter.

“A rivalidade não tem que afectar os resultados, porque querem sempre vencer por eles próprios”, conta Dan Abrahams, sociólogo do desporto, citado pela “CNN” sobre o mal-estar na dupla alemã de ténis Michael Stich e Boris Becker, campeã olímpica de pares nos Jogos de Barcelona 92. 

“Pode ter existido hostilidade a um nível social, mas foi apenas isso. No court só interessava vencer. ”A equipa de futebol do Sporting em 1982 também beneficiou dessa vontade dos jogadores, já que os egos de Jordão, Manuel Fernandes e António Oliveira tornavam as coisas difíceis. A época terminou com a conquista do campeonato e da Taça, com 16 golos em 34 jogos de Oliveira, ao lado de Jordão (35-37) e Manuel Fernandes (21-39). “Não é o fim do mundo os jogadores não serem amigos. Estudos em psicologia desportiva sugerem que os atletas não têm de gostar uns dos outros para a equipa ter sucesso”, diz ainda Abrahams.