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A-24

Hiroxima, o sacrifício do Japão contra a URSS

por A-24, em 07.08.12
Quando os americanos lançaram a bomba sobre Hiroxima, o Pacífico estava a dois dias de ficar sob controlo russo. Hiroxima morreu em nome da lei imperial, a lei da guerra. / Raquel Varela


A de 8 de Agosto de 1945, fez este ano 50 anos, o Diário de Lisboa transcreve as declarações do capitão William Parsons, da Esquadra norte-americana que seguia na super-fortaleza que lançou a bomba atómica: «Tudo o que se passou», disse, «foi tremendo e encorajador. Depois de ter sido largado o produto, ainda sentimos o choque que nos fez abalar. Os homens que se encontravam comigo exclamaram: ‘Meu Deus!’ Hiroxima estava transformada numa montanha de fumo. A centena de metros do terreno, o fumo era como que um imenso cogumelo cobrindo a cidade. Durante minutos, observámos os sinais de incêndios.»
O «produto» a que se refere o capitão norte-americano era a mais poderosa bomba usada até aí, lançada sobre uma cidade inteira, Hiroxima.

O império norte-americano

Os Russos estavam prestes a entrar na guerra contra o Japão. Os EUA, agora que a Alemanha estava derrotada, queriam ganhar a guerra ao Japão para dominarem o Pacífico. Mandar a bomba era um aviso a todos os outros impérios de que os EUA tinham agora a superioridade nuclear. A lei da guerra foi a devastação de Hiroxima, no dia 6 de Agosto e, três dias depois, de Nagasaqui. O Japão rendeu-se, claro, mas rendeu-se às mãos e sob controlo norte-americano.

Em Ialta, em Fevereiro de 1945, acordou-se que a URSS entraria em guerra contra o Japão três meses depois da rendição alemã. Esta deu-se a 8 de Maio de 1945, pelo que os Russos iriam entrar, e de facto entraram em guerra contra o Japão a 8 de Agosto de 1945. Mas os EUA, ao lançarem a bomba sobre Hiroxima a 6 de Agosto e sobre Nagasaqui a 9 de Agosto obrigaram à rendição incondicional do Japão. No dia 15 de Agosto, o imperador japonês anuncia aos súbditos a rendição, que é assinada, na baía de Tóquio, a 2 de Setembro de 1945, a bordo do navio norte-americano Missouri. Assim, e ao contrário do que aconteceu na Alemanha, os EUA não tiveram que dividir o território japonês com os russos.

No mesmo dia em que se anuncia um espantoso avanço das tropas russas sobre os japoneses, uma nova bomba atómica é lançada sobre Nagasaqui. O avanço russo esbarrava com a estratégia norte-americana de domínio no Pacífico. «Os aviadores anunciam que os resultados do ataque foram excelentes», lê-se no Diário de Lisboa: «Pela segunda vez foi empregada a bomba atómica ao meio-dia de 9 de Agosto num ataque a Nagasaqui. Os aviadores informam que os resultados foram excelentes.»

Um relato japonês descreveu Nagasaqui após o bombardeamento como «um cemitério sem uma única lápide de pé». O Japão, através da Suíça e da Suécia, informou, no dia 10 de Agosto, que se rendia. Para cima de 200 000 vidas pereceram sob as duas bombas atómicas, 90 % destas eram de civis. Não se sabe quantos morreram ou ficaram deformados e/ou doentes pelos efeitos da radiação nos anos seguintes.

Truman, presidente dos EUA, no dia 10 de Agosto fala ao povo americano sobre «os problemas da guerra e da paz». Depois de insistir que lançou a bomba atómica sobre o Japão para impedir uma terceira guerra mundial – um fantasma que não passava disso mesmo, com a Alemanha rendida e o Japão derrotado –, afirmou: «Não podemos nunca permitir que qualquer agressor, no futuro, seja suficientemente esperto para nos dividir, ou bastante forte para nos derrotar (…).»


Caixa: Físicos contra a bomba

O Exército dos EUA escolheu a base de Alamogordo, no estado do Novo México, para plataforma experimental do seu programa nuclear. São cerca de 3000 os trabalhadores que constroem a bomba atómica, a partir de 1943. Os trabalhadores estavam sujeitos a medidas de segurança extremas: não podiam escrever, só telefonar; tinham de manter o seu paradeiro em segredo e, de cada vez que se deslocavam a Santa Fé, a cidade mais próxima, eram vigiados por membros dos serviços secretos. A base estava sob a direcção do general Grovess e do físico Robert Oppenheimer. Muitos dos físicos que pertenceram ao projecto liderado por Oppenheimer fizeram-no em nome de impedir a Alemanha de Hitler de desenvolver semelhante bomba. Dois deles, assim que reconhecem que esse perigo não existe mais, em 1944, retiram-se do projecto: John Rotblat e Edward Condon. Em Junho de 1945, já depois da rendição alemã, um grupo de cientistas liderado por James Franck pede ao governo norte-americano que a bomba não seja usada no Japão, mas sim numa ilha deserta. Alguns membros do Governo e oficiais japoneses eram convidados para assistir à deflagração da bomba e assim evitava-se, pensavam estes físicos, a calamidade de Hiroxima e Nagasaqui. O relatório Franck foi encaminhado para o presidente Truman, que rejeitou a proposta.

Em 1947 o físico Patrick Blackett – prémio Nobel da Física em 1948 – escreveu em As Consequências Militares e Políticas da Energia Atómica: «Chegámos à conclusão de que a utilização das bombas atómicas contra o Japão não foi de facto, o último acto militar da Segunda Guerra Mundial, mas o primeiro acto da guerra diplomática que começava contra a Rússia.»

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