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A-24

Haja ciência para além do estado

por A-24, em 20.01.14
Carlos Guimarães Pinto


A redução do número de bolsas de doutoramento do FCT têm causado alguma indignação nos meios académicos e entre aquela esquerda para a qual qualquer corte de despesa pública, mesmo na situação actual, é motivo para rasgar as vestes. Para estes, a redução do financiamento estatal corresponde ao fim da ciência em Portugal, porque esta só pode sobreviver pelo e através do estado. Só pode haver conhecimento e desenvolvimento ciêntífico se for o estado a fazê-lo ou, pelo menos, a financiá-lo.

Um dos principais argumentos é o de que o financiamento estatal à investigação é indispensável porque o tecido económico português é pouco sofisticado e sem capacidade financeira para financiar estudos académicos avançados. Este argumento faz pouco sentido. Faz pouco sentido, em primeiro lugar, porque contraria a posição de que o investimento em investigação favorece a economia do país: afinal, se continuamos a ter um tecido produtivo pouco avançado, de que serviram décadas de dinheiro dos contribuintes injectado em bolsas de investigação? Em segundo lugar, faz pouco sentido porque muitas empresas já investem em formação académica avançada. Mas grande parte desse financiamento vai para um único tipo de curso: o MBA. Para aqueles que estiveram em Marte nos últimos 20 anos e desconhecem o significado destas três siglas, um MBA é uma espécie de campo de férias para adultos onde profissionais de várias áreas aprendem rudimentos de gestão no intervalo de festas (perdão, actividades de networking), treinam o inglês e participam em conferências dadas por gestores de sucesso que nunca fizeram eles próprios um MBA. Tudo isto, por um custo superior, às vezes bastante superior, ao de programas de doutoramento. Se as empresas não tivessem dinheiro para investir em formação avançada não o fariam num produto de tão baixa qualidade como são os MBAs. Apesar de estarem num patamar ciêntífico bastante mais elevados, os programas de doutoramento continuam a ser preteridos pelas empresas. Porque é que as empresas preferem enviar os seus engenheiros para MBAs do que para programas de doutoramento? Por um motivo simples: os primeiros são desenhados para agradar às empresas, os segundos para agradar ao júri da FCT. Se mesmo cursos tão overrated e overpriced como são os MBAs conseguem financiamentos do tecido empresarial, não será complicado que programas de doutoramento de alto valor acrescentado também o sejam. Claro que para tal seria necessários que esses programas fossem mais atractivos para as empresas. Tornar os programas de doutoramento mais atractivos para as empresas exige esforço, mudança de mentalidades numa área do ensino, o ensino superior, que de tão estatizado se tornou infléxivel e avesso à mudança.

É evidente que existe uma boa parte da investigação que não entra, nem entrará, na lógica empresarial de impacto no curto/médio-prazo. Para esses casos, existirão fundações, organizações filantrópicas e, se quisermos, o Estado para financiar. O que não pode continuar a existir é o actual monopólio do Estado no financiamento do conhecimento, que desvirtua os incentivos de investigadores, doutorandos e universidades. Há males que vêm por bem e o actual corte ao financiamento de bolsas de doutoramento pode ser a oportunidade necessária para que universidades, professores e doutorandos, em estado de necessidade e sob pressão, adaptem as suas práticas actuais. A investigação académica nunca sobreviverá dependendo apenas do seu impacto na “economia real”, mas também não se deve eternizar no conforto da dependência estatal.

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