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A-24

Günter Grass volta a atacar

por A-24, em 28.05.12
“A Vergonha da Europa”, assim intitulou o seu poema o escritor alemão, que não se conteve nas críticas à atitude da chanceler alemã Angela Merkel, que defende que a austeridade é a única forma de a Grécia suplantar a crise que atravessa. O Nobel da Literatura lembrou ainda a história da Grécia, a quem a Europa muito deve. “Tu vais definhar privada de alma sem o país que te concebeu, tu, Europa”, escreveu Günter Grass, num poema com 12 estrofes de dois versos cada.
O escritor, de 84 anos, vai ainda mais longe e num diálogo directo com a Europa, evidencia que é graças à riqueza histórica da Grécia, conhecida como fundadora do pensamento europeu, que muitos museus vivem. “Tu afastas-te do país que foi o teu berço, próximo do caos, porque não conforme aos mercados”, escreve Grass, acrescentando que a Grécia, que está a ser “condenada à pobreza, cujas riquezas ornamentam os museus”, é “agora mal tolerada”. “Humilhado, porque crivado de dívidas, um país sofre.”
Numa referência directa à história grega, Günter Grass termina o poema escrevendo que a Europa está a obrigar a Grécia a beber de um copo envenenado, tal como aconteceu com o filósofo grego Sócrates, depois de ter sido condenado à morte.
O poema não passou despercebido e está já a gerar controvérsia na Alemanha. Para Günther Krichbaum, presidente da comissão de assuntos europeus do Bundestag (Parlamento alemão), as palavras de Günter Grass ignoram a realidade. “Particularmente a realidade de que a Grécia foi enormemente ajudada com enormes esforços que, no fim, não vêm dos estados mas sim dos cidadãos e das suas carteiras”, disse ao The Independent o alemão, do partido de Merkel.
O poema de Günter Grass sucedeu as palavras da directora-geral do FMI, Christine Lagarde, que no sábado deu uma entrevista ao britânico The Guardian, onde disse que os gregos deviam pagar os seus impostos para conseguirem sair da crise. Lagarde deixou claro que não tenciona suavizar os termos do pacote de austeridade para a Grécia, afirmando-se mais preocupada com as crianças da África subsariana do que com os pobres gregos, porque elas “precisam mais de ajuda do que as pessoas em Atenas”. Se as crianças gregas estão a ser afectadas pelos cortes na despesa pública, disse a responsável pelo FMI, os pais têm de assumir responsabilidades: “Têm de pagar os seus impostos”.
Em Abril, Günther Grass foi considerado “persona non grata” em pelo governo israelita, depois de ter publicado um poema no qual advertia que o Estado judaico era uma ameaça para o mundo devido ao seu poder nuclear.
Defensor de causas de esquerda e que se manifestou por exemplo contra as intervenções militares no Iraque, o escritor alemão foi durante décadas considerado uma espécie de "consciência moral" da Alemanha.
PÙBLICO

POEMA

À beira do caos porque fora da razão dos mercados,
Tu estás longe da terra que te serviu de berço.
O que buscou a Tua alma e encontrou
rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata.
Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra
a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar.
À pobreza condenada a terra da sofisticação
e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura.
Os que com a força das armas arrasaram o país de ilhas
abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila.
País a custo tolerado cujos coronéis
toleraste outrora na Tua Aliança.
Terra sem direitos a quem o poder
do dogma aperta o cinto mais e mais.
Trajada de negro, Antígona desafia-te e no país inteiro
o povo cujo hóspede foste veste-se de luto.
Contudo os sósias de Creso foram em procissão entesourar
fora de portas tudo o que tem a luz do ouro.
Bebe duma vez, bebe! grita a claque dos comissários,
mas Sócrates devolve-Te, irado, a taça cheia até à borda.
Os deuses amaldiçoarão em coro quem és e o que tens
se a Tua vontade exige a venda do Olimpo.
Sem a terra cujo espírito Te concebeu, Europa,
murcharás estupidamente.

Traduzido por Carlos Leite
Atenas, 28 de Maio de 2012