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A-24

‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?’

por A-24, em 07.05.13
A propósito do texto do Henrique Raposo aqui linkado e das reacções que foi provocando, vale a pena ler Nick Cohen neste ‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?‘ da Standpoint. Este é um assunto muito cansativo para mim – de tão claro que é e dos lados que se desenham e se devem escolher – mas que infelizmente não me vai largar tão depressa. É tão óbvio que nem todos os muçulmanos são terroristas ou aprovam a matança de gente inocente (muçulmana ou infiel) que nem é necessário reafirmá-lo. Já quanto à relação dos muçulmanos, terroristas ou não, com os comportamentos aceites como bons nas mulheres ocidentais – as tais mulheres de que o Henrique fala, que usam alcinhas e mini-saias, viajam sozinhas ou com amigas, trabalham ou estudam juntamente com homens que não lhes são nada, saiem à noite e, sim, têm os affaires sexuais que lhes apetece – só alguém profundamente alienado da realidade pode pretender que os muçulmanos, a esmagadora maioria deles, convive bem com essa realidade para as suas mulheres e irmãs e filhas. É certo, haverá muçulmanos cosmopolitas e que aprovam os costumes liberais do ocidente – são uma ínfima minoria.

Estou-me a lembrar de um americano de origem iraniana que costumávamos encontrar ano após ano nas mesmas feiras, nos mesmos combóios, nos mesmos hotéis, às vezes nos mesmo escritórios e com quem conversávamos sempre que nos víamos. Ele é (era, pelo menos) um muçulmano moderado. Encontrei-o na China poucas semanas depois do 11 de Setembro, falámos do assunto e vieram-lhe lágrimas aos olhos. Ainda não se sabia quantas pessoas haviam morrido e ele garantia serem mais de 10.000. Muito cordialmente, sempre que nos encontrávamos apertava-me a mão, tal como fazia com os meus (masculinos) acompanhantes de trabalho. Por umas duas ou três vezes este americano levou a mulher consigo nestas viagens. Era uma senhora bonita, com olhos pretos e aquele nariz do médio oriente, elegante, sem burkas nem véus nem lenços na cabeça; a mim apertava-me a mão, aos homens que me acompanhavam nem pensar. Isto é a moderação muçulmana. Também me lembro de uma empresa saudita que vendia vidro e costumava expor na feira de Frankfurt. Só tinha homens lá trabalhando, obviamente. O curioso é que também só aceitavam clientes masculinos; qualquer senhora que se acercasse para pedir informações comerciais era inteiramente ignorada pelos vendedores da dita empresa. E lembro-me ainda de um muçulmano simpático de keffieh na cabeça que uma vez no Forte Vermelho de Delhi (não sei se o simpático muçulmano era indiano; parecia mais árabe), ao ver que o meu acompanhante masculino (por acaso era meu marido) me colocou a mão por trás das costas à altura da cintura (uma pornografia, portanto), teve a também agradável ideia de vir colocar-se à minha frente e cuspir para o chão com ar furioso; sendo que fez tudo isto olhando para mim, nunca para a parte masculina da cena. Ou lembro-me do ar de escândalo de um muçulmano (vestido da forma usual na Europa), acompanhado de uma senhora coberta de preto só com os olhos à mostra, em Dezembro passado em Londres, quando eu lhe falei para pedir, por ter as mãos ocupadas com sacos e crianças, que carregasse num número do elevador onde estávamos.

Enfim, lembro-me me muitas mais histórias passadas com muçulmanos ‘moderados’ e outros mais acintosos. Nenhuma destas histórias da forma como os muçulmanos se relacionam com as mulheres eu gostaria que passasse a ser a regra na Europa onde vivo. Mas, pronto, podemos fingir que estes comportamentos muçulmanos são normalíssimos. Sobretudo, podemos fingir que estes comportamentos não são sintoma de uma visão das mulheres e dos direitos das mulheres que devia ser aberrante para todos os europeus. Podemos ainda fingir que o repúdio do modo de vida europeu e americano pelos terroristas islâmicos não contém lá dentro um igualmente grande repúdio pela liberdade feminina no ocidente. Podemos fingir, por último, que o facto de isto se passar com muçulmanos é coincidência e nada tem a ver com o Islão actual. (Afinal os hindús e os judeus hassídicos também têm as suas manias, não é?) Continuemos a fingir e depois não nos queixemos daquilo que se passar a considerar actos civilizacionais.
Maria João Marques, n'O Insurgente