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A-24

FC Porto-Benfica é um jogo mais velho do que o campeonato

por A-24, em 21.06.11
No início dos anos 20, já havia FC Porto e Benfica. Já havia proezas, desforras, jogadores - literalmente - levados ao colo pela multidão, protestos ruidosos contra o referee e referências às façanhas da team do Norte e aos heróis da team do Sul. Havia durante toda a época de futebol "uma contradança de idas e vindas de grupos de Lisboa e Porto, num desejo louvável de se medirem forças", mas apenas um livrete a que chamavam Estatutos da União Portuguesa de Futebol. O clássico, o verdadeiro entre o FC Porto e o Benfica, repete-se hoje. É mais velho do que o próprio campeonato.
"Oficialmente, ainda não sabemos qual é a melhor equipa de Portugal". Escreveu-o em Agosto de 1921 Ernesto de Oliveira, director da Associação de Futebol do Porto. "Lembra-me de que, na época de 1919/20, tendo o FC Porto batido todos os clubes da capital, a Associação de Futebol de Lisboa queria, à última hora, decidir entre o Sport Lisboa e Benfica (campeão do Sul) e o FC Porto (campeão do Norte) qual dos dois teria direito ao título de campeão de Portugal. Com que regulamento? Em que bases? Não importava, era caso que se resolveria depois, quando o Benfica cá estivesse, porque o encontro era fixado por telegrama, tal a pressa em decidirem".
O projecto Campeonato Nacional não avançou imediatamente, evitando-se um início "atrabiliário", como apelidou Ernesto de Oliveira. "Porque não cabe na cabeça de ninguém que dois clubes entre si possam assim de um momento para o outro, e sem mais formalidades, tomar a resolução de fazer bater-se os campeões das duas capitais, classificando o desafio de Campeonato Nacional!", justificou o dirigente.
Às 20h15 deste domingo, quase 90 anos depois, resta muito dessa sinédoque de se considerar que a Liga se resume a este FC Porto-Benfica, que, como toda a gente sabe, pode terminar com um fosso de dez pontos entre as duas equipas ou com uma atracção. É um clássico. E porquê? "Porque, ao longo das duas últimas décadas, são as duas equipas mais fortes. A explicação está aí. As relações entre os clubes tardam em normalizar e também isso contribuiu para um clima especial", respondeu ao PÚBLICO Rui Águas, que, entre as décadas de oitenta e noventa, representou os dois emblemas. "O grande clube do Norte e o Benfica, mais forte, por regra, no Sul", resume. Carlos Tê também tem uma "teoria muito simples". "Enquanto o FC Porto da minha infância era uma equipa "simpática", não havia guerra. O FC Porto perdia cá, perdia lá, o Benfica ficava com três títulos, o Sporting com um e havia paz futebolística. Depois do 25 de Abril, o FC Porto intrometeu-se, cresceu e a paz ficou inquinada", sugere o letrista e portista. "Não me parece haver espaço para três grandes clubes no nosso campeonato e por isso fica tudo muito radical entre o Benfica e o FC Porto".
Se em 1939 os portistas venceram a primeira edição do Campeonato da I Divisão, em 2010 os benfiquistas conquistaram o título. Mas há contas a ajustar - num FC Porto-Benfica, há sempre contas a ajustar, ainda que fiquem 60 por disputar. Porque na época passada o Benfica não passou no Dragão (o FC Porto ganhou 3-1), porque do currículo de André Villas-Boas consta uma Supertaça num despique com o Benfica (e apenas isso, como o treinador portista há dias sublinhou) e, principalmente, porque um FC Porto-Benfica é um FC Porto-Benfica. "Esta rivalidade crispou-se quando se começou a perceber que o sucesso do FC Porto, principalmente a nível externo, era óbvio. Com a intromissão da sociedade civil, dos adeptos, o jogo ganhou contornos de guerra entre o Norte e o Sul". Carlos Tê não discute "de quem é a culpa disso", mas admite que a força dos "dragões" reside no seu regionalismo. Defende o FC Porto "com uma retórica interna" e como um clube que "continua a jogar perante plateias adversas". Na outra ponta, o Benfica, que, para o bem ou para o mal, "só tem dois ou três jogos fora" tal a quantidade de adeptos rendidos ao seu emblema. "Essa é a grandeza do Benfica ou a miséria do futebol português".
Hulk? Coentrão? Ou um protagonista que antes do FC Porto-Benfica não o era? "Os dados chegam aqui, mas são lançados. Tudo pode acontecer porque é um clássico".

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