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A-24

Entre Leste e Oeste, um fosso de ideias falsas

por A-24, em 29.09.12

Na Holanda, os europeus do Leste têm substituído os muçulmanos como alvo da extrema-direita. Uma hostilidade alimentada por ideias feitas difundidas por toda a Europa Ocidental, lastima uma jornalista lituana, que admite que os seus compatriotas também não são isentos de preconceitos.

Rasa Navickaité

"Tens problemas com imigrantes da Europa Central e Oriental? Queremos conhecê-los!" O sítio de Internet do partido holandês de extrema-direitaacolhe os visitantes com esta pergunta seguida do incentivo. Geert Wilders, dirigente do Partido da Liberdade, conhecido pelas suas diatribes contra o Islão e os muçulmanos, descobriu um novo filão para atrair os votos do holandês médio. Em fevereiro, o partido lançou um sítio destinado a reunir provas de problemas causados por "polacos, búlgaros, romenos e outros europeus do Leste".
Segundo o Instituto Nacional de Estatística da Holanda, em 2011, instalaram-se legalmente no país cerca de 200 mil europeus de países de Leste. Os 136 mil polacos representam uma maioria significativa. Também foram registados 2708 lituanos, 1885 letões e 665 estónios. Num país de 17 milhões de habitantes, significam, no conjunto, pouco mais de 1%.
É interessante constatar que o ódio da extrema-direita aos imigrantes que não respeitam os valores ocidentais esteja a mudar de alvo. Após o 11 de setembro, o Islão e os muçulmanos tornaram-se os bodes expiatórios para todos os males da sociedade. Hoje, os europeus do Leste substituem-nos nesse papel.
Uma situação paradoxal
Simon Kuper, jornalista de origem holandesa do Financial Times, descortina várias razões para este fenómeno. Em primeiro lugar, a Holanda tende a limitar a imigração de fora das fronteiras da União: o número de marroquinos e turcos diminuiu.
Em segundo lugar, os muçulmanos estão a integrar-se mais facilmente. Falam holandês em casa e não ocupam o primeiro lugar nas estatísticas de criminalidade. Não é, pois, de surpreender, defende Simon Kuper, que os habitantes da Europa Central e Oriental, chegados em massa há alguns anos, estejam lentamente a tornar-se os "novos muçulmanos". Aos olhos dos ocidentais, têm estampado um carimbo de pós-sovietismo, falam línguas incompreensíveis e parecem tão estrangeiros como os turcos ou os marroquinos.
O estigma da Guerra Fria continua a separar europeus do Ocidente e do Leste. Estes últimos tornaram-se mais um instrumento retórico para os populistas. A discriminação contra os imigrantes do Leste é alimentada pelo facto de serem considerados menos europeus do que os ocidentais, logo, menos civilizados e menos tolerantes.
Há razões claras para isso. Ao contrário dos ocidentais, não são "politicamente corretos": gerem um cocktail explosivo de intolerâncias, de ódio aos negros, de antissemitismo e homofobia, que são tabus no Ocidente.
A experiência da emigração não cura a intolerância dos lituanos, muito pelo contrário. Regressados de Londres, de Dublin ou dos países nórdicos, multiplicam histórias sobre negros, muçulmanos e outros não-europeus que ocupam a Europa, reforçando os preconceitos locais. E acima de tudo, não reconhecem que possam também ter sido considerados "ocupantes" pelos ocidentais.
É precisamente o racismo, a homofobia e a falta de democracia que os europeus ocidentais agitam, para justificar a sua diferença em relação aos do Leste. Uma situação no mínimo paradoxal, pois é no Ocidente que a xenofobia e o racismo são emulados por partidos nacionalistas com cada vez maior aceitação.
“O negrume na alma das pessoas”
O Euro 2012 de futebol, que terminou há pouco, foi o símbolo perfeito deste estigma. A imprensa ocidental aproveitou a oportunidade para falar dos problemas da Europa de Leste, reforçando estereótipos do século passado. Produziram-se inúmeros artigos sobre o racismo e o antissemitismo na Polónia, as classes populares na Ucrânia e as mulheres fáceis do Leste.
Antes do início do campeonato, um anúncio na televisão holandesa incitava as mulheres a não deixarem de todo os seus homens deslocar-se à Ucrânia e à Polónia. "Mulheres, façam um contrato de três ou cinco anos com a empresa de energia da Holanda e recebam cerveja de presente", sugeria uma voz feminina em tom de conspiração.
Este anúncio é um exemplo claro de sexismo e de racismo. As mulheres do Leste europeu são apresentadas como nunca fariam a mulheres holandesas. Não é de admirar que as ativistas ucranianas do Femen, famosas pelas suas ações públicas de seios à vista, tenham recebido o Euro 2012 com a palavra de ordem: "A Ucrânia não é um bordel.”
E esse ainda é um dos estereótipos menos graves. Em Lviv, o jornalistaMichael Goldfarb, do Guardian, afirma ter visto "o negrume na alma das pessoas". A Polónia era o seu alvo. Chamou ao país "o centro do Holocausto", sem mencionar a responsabilidade do regime nazi.
Como mudar essa imagem na Europa de hoje, moldada pela União? A resposta está nas mãos dos "canalizadores polacos" e das "ucranianas fáceis"

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