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A-24

Entre 10 e 20 mil pessoas tentam suicidar-se todos os anos

por A-24, em 18.03.10

Programa de prevenção na Amadora pretende ser projecto-piloto a expandir pelo país. Maioria dos casos tem origem em doença metal.
"Por cada suicídio consumado calcula-se que haja entre dez e 20 tentativas de suicídio não-consumadas." As tentativas de suicídio em Portugal não são contabilizadas, mas os 1035 suicídios registados pelo Instituto Nacional de Estatística em 2008 podem significar dez a 20 mil tentativas por ano, estima Ricardo Gusmão, professor de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
Um projecto-piloto de prevenção do suicídio, que arranca hoje na Amadora, contabilizou 240 tentativas de suicídio no ano passado, ou seja, houve cerca de 20 pessoas por mês que deram entrada no Hospital Amadora-Sintra por terem tentado acabar com a vida, "pessoas que, se não recebessem cuidados, poderiam ter morrido", ressalva Ricardo Gusmão, que coordena o programa.
No topo dos métodos utilizados esteve a toma de benzodiazepinas (calmantes como o Xanax, Lorenin, Lexotan e Valium), refere o coordenador nacional do projecto, que se enquadra num consórcio internacional de instituições, a Aliança Europeia Contra a Depressão, financiado pela Comissão Europeia com o apoio do município, e sem qualquer ajuda da indústria farmacêutica, sublinha.
O objectivo do programa OSPI (Optimised Suicide Prevention Programs), que está a ser aplicado nos mesmos moldes em regiões da Alemanha, da Hungria e da Irlanda, é pôr em prática uma série de estratégias científicas que se mostrem eficazes e depois avaliar os resultados, explica. Se, como se adivinha, houver redução de suicídios e tentativas (contados de 2009 a 2012), Ricardo Gusmão acredita que poderá servir de modelo a programas de prevenção de suicídio a generalizar pelo país, no âmbito do Plano Nacional de Saúde Mental.
O ponto de partida é mesmo a constatação de "que 95 por cento dos suicídios têm origem em doença metal" e que, neste universo, a causa mais importante é a depressão - é responsável por 50 a 70 por cento dos suicídios, refere o docente. "Estar deprimido aumenta o risco de suicídio de 11 a 27 vezes, mais do que a relação entre fumar e ter cancro do pulmão."

Médicos vão ser formados
Chegou-se à conclusão, a nível europeu, que a melhor forma de prevenir o suicídio - que, à semelhança do que acontece em Portugal, é a maior causa de morte não-natural na União Europeia - é agir na área da depressão. E aqui está-se a falar em termos latos, na depressão mais comum e crónica, mas também enquanto manifestação da doença bipolar, da esquizofrenia e também a associada a doenças físicas, como o cancro, doenças cardíacas, neurológicas ou reumatológicas.
Como "só dez por cento das depressões são bem diagnosticadas e bem tratadas, há uma grande margem para melhoria", refere o professor, que fez a sua tese de doutoramento (em 2006) sobre a forma como a depressão é gerida pelos médicos de família portugueses. O investigador constatou que existem, por um lado, pessoas com depressão que não são detectadas pelos médicos de família e, por outro lado, pessoas que são tratadas e não precisariam de o ser. A isto atribui, por exemplo, uma fragilidade nos currículos das faculdades de Medicina na altura em que a maioria dos clínicos gerais tirou os seus cursos. "O conhecimento das neurociências deu um pulo nos últimos dez anos."
Uma das estratégias deste projecto é dar formação sobre suicídio a médicos de família e enfermeiros, mas também a padres ou polícias, porque são pessoas que têm contacto com situações- limite e são-lhes passados dados com locais e números de telefone a que as pessoas podem recorrer. Ao mesmo tempo, na Amadora, começa hoje uma campanha de informação, através da distribuição de folhetos e afixação de cartazes, onde a frases como "A depressão pode acontecer a qualquer pessoa" e "Nós podemos ajudar" se junta uma lista de números de telefone com uma linha de apoio.
O projecto já tinha sido parcialmente experimentado nos concelhos de Cascais e Oeiras, desde 2006, mas só na Amadora vão ser estudados os resultados e também se vai intervir, pela primeira vez, "na diminuição do acesso a meios letais", ou seja, as benzodiazepinas que parecem ter "um acesso demasiado fácil", constata o médico. Vão ser feitos cursos de formação sobre depressão e risco de suicídio junto dos médicos de família que os prescrevem (são de receita médica obrigatória) e dos farmacêuticos que as dispensam."Professores carismáticos" para identificar alunos em risco
Num estudo europeu publicado no ano passado consta que, de 16 países europeus, Portugal e o Luxemburgo são os dois únicos países da Europa que revelaram, entre 2000 a 2005, uma tendência de crescimento do suicídio no sexo masculino entre os 15 e os 24 anos. A Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa tem no terreno um programa-piloto de prevenção da depressão e do suicídio em meio escolar para jovens destas idades, nos concelhos da Amadora, Oeiras e Cascais. Chama-se Why Youth Mental Health e arrancou este ano, até 2012.
A doença mental e, em consequência, o suicídio começam na faixa etária dos 15 aos 24 anos, refere Ricardo Gusmão, professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. O problema é que os jovens raramente vão aos serviços de saúde em geral, e muito menos aos de saúde mental. É por isso que para detectar jovens em risco é preciso ir até eles, defende.
Um dos objectivos foi identificar nas escolas os professores a quem os alunos se dirigem, mesmo que não ocupem nenhum cargo específico. É o que chama "professores carismáticos", identificados pelos colegas, pelo pais e alunos como "pessoas acessíveis e interessadas", a quem os alunos recorrem. Estão identificados dois a três por cada uma das cinco escolas envolvidas, num universo de cerca de 500 alunos. Os docentes receberam formação para identificar alunos em risco e fornecer dados sobre tentativas e suicídios, bem como para o seu encaminhamento. Caso considerem que há alunos em risco, estão incumbidos de referenciá-los para os serviços de saúde vocacionados para jovens. Se o caso o justificar, seguem depois para médicos de família e até para os serviços de saúde mental de Pedopsiquiatria (15-16 anos) ou já de Psiquiatria para adultos (a partir dos 17 anos).

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