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A-24

Ensaio sobre a cegueira

por A-24, em 04.09.13
Mario Amorim Lopes

Quando o Grande Passo em Frente de Mao causou cerca 45 milhões de mortos entre 1958 e 61, eles culparam os reacionários, os direitistas e os mercados.
Quando a fome que se seguiu à colectivização dos meios de produção e dos terrenos agrícolas promovida por Mao conduziu ao canibalismo e à transação de carne humana no mercado negro, eles culparam os mercados.
Quando a União Soviética sucumbiu, quando os pequenos agricultores, os kulaks, transacionavam por comida os poucos pertences que ainda lhes restavam, eles culparam os mercados.
Quando Portugal se aproximou da insolvência em 2010 e se viu incapaz de emitir dívida, eles culparam, imagine-se, os mercados. E alguns, que brincam aos mercados, culparam quem? Os mercados!
Quando Detroit, após 50 anos de governação do Partido Democrata, uma dívida acumulada de $20bi e uma Constituição estatal que impede o pedido de insolvência por reduzir os benefícios dos pensionistas públicos, solicita proteção contra credores, eles voltam a culpar os mercados.
Quando, não se sabe bem onde ou porquê, surgir uma III Guerra Mundial, Mário Soares antevê que a culpa será dos mercados.
Eles culpam os mercados por convicção, por dogma. Uns, porque crentes na economia política, normativa, preterem o que é em função do que deve ser. Mas na dicotomia “é-deve ser”, ainda ninguém resolveu o problema colocado por Hume. O que deve ser não é uma dedução lógica. A conclusão não deriva das premissas. Daí que essa tal economia normativa só possa ser, com efeito, metafísica. O materialismo dialético que sustenta o marxismo é uma evolução histórica, de constante atrito interno, que avança do que foi para o que deve ser. Para um qualquer ideal. Mas não é o que é. O que é, pode ser observado e testado, falsificado se necessário. Já o que deve ser, não. Uma pretende ser ciência económica, a outra, ficção, mas sem a escrita envolvente de Tolkien. É o que, eventualmente, de tese em antítese, terá de ser. Consta que não foi.
Já os keynesianos fazem-no por suspeição. Não que Keynes duvidasse do equilíbrio Walrasiano, mas duvida de um mercado que esteja em equilíbrio. Vê rigidez nos salários e nos preços no curto-prazo, vicissitudes que o impedem de convergir para o seu equilíbrio de longo prazo. Ora, falhou!, clama ele. Admitamos tal como verdade. Ainda assim, a sua prescrição não cura a doença. Não é o Estado, o investimento público, que torna o mercado eficiente ou que reanima a economia. São os mercados, Keynes. Bastava recomendar que os mercados fossem reformados no sentido de serem mais flexíveis, menos rígidos. Reformas que o permitissem convergir para o tal longo prazo, em que o desemprego é próximo da sua taxa natural. Ao invés, sugere precisamente o contrário. Mais intervenção, mais burocracia, mais rigidez.
O curioso é que, ao contrário do que se possa assumir, a defesa do mercado por parte dos liberais não é um dogma, um juízo moral do que pode ser, uma concepção metafísica ou mística do que deve ser, porque tem de ser, porque a história o conduzirá lá. Os mercados são o mecanismo económico mais eficiente de troca de bens e serviços e alocação eficiente de recursos, e é nisso em que os liberais acreditam. Seja por concepção apriorística e praxeológica, seja por concepção Marshalliana da lei da oferta e da procura, seja por individualismo metodológico ou seja pelo positivismo, a filosofia que norteia o liberalismo não depende dos mercados, mas sim da liberdade alicerçada na eficiência económica que, até à data, é melhor alcançada através da livre troca de bens e serviços — nos mercados. Mas que poderia ser em roulottes. De vestido cor de rosa. Ocorre que o mercado livre é, não por dogma ou por convicção, o mais eficiente dos mecanismos. É o que é.
Quando surgir uma outra estrutura que respeite a liberdade individual e que promova mais eficiência económica, os liberais adoptá-la-ão. E veremos os marxistas ainda agarrados ao que deve ser, os keynesianos preocupados com o que gastar, e ambos em uníssono a criticarem o que entretanto surgir que suplante os mercados. E se nada entretanto surgir, a culpar, claro está, os mercados.

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