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A-24

Dos conflitos actuais - via Observador

por A-24, em 02.09.14

(...) Escolhi por isso um tema que cruza a nossa actualidade com o que se passa no mundo: a ida de portugueses para a Síria para combaterem ao lado dos jihadistas. Ainda serão muito poucos, sobretudo se compararmos com o que se passa noutros países europeus, mas este fim-de-semana o Expresso contou-nos ahistória de um casal – ela filha de alentejanos, ele criado na linha de Sintra – que foi juntar-se ao califado (link para assinantes). Pequeno extrato:

Ângela comenta a Jihad nas redes sociais, Fábio vai para a frente de combate. Fonte ligada aos serviços de informação portugueses coloca-o na brigada Kataub al Muhajireen do EI, constituída apenas por combatentes de países ocidentais, como a Grã-Bretanha, Alemanha, França ou Dinamarca. Ao seu lado há pelo menos mais três portugueses: dois irmãos, de 26 e 30 anos, que como Fábio, cresceram na linha de Sintra; e um jovem de Quarteira, de 28 anos. São amigos no Facebook e irmãos de armas na frente de guerra. Os quatro converteram-se ao islamismo quando estavam emigrados nos arredores de Londres e daí partiram para a Síria.
Em Portugal existirão, como se sublinhava numa recente reportagem do Fábio Monteiro no Observador, cerca de 55 mil praticantes da religião de Maomé. Entre nós não há sinais visíveis de derivas radicais semelhantes às que têm surgido noutros países europeus, não devendo ser por acaso que nos casos contados pelo Expresso a radicalização ocorreu no Reino Unido e na Holanda.
A capacidade que o ISIS tem demonstrado de recrutar combatentes na Europa Ocidental justificou um artigo na última edição da Economist, onde se publica um mapa que dá uma ideia precisa, quantificada, do que está a acontecer:
Nesta vaga de combatentes, há uma novidade: a presença de mulheres (como a portuguesa Ângela):
Most Western fighters are men under 40, but this war has attracted more women than past causes. Some 10-15% of those travelling to Syria from some Western countries are female. (…) Some hope to marry, others join all-female units to ensure that women in areas under IS control obey the strictest version of Islamic rules, such as covering up; a few take part in battles.
Por todo o lado os governos começam a tomar medidas. NaHolanda tiram o passaporte às famílias que querem juntar-se ao Estado Islâmico. Em Espanha os serviços de informação já confirmaram que há 51 nacionais a combater com os jihadistas. Na Alemanha suspeita-se que pelo menos 20 antigos soldados, treinados pelas forças armadas germânicas, possam ter já ido para a Síria.

Mas é seguramente no Reino Unido que o nível de alarme é maior. Primeiro, porque se leva realmente a sério a hipótese de o país ser alvo de atentados. Depois, porque a maioria dos eleitores defende que seja retirada a cidadania a esses jihadistas e o governo de David Cameron anunciou hoje novas medidas para conter a ameaça terrorista. Finalmente porque o aparecimento destes radicais coincide com a revelação de outros escândalos que põem em causa o multiculturalismo prevalecente no modelo de integração britânico.
Comecemos pelos jihadistas e por uma interessantíssima entrevista do Wall Street Journal com um antigo radical. Shiraz Maher, cidadão britânico, foi durante alguns anos militante e, depois, dirigente do grupo radical Hizbut Tahrir, até que, ao presenciar os atentados de Londres em 2005, rompeu com o radicalismo. Hoje dedica-se a estudar o radicalismo: faz parte do International Center for the Study of Radicalization, no King’s College de Londres. É impossível resumir tudo aquilo que diz, mas deixa aqui apenas uma passagem, como aperitivo:
Hizbut Tahrir, for example, organized a 1994 conference in London about the need to establish a caliphate. The event drew Islamists from Sudan to Pakistan, yet Mr. Maher says U.K. law enforcers took a blasé attitude: "These exotic guys with beards are talking about a new state. OK." The result was that the "idea of having an Islamic state had been normalized within the Muslim discourse," Mr. Maher says, and young Muslims were taught to think of their British identity as something "filthy."
O tema da relação da Inglaterra com os seus radicais foi de resto o escolhido por Maria João Marques para a sua última crónica, “Senhor jihadista, posso ter a Grã-Bretanha de volta? Obrigada.” Nela sublinhou, por exemplo:
É sabido e mais que documentado que muitas mesquitas britânicas são centros de radicalização, incitamento ao ódio e violência e recrutamento de jovens desequilibrados para uma guerra que têm a falta de pudor de chamar santa. Douglas Murray, na Spectator, faz um resumo dos casos envolvendo jihadistas britânicos que as boas consciências herculeamente ignoraram. Quem avisou que este caldinho seria calamitoso foi apelidado de islamofóbico e intolerante. E quem cala, consente, não é?

Pois é. E o problema parece começar, pelo menos para muitos britânicos, quando a obsessão com o politicamente correcto impede de ver, ou de denunciar, crimes que estão a acontecer debaixo do nosso nariz. O caso mais recente é a descoberta de que pelo menos 1.400 crianças tinham sido abusadas sexualmente em Rotherham. Um relatório independente, aqui sintetizado pela Economist, revelou que ao longo de 26 anos as autoridades locais não fizeram nada para impedir esses crimes. Ou, mais exactamente, estiveram paralisadas , como escreveu a Spectator:
In Rotherham, political correctness about race seems to have paralysed police and social workers. The report says that ‘-several staff described their nervousness about identifying the ethnic origins of perpetrators for fear of being thought racist.
Este caso levou a que de imediato se levantassem vozes contra o que foi descrito como o “legado tóxico de multiculturalismo”. O caso foi naturalmente relacionado com outro escândalo, o do “cavalo de Tróia” nas escolas de Birmingham, uma zona de forte presença de comunidades islâmicas onde nas escolas públicas já se tolerava o ensino da sharia. O problema, de resto, não é novo, como relata o director do jornal online Spiked, Brendan O'Neill: "When Political Correctness Took Over in Yorkshire - Official fear of 'giving offense' allowed 1,400 girls to be victimized".