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A-24

Crise europeia das línguas

por A-24, em 08.08.12
Por Edoardo Campanella

Quando a história se repete, ela raramente é gentil. Hoje, tal como na época do colonialismo, dezenas de milhares de jovens ambiciosos, originários da periferia da Europa, estão a fugir do velho continente em busca de melhores oportunidades na América, em África e na Ásia.
Mas, ao contrário da era colonial, as saídas de pessoas não são compensadas pelas entradas de recursos naturais ou de metais preciosos. Os emigrantes europeus estavam habituados a contribuir para a glória das suas pátrias; agora, o seu êxodo está a contribuir para o declínio da Europa.

Numa tentativa extrema de resolver a falta de emprego no seu país, o primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, aconselhou recentemente os jovens desempregados do seu pais a emigrarem para as antigas colónias portuguesas, como o Brasil ou Angola. No ano passado, pela primeira vez desde 1990, a Espanha era um exportador líquido de pessoas, com 31% dos emigrantes a irem para a América do Sul. Mesmo em países sem passado imperial, mas com uma longa tradição migratória, como a Irlanda, a fuga de cérebros para a Austrália e para a América do Norte está a acelerar.

A gravidade da recessão económica na Europa, as deficiências no projecto do euro e as medidas fiscais de austeridade mal concebidas alimentam o êxodo. Mas o principal impulsionador é a cultura, não a economia. O alto grau de fragmentação linguística da Europa não permite que a zona euro amorteça uma crise auto-infligida, por isso as pessoas deslocam-se para fora da zona monetária, em vez de se deslocarem dentro dela.

A mobilidade dos trabalhadores dentro de uma área monetária representa um mecanismo chave de adaptação, para preservar a eficácia da política monetária contra as assimetrias nos choques regionais: em teoria, os trabalhadores da periferia da zona euro retraída devem fluir para o núcleo em expansão. Na prática, a barreira da língua prejudica esta válvula de segurança. Deste modo, o Sul da Europa está a perder os seus melhores talentos, o Norte da Europa está a esforçar-se para preencher as vagas de emprego e toda a Europa está a tornar-se mais pobre.

A diversidade linguística na Europa é imensa. Treze línguas oficiais dos seis ramos distintos do grupo indo-europeu de línguas - germânico, eslavo, urálico, românico, celta e grego - são faladas na zona euro. Adicione uma infinidade de dialectos regionais, que só na Itália equivalem a cerca de 20 (com diversas variantes cada). Em muitas regiões secessionistas, como a Catalunha em Espanha, elas são de facto o idioma oficial.

As implicações dessa diversidade linguística são profundas. A língua não é apenas um meio sistemático de comunicar. É um sinal de identidade, cultura e orgulho nacional. De acordo com a maioria dos especialistas, os processos linguísticos moldam a forma como as pessoas percebem o mundo, como elas vivem as suas vidas e, finalmente, a sua mentalidade.

O mesmo conceito, expresso com palavras diferentes, em línguas diferentes, gera emoções diferentes. Na verdade, a indiferença da Alemanha perante a dor infligida na Grécia está inscrita na sua língua. Em inglês, como em várias outras línguas europeias, o termo austeridade deriva do grego austeros, que significa duro e severo, enquanto para os alemães é apenas um plano tecnocrático de poupança, um Sparprogramme.

Até agora, a miopia política e os interesses nacionais têm impedido os líderes europeus de elaborarem uma política de língua comum. Segundo o Eurostat, gabinete oficial de estatísticas da União Europeia, apenas 18% das pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos, observam ser proficientes numa outra língua (normalmente o inglês) e a percentagem diminui drasticamente com a idade.

Numa tal Torre de Babel, o apelo da chanceler alemã Angela Merkel a uma união política para salvar o euro é uma esperança vã, até mesmo para o representante europeu mais leal. As barreiras linguísticas irão obstruir o debate político continental e impedir a criação de uma identidade verdadeiramente europeia. A paixão dos cidadãos, em vez da criatividade dos tecnocratas, deveria inspirar a unificação política. Mas a Europa ainda está longe desse momento: depois de mais de 60 anos de integração económica, um povo verdadeiramente europeu, com a sua própria identidade e língua, ainda está para surgir.A implicação lógica de uma moeda que junta 17 países é uma língua oficial comum. Os fundadores da UE acreditavam que uma língua franca emergiria através da interacção económica e social. Mas eles estavam errados. Para fortalecer o euro e estabelecer as bases para uma união política, os líderes europeus devem realizar um processo rápido e explícito de integração linguística.

Ao mesmo tempo, os governos nacionais poderiam minimizar os custos políticos e de transição na adopção de uma língua comum - seja ela qual for - utilizando as suas próprias línguas nos assuntos internos. Ao contrário de uma moeda, as línguas podem facilmente coexistir numa área económica. De facto, os países deviam promover as suas línguas nacionais e os seus dialectos regionais - um património cultural inestimável e fonte de identidade num mundo cada vez mais globalizado.

Mudar o curso da história europeia exige uma acção corajosa, particularmente a adopção de uma língua comum. Caso contrário, a história europeia continuará a ser um círculo vicioso de fragmentação e de esforços falhados ao nível da integração.

Tradução: Deolinda Esteves/Project Syndicate