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A-24

Como as revoltas árabes mataram a narrativa da Al-Qaeda

por A-24, em 07.03.11
A Al-Qaeda é um dos grandes derrotados das revoltas árabes deste início de ano, mas não é certo que a organização fundada há mais de 20 anos por Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri não consiga encontrar oportunidades nos novos cenários abertos pelos movimentos que já derrubaram dois ditadores e combatem agora o coronel Muammar Khadafi na Líbia.

Estas revoltas "demonstraram que é possível alcançar mudanças políticas significativas sem recurso à violência terrorista", disse ao PÚBLICO Paul R. Pillar, que durante 30 anos analisou o Médio Oriente e os grupos terroristas para a CIA e hoje está na Universidade de Georgetown. Nesse sentido, "são um golpe importante na ideologia e na narrativa" da jihad" global.
Derrubar os autocratas árabes aliados dos países ocidentais, com o egípcio Hosni Mubarak à cabeça, foi desde sempre o objectivo principal da rede de Bin Laden. Como única alternativa a estes regimes, denunciados como corruptos e despóticos, a Al-Qaeda apresentava a sua interpretação do islão. E nesta narrativa, a violência surgia como método exclusivo para atingir qualquer mudança e quebrar o ciclo alimentado pelo apoio dos Estados Unidos a estes regimes. Da mesma forma que em Washington e na Europa cada um destes líderes era visto como a única alternativa aos grupos islamistas - considerados, da Al-Qaeda à Irmandade Muçulmana, igualmente assustadores.
Pillar avisa que é "demasiado cedo" para proclamar o fim da Al-Qaeda, como fazem alguns analistas. "É uma derrota total para a Al-Qaeda, que em mais de 20 anos foi incapaz de desestabilizar regimes que manifestantes desarmados derrubaram em poucas semanas na Tunísia e no Egipto", afirma, por seu turno, Jean-Pierre Filiu, professor nas universidades Science Po (Paris) e Columbia (Nova Iorque).
"Estas revoluções foram travadas sob slogans democráticos, heréticos para os jihadistas. A Al-Qaeda tem tentado aproveitar este novo cenário com a sua propaganda, mas a verdade é que no mundo árabe já ninguém liga ao que Bin Laden e Zawahiri dizem", nota ainda Filiu, numa entrevista por email.
O saudita apátrida tem-se mantido em silêncio, mas o egípcio Zawahiri já surgiu a comentar os acontecimentos recentes, tentado de forma quase desesperada reivindicar um papel para Al-Qaeda nestas revoltas e apelando, em simultâneo, à criação de um Estado islâmico no Egipto pós-Mubarak.
Entretanto, também a Al-Qaeda no Magrebe veio declarar o seu apoio à sublevação líbia, descrevendo-a como "guerra santa" e afirmando que faz sentido derrubar Muammar Khadafi porque o general é um "inimigo de Deus". "Lutámos constantemente e unicamente na vossa defesa", reclama ainda o grupo, dirigindo-se aos civis que na Líbia decidiram que era tempo de se revoltarem contra quem os oprimia, seguindo os exemplos dos vizinhos tunisinos e dos egípcios.

Uma opção estratégica

Filiu, autor de "Apocaypse in Islam", publicado já este ano nos Estados Unidos, descreve os movimentos de revolta nos países árabes como "democráticos, populares e inclusivos". E pacíficos, apesar de terem sido "obrigados a recorrer à violência na Líbia pela repressão ordenada pelo regime de Khadafi". Mas a guerra civil que se desenha na Líbia não retira importância ao facto de "a paz" ter sido a opção "enquanto [esta] foi viável". Para o professor especialista na rede de Bin Laden, esta foi, da parte dos manifestantes nos vários países, uma "escolha estratégica para confrontar a violência dos regimes reinantes, os seus exércitos, as suas milícias e os seus mercenários".


É por isso que Filiu vê nestes movimentos "a maior derrota infligida à Al-Qaeda desde o nascimento da organização". Para que serve o grupo de Bin Laden se a realidade demonstra que, afinal, a mudança não só é possível, como pode acontecer em semanas, sem bombistas suicidas nem slogans anti-América e anti-Israel? 
"No Egipto e na Tunísia há um sentimento muito forte de que tudo o que está a acontecer está a ser feito internamente, pelas mãos de egípcios e tunisinos. O foco internacional da Al-Qaeda é simplesmente irrelevante. E o argumento da Al-Qaeda, de que era preciso expulsar os Estados Unidos da região antes de ser possível qualquer mudança em casa, é simplesmente errado, como ficou agora provado", explica Nathan J. Brown, analista do think tank Carnegie Endowment for International Peace e professor na Universidade George Washington, autor de vários livros sobre política no mundo árabe e o islamismo.Uma enorme oportunidade

As palavras dos académicos também já tiveram eco nas declarações dos políticos. No Reino Unido, a secretária de Estado da Segurança, Pauline Neville-Jones, afirmou que estas revoltas promovidas por "jovens que pedem maiores liberdades" são uma "enorme oportunidade" para o esforço de contraterrorismo dos países ocidentais, ao enfraquecerem a teoria da Al-Qaeda - que os próprios países ocidentais tinham assumido - de que a democracia e o islão não são compatíveis. O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, preferiu sublinhar que estes acontecimentos "destroem o argumento da Al-Qaeda de que a única forma de uma população se livrar de um regime autoritário é através da violência extremista".
O grande trunfo de Muammar Khadafi na reconciliação com os EUA e com a Europa que ensaiara na última década foi precisamente o papel que podia desempenhar na luta contra a Al-Qaeda. "Os nossos serviços secretos estavam radiantes por poderem obter qualquer informação sobre a Al-Qaeda e, para além disso, a Líbia constituía para nós uma ligação a outros países do Magrebe onde a Al-Qaeda estava muito activa", afirma a antiga secretária de Estado de George W. Bush Condoleezza Rice, num documentário emitido há dias no canal de televisão France 5. A luta contra a Al-Qaeda serviu de justificação para o apoio a antigos e novos aliados, independentemente do grau de repressão que estes impusessem às suas populações.
Para Brown, a consequência imediata destes movimentos de revolta é ter "tornado a Al-Qaeda menos relevante, não tanto tê-la derrotado".

Uma retórica gasta

Num artigo publicado no site da CNN, o jornalista Peter Bergen ("The Osama bin Laden I Know") escreve que as revoltas no Médio Oriente vêm "sublinhar a crescente irrelevância da Al-Qaeda para os muçulmanos", notando que "mesmo antes de os revolucionários terem tomado as ruas da Tunísia, a Al-Qaeda já estava a perder a "guerra das ideias" no mundo islâmico".
Para Bergen, isso deve-se, por um lado, ao acumular de vítimas muçulmanas dos seus atentados suicidas (de que o Iraque é exemplo, desde que as tribos sunitas se revoltaram contra os fundamentalistas estrangeiros) e, por outro, ao simples facto de Bin Laden não ter nada para oferecer às dezenas de milhões de jovens desempregados e sem expectativas espalhados pelo mundo islâmico.
O britânico Jason Burke, jornalista e autor de vários livros sobre a Al-Qaeda, também considera que a retórica do grupo "já estava gasta antes da "Primavera árabe"". Num texto que assina no "Guardian", Burke nota que "a liderança da Al-Qaeda está física, cultural e ideologicamente demasiado distante dos acontecimentos actuais para poder desempenhar aqui qualquer papel significativo". Do Cairo a Bengasi (Líbia), "os slogans são uma rejeição explícita da mensagem da Al-Qaeda, não fazem qualquer referência a fé nem à "aliança cruzados sionistas", escreve Burke. E acrescenta: "Se Khadafi e Mubarak são descritos como traidores, é a nação - uma ideia que a Al-Qaeda vê como uma criação ilegítima do Ocidente - que eles traíram, não a umma, a comunidade global de muçulmanos."
Para alguns estudiosos, isto acontece não só por Bin Laden não ter nada a oferecer a estes jovens, mas também porque eles fazem parte de uma geração pós-islamista. "Assistimos à chegada de uma geração que nasceu na crise, que nunca considerou o islamismo como solução para todos os seus problemas, porque o islamismo já fazia parte da paisagem política quando esta geração se tornou politicamente consciente. Esta geração não é ideológica", afirmou em entrevista ao blogue Rue89 o politólogo Olivier Roy (autor, entre outros, de "Genealogia do Islamismo").Nathan Brown concorda que estes protestos não são liderados por movimentos ideológicos, "nem as suas exigências, para lá das reformas políticas, têm uma natureza ideológica", mas lembra que "os movimentos ideológicos não desapareceram". Na verdade, sublinha, "tanto os movimentos islamistas [a Irmandade no Egipto], como os sindicatos [relevantes na Tunísia] participaram [nos protestos] e provavelmente vão procurar ter um papel político mais forte" do que desempenhavam.

Paquistanização e irrelevância
Quanto à Al-Qaeda, a dúvida é agora saber até que ponto os jihadistas do Médio Oriente e do Magrebe vão conseguir aproveitar o período de caos político que se vive onde os líderes vão sendo derrubados - e o arrastar do conflito na Líbia. Brown, o analista do Carnegie Endowment, considera que "onde existir caos a Al-Qaeda vai beneficiar". Neste momento, afirma Paul Pillar, "a Líbia parece o país mais provável para a Al-Qaeda explorar oportunidades" e tentar ocupar os vazios.
Mas a prazo, contrapõe Jean-Pierre Filiu, o que "a revolução árabe" vai fazer é "aumentar a "paquistanização" da Al-Qaeda" que já se adivinhava nos últimos anos. "Os jihadistas globais vão funcionar cada vez como mercenários ideológicos dos jihadistas paquistaneses [e afegãos], fornecendo-lhes uma justificação "árabe" que é cada vez menos relevante."

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