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A-24

Cantonês, um "dialecto" que é mais velho que a língua oficial da China

por A-24, em 20.05.14
Cao Zhiyun


O cantonês, a língua franca de Cantão, Hong Kong e Macau, é considerado um dialecto chinês pelo senhor Cao Zhiyun, considerado a maior autoridade linguística chinesa nos chamados dialectos da China, e não só. O também vice-presidente da Universidade de Línguas e Cultura de Pequim defende que a língua chinesa tem diferentes interpretações porque aquilo que se entende por chinês não está claramente definido em contexto e citou o exemplo de Hong Kong e Macau, cuja Lei Básica estipula o chinês como uma língua oficial (juntamente com o inglês em Hong Kong e o português em Macau), sendo que mais de 90% das suas populações têm o cantonês como língua materna e não o mandarim, que é a língua oficial da China.
No caso de Macau, o académico descarta-se dizendo que "é um assunto de Macau" desde que ao nível do governo central o chinês seja o mandarim e a forma escrita seja a simplificada (e não a tradicional, usada em Macau, Hong Kong e também Taiwan). Para ele, o mandarim é que é "a forma padronizada do chinês" enquanto que o cantonês, tal como os restantes dialectos da China, são "variantes da mesma língua". Em Hong Kong gerou-se uma enorme indignação depois de o governo local ter afirmado que o cantonês não é a língua oficial da antiga colónia britânica, o que acabou por agudizar ainda mais a tensão em relação ao continente (em Hong Kong já há manifestantes que querem a independência). Para Cao, "preservar o cantonês e promover o mandarim não são objectivos contraditórios", pois a promoção do mandarim é importante com a aproximação entre Macau e o continente. Ainda assim, sublinha que o ensino do mandarim não deve ser obrigatório. "O nosso trabalho é problemático porque antes nos limitávamos a promover o mandarim, negligenciando a conservação dos dialectos locais, alguns dos quais desapareceram num curto prazo", disse. "O nosso objectivo é impor um sistema bilingue nas regiões com dialectos, para que falem esse dialecto e o mandarim. A distinção entre o dialecto e o mandarim está na função ou no local dos seus usos".
Em localidades que eu conheço como Zuhai, que pertence à província de Cantão, o uso do mandarim é cada vez maior devido à migração de gentes do norte da China e também da imposição do mandarim como a língua principal, o que faz temer que o cantonês possa desaparecer como desapareceram muitos outros dialectos, em Zuhai que há menos de 20 anos atrás favala-se praticamente só o cantonês. O académico, no entanto, acredita que isso não vai acontecer porque defende que o cantonês é o dialecto que está melhor preservado, é o mais forte e é o que tem mais funções. Além disso, tem um sistema de escrita integrado, que é o que falta noutros dialectos. "A omnipresença do mandarim favorece o reconhecimento da identidade chinesa", mas "pode haver um carácter único em Hong Kong e Macau, mas pelo menos nenhum problema desses acontece no continente".
O Ministério da Educação da China está apostado em preservar os dialectos chineses e também a cultura, como a típica e própria cultura de Macau (embora não seja isso que na prática se constata). O novo livro de Cao, lançado na última sexta-feira no Instituto Politécnico de Macau, fala da particularidade de Macau em ter preservado não só o cantonês como também fenómenos culturais que já desapareceram na China. "Muitas pessoas vêm a Macau pensando apenas nos casinos e não na riqueza da sua cultura", afirmou.
O cantonês, falado por cerca de 70 milhões de pessoas, é muito mais que um dialecto, pois é bem mais antigo que o mandarim. A antiga poesia chinesa, cuja pronunciação original é incerta, rima melhor lida em cantonês do que em mandarim, o que prova que o cantonês está mais próximo das formas antigas da língua chinesa que os restantes dialectos e o próprio mandarim. Este só começou a ser promovido como a língua oficial da China em 1909 após um decreto da dinastia Qing, o que não foi aceite pela autoridade cantonesa no início do século XX. O cantonês é ainda hoje muito usado nas comunidades chinesas dos Estados Unidos, Canadá ou Reino Unido (Chinatowns), pois as primeiras comunidades chinesas imigrantes eram precisamente de Cantão, sendo o cantonês a primeira forma de expressão chinesa com a qual os ocidentais entraram primeiramente em contacto. Portanto, se o cantonês é mesmo um dialecto, então é porque a China quer apagar o seu passado e uma parte de si. Sei que o mandarim é actualmente mais importante que o cantonês devido à quantidade de gente que o fala e ao peso que tem na China, daí eu precisar urgentemente de voltar a ter aulas disso, mas tenho imenso orgulho e prazer em saber falar o cantonês desde que sou gente. O cantonês faz parte da identidade de Macau e também da própria China (Cantão), portanto se não gostam dele, hoi sêk sí lã (vão comer merda).